Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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O Estado de S. Paulo / Reuters

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

EUA EM GUERRA

"Powell pede ?moderação? à TV do Catar", copyright O Estado de S. Paulo / Reuters, 6/10/01

"Uma emissora de TV do emirado do Catar, a Al-Jazeera, também chamada de ?a CNN árabe?, divulgou ontem imagens ?recentíssimas? do saudita Osama bin Laden, apontado como mentor dos atentados terroristas do dia 11 nos EUA, ao lado de seu lugar-tenente, o egípicio Ayman al-Zawahri, e outros colaboradores. A divulgação coincidiu com pesadas críticas do mundo árabe e do Comitê de Proteção dos Jornalistas (de Nova York) ao secretário de Estado, Colin Powell, que pediu ao emir do Catar, em visita aos EUA, para ?moderar? o tom antiamericano da Al-Jazeera.

Segundo a emissora do Catar, as cenas apresentadas ontem mostram a celebração de uma união entre a Al-Qaeda, de Bin Laden, e a Jihad, de Al-Zawahri. O encontro parece ter ocorrido em uma base terrorista da Al-Qaeda em território afegão. Observam-se ao fundo duas construções de concreto, algumas barracas de campanha e homens empapuzados, portando fuzis AK-47. Ouve-se também som de música. Nem Bin Laden nem o egípcio Al-Zawahri discursam nos trechos levados ao ar pela emissora do Catar. Não se sabe também se as cenas foram tomadas antes ou depois dos atentados cometidos nos EUA. Bin Laden veste uma túnica branca e bege e cobre a cabeça com um turbante afegão.

A Jihad egípcia, liderada por Al-Zawahri, está envolvida, além de outros atentados, no assassinato do presidente egípcio Anuar Sadat, em 1981."

 

"Um mundo sem imagens", copyright O Estado de S. Paulo, 7/10/01

"Vimos centenas de vezes a destruição do World Trade Center. Do Afeganistão, vemos poucas imagens. Tudo se opõe. O máximo da modernidade, o auge do atraso. A riqueza, a miséria. O capital, o nem-trabalho. As roupas da moda, os turbantes e burgas (a roupa que esconde a mulher). E, finalmente, a profusão de imagens e a proibição delas, pelos fundamentalistas islâmicos. Nem parece ser o mesmo planeta.

Os atentados de setembro tornaram visíveis alguns recantos do Afeganistão. Raras imagens, porque o Taleban até mata quem tenha um televisor! É como se a TV exibisse sua negação radical – não o crítico evangélico ou esquerdista do monopólio da Globo, mas o iconoclasta, inimigo de toda representação e imagem.

Mas o que vislumbramos desse remoto islamismo rural do Afeganistão, nas fotos de jornais ou nas imagens televisadas? Turbantes. Xícaras de café e chá (nada de álcool). Tapetes nas paredes, mais que no chão. Fuzis. Intensa presença masculina. Poucas mulheres, e veladas. (O que não apaga o erotismo. Um autor árabe diz que o véu torna a mulher mais desejável: o perfume e o tilintar das jóias despertam no homem um desejo – só imaginado – maior do que um brasileiro sente na praia povoada de fios dentais). Isso lembra um programa do Planeta Solitário, da editora australiana de viagens cult ao mundo exótico, Lonely Planet, ou dos canais Discovery e People & Arts. Nada que recorde o Jornal Nacional.

Talvez seja esse o maior contraste, na TV, entre o moderníssimo e o aparente atrasado. O público de Planeta Solitário viaja pelo mundo guiado por um rapaz ou uma moça, que dão a dose de exotismo conveniente a um europeu ou norte-americano. Recantos perdidos da África, da Ásia… O Terceiro Mundo virou destino turístico. Há agências de viagem, como a francesa Nouvelles Frontières, especializadas nesses rumos. Uma amiga francesa, Armelle, já guiou europeus pelo Iêmen, o que exigiu coragem.

São mundos diferentes que se defrontam. Convém lembrar o que sucedeu com os russos no Afeganistão. O que eles queriam não era absurdo. Uma de suas medidas foi abolir a compra de noivas. Levaram para Cabul não a Revolução Russa, mas a Francesa. Tentaram impor não o Manifesto Comunista, mas o Código Civil. Só que erraram de país. Seu erro não foi político, foi antropológico. Não perceberam que lidavam com uma cultura totalmente distinta. Porque o marxismo é muito ocidental. Acredita no progresso, na igualdade, na razão. Os russos encontraram um povo que vivia razoavelmente bem sem esses valores – um povo armado, invencível em suas montanhas. O comunismo e a União Soviética morreram ali: uma morte antropológica, mais que política. Erraram, não de estratégia política na Grande Briga com os Estados Unidos, mas de compreensão antropológica, no Big Game dos afegãos.

Há moral nessa história? Os norte-americanos também erraram, muito. Nutriram Bin Laden e o Taleban, o que mais precisamos dizer? Outro erro de compreensão do Outro. Capitalismo e marxismo são ocidentais e suas brigas, mesmo ásperas, são meio em família. Mas, enfrentando povos que eles não entendem, fizeram despontar o perigo. O perigo de um mundo sem imagens, como saiu na capa da New Yorker, com as duas torres defuntas, fantasmas cinzentos contra um fundo negro. É como se nosso mundo ocidental, que tem na TV seu maior produtor de sentido e de formas, ao se defrontar com quem abomina a reprodução e a imagem, encontrasse finalmente seu grande, inesperado inimigo."

"Ataque ao Afeganistão ganha manchete nos principais jornais online", copyright Jbonline, 7/10/01

"As edições dos principais jornais do planeta na rede mundial de computadores destacam, nesta virada de domingo para segunda-feira, o bombardeio anglo-americano ao Afeganistão.

O jornal ?Le Monde? diz que o presidente francês Jacques Chirac anunciou que de tropas da França vão participar das operações. Segundo o jornal, a maior parte da classe política francesa apoiou a ação militar contra o Afeganistão.

O ?El País?, da Espanha, tenta explicar através de infográficos como se deram os ataques ao país governado pelos talibãs. Uma foto de Osama Bin Laden também está exposta na primeira página do site, lembrando as palavras do líder terrorista, de que os Estados Unidos não voltarão a se sentir seguros?.

Na Itália, o ?La Reppublica? já destaca a terceira onda de ataques às cidades afegãs. Uma fotografia do primeiro-ministro Silvio Berlusconi vem com a seguinte legenda: ?A Itália está pronta para a ação militar?.

A versão online do ?Washington Post?, ainda com data de domingo, analisa detalhes da operação lançada sobre o Afeganistão. Já o colorido ?USA Today? preferiu dar destaque a uma frase proferida por George W. Bush durante seu discurso de domingo: ?Nós não vamos hesitar?."

    
    
                     
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