Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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O estranho caso do charuto de Clinton

Por lgarcia em 05/09/1998 na edição 52

Argemiro Ferreira, de Nova York

 

O

humor mais atrevido das onze e meia da noite nas redes NBC, CBS e ABC, que entre 21 de janeiro e 31 de julho produziram 1.172 piadas sobre a “relação imprópria” do presidente Bill Clinton com Monica Lewinsky, na última semana de agosto passou a sugerir histórias, pouco claras para o público, a respeito do charuto que Clinton só fuma parcimoniosa e discretamente.

Em meio à onda de piadas sobre charutos, Jay Leno – herdeiro na NBC do célebre Tonight Show de Johnny Carson (formato adotado no Brasil por Jô Soares), abriu o jogo antes dos concorrentes. Monica também teve “relação imprópria com o charuto do presidente”, disse. “Tenho procurado descobrir como falar sobre essas coisas num canal que não é a cabo”, acrescentou.

Referia-se à autocensura que se impõem os canais da TV aberta nos EUA – ao contrário da TV a cabo, que após certa hora não hesita em apresentar até sexo explícito. Mas as histórias sobre o charuto estão agora em toda parte. “Monica disse ao grande júri que Clinton se excitava com atividades que os americanos descreveriam como pouco ortodoxas”, disse o canal Fox News.

Quem primeiro falara disso, a 22 de agosto, fora Matt Drudge, celebrizado em janeiro por ter revelado o escândalo de sexo antes da imprensa. Agora ele disse na sua coluna da Internet que a mídia buscava a maneira apropriada de relatar detalhes escatológicos que podem ter sido contados no depoimento de Monica sobre os encontros dela com Clinton no gabinete oval.

Drudge, acusado de jamais verificar a veracidade daquilo que divulga, não poupou os detalhes envolvendo o charuto, talvez usado por Monica de forma a excitar Clinton – enquanto o palestino Yasser Arafat esperava do outro lado da porta. Em coluna no Washington Post, o jornalista Howard Kurtz falou dos outros veículos e informou que o seu “não confirma a alegação”.

O Post, aparentemente, tentou no mínimo verificar se havia fundamento na história. Uma comentarista do circuito da fofoca em Washington – Mary Matalin, feroz adversária do marido James Carville, assessor fiel e informal de Clinton – também fizera referência crítica vaga a “charutos” no decano dos programas políticos do país, o Meet the Press da NBC.

Kurtz procurou Matalin depois e ouviu um mea-culpa: “Acabou escapando durante o programa. Não acho que essas coisas devam ser contadas. E não acho que tenhamos de saber delas”. David Shuster, o repórter da Fox News que falou do assunto, também foi ouvido: “Fiquei meio embaraçado. Não me senti pessoalmente à vontade em falar disso. Talvez excesso de pudor”.

O repórter pode ter ficado embaraçado, mas não o patrão dele, Rupert Murdoch, dono da News Corporation. A coluna de mexericos do New York Post, outro veículo de seu império, também disse que o episódio estará “supostamente” (essa foi a palavra usada pelo jornal) contado no relatório a ser encaminhado ao Congresso pelo promotor independente Kenneth Starr.

Também é encarada como referência à história do charuto a afirmação feita pela austera Newsweek, no fim de agosto, de que o relatório de Starr sobre o caso Monica Lewinsky vai incluir “detalhes sexuais gráficos que farão as pessoas vomitarem”. O eufemismo e a pudicícia, nesse e nos outros casos, parecem parte do mesmo jogo hipócrita da mídia a exibir moralismo.

Até 31 de agosto, menos de 10 dias após a nota de Drudge, vários veículos maiores ajudaram a disseminar a história, que não se sabia se era ficção ou realidade: Times de Londres, redes NBC (Meet the Press), Fox News e CNBC (Hardball), N. Y. Post, Washington Post, Newsweek – além dos shows de humor e do tablóide Star, cuja fonte foi a grande imprensa.

Muitos atribuem o fenômeno à competição feroz na mídia tradicional, sob pressão dos veículos on-line. Após o desacreditado Drudge Report, também Hotline, revista on-line respeitada entre políticos e jornalistas, amplificou a história. E a ela somou-se a gigante America On-Line, cujo colunista Roger Simon disse: “No passado isso era mexerico. Hoje chamam de jornalismo”.

Talvez sejam mais sinceros, na sua crueza, os talk-shows mais populares do rádio – de Rush Limbaugh, ultraconservador que despreza Clinton como a encarnação do diabo, a Howard Stern, mais adepto da libertinagem (e da pornografia) do que do liberalismo. Eles já passaram a discutir abertamente a história do charuto com sua vasta audiência nos quatro cantos do país.

Para quem conhece a história do cinema e os truques de bilheteria da velha Hollywood hipócrita o paralelo inevitável é entre a mídia de hoje e a filosofia de Cecil B. de Mille, o cineasta dos grandes espetáculos bíblicos. Primeiro ele mostrava o pecado – as bacanais e a devassidão. Só depois remetia ao fogo do inferno os pecadores e fazia triunfar a religião e a castidade.

 


A.F.

 

N

o 24º aniversário da renúncia do presidente Richard Nixon os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, cujas reportagens ajudaram a devassar o escândalo de Watergate, declararam-se convencidos de que a gravidade daquela crise não pode ser comparada a um caso de “sexo consensual”, como o que hoje ameaça o presidente Bill Clinton.

“O principal acusador de Nixon era John Dean, que ao deixar a Casa Branca levou provas. Aquelas provas eram documentos ultra-secretos nos quais o presidente Nixon essencialmente dizia ‘Vamos usar o FBI e a CIA para invadir casas e escritórios de pessoas, fazer gravações ocultas e violar correspondência’. Autorizava um estado policial”, disse Woodward na TV.

Para ele, isso é totalmente diferente da prova de que se dispõe atualmente: “Agora, 25 anos depois, não existe nada daquela magnitude. O que se tem é um vestido”. Bernstein completou o raciocínio, na entrevista dos dois ao programa Meet the Press, da rede NBC, dia 9 de agosto: “O que está em questão hoje é a vida privada do presidente, apenas um caso de sexo consensual”.

Segundo Bernstein, Watergate era “abuso de poder, vasto e profundo, praticado por um presidente criminoso, que mandou casas serem invadidas, ordenou explosões de bombas e incêndios, além de gravações ilegais, que se apoderou de agências do governo e usou-as para propósitos políticos pessoais. E que subverteu por meios ilegais o próprio processo eleitoral”.

Para Woodward e Bernstein, o que há hoje, o caso da ex-estagiária da Casa Branca, é “pura insanidade” e a lei do promotor independente, que veio de Watergate, devia ser para abusos de poder como os de Nixon e não para policiar conduta sexual. “Confundem alhos com bugalhos, deixam o país à beira do precipício, em situação perigosa, talvez trágica”, afirmou Bernstein.

Gente sensata, que pensa, tem de se reunir e evitar o pior, disse Bernstein. Gente como o deputado republicano Henry Hyde, presidente da comissão de Justiça da Câmara, à qual cabe formar processos de impeachment, ou o promotor Kenneth Starr e o advogado de Clinton, David Kendall. “Antes de 17 de agosto eles precisam fazer algo para resolver essa coisa”.

A data a que se referiu era a do depoimento de Clinton, que ocorreu como previsto. Woodward disse que se estava “à beira de uma tragédia”, e que Starr e Kendall deviam sentar-se à mesa e dizer “Para onde essa coisa toda vai nos levar? O que é isso, afinal? Quais serão as conseqüências para o país? Agora, precisamos considerar os interesses maiores”.

Mas nada disso aconteceu. O fundamental, para Bernstein, seria um recuo e o abandono da idéia de um confronto jurídico envolvendo a presidência dos EUA por causa de um caso de sexo consensual. “Acho que daqui a 10, 20, 30 anos, as pessoas vão olhar para trás e encarar esse episódio todo como uma espécie de insanidade nacional”.

Woodward lembrou que a investigação já despira a presidência dos EUA de cada um de seus privilégios – do privilégio executivo, do privilégio cliente- advogado, do Serviço Secreto. “Temos agora uma presidência desprovida de parte de seu poder. É o preço que se paga – e por quê? Essencialmente para se tentar saber se é verdade que houve um caso de sexo consensual.”

Bernstein criticou também a Suprema Corte pela decisão que permitiu o prosseguimento do processo de assédio sexual movido pela ex-funcionária Paula Jones contra Clinton. “A corte disse então que o presidente certamente teria tempo para enfrentar algo como isso. Mas estamos vendo agora que o presidente está sendo sufocado por isso”.

O fato de ter sido ampliada a investigação de Whitewater, loteamento dos Clintons no Arkansas, para incluir outras questões e afinal concentrar-se no caso de sexo foi comparado por Bernstein a um processo de crime de guerra em Nuremberg que se limitasse, no fim, a mera e insignificante infração de trânsito. “Perdeu-se o senso de proporcionalidade”, disse.

Os dois jornalistas disseram ainda que o promotor Starr teria poderes para encerrar o caso. Para incluir a investigação de sexo ele alegara que poderia ligar esse caso a Whitewater, para provar um padrão de obstrução de justiça: Webster Hubbel, ex-sócio de Hillary Clinton, teria sido silenciado ao ganhar um emprego, como também teria ocorrido com a ex-estagiária.

O promotor, para Bernstein, nada conseguiu nesse caminho para provar o padrão de obstrução, então concentrou-se no que é simplesmente um caso de sexo. “Ele obviamente ainda acha que houve obstrução da justiça. Mas para esconder o quê? Para esconder o que seria simplesmente um caso de sexo consensual. Assim, o racional é pôr fim a isso”, acrescentou Woodward.

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