Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > PROVÃO II

O exame em revista

Por Geraldo Araujo em 13/06/2001 na edição 125

PROVÃO II

Há várias dificuldades em se defender uma posição contrária ao Exame Nacional de Cursos ? o Provão do governo federal. O maior deles, no entanto, é lutar contra um discurso adversário que tem como ponto principal a violência do discurso imperativo. Para os defensores do Provão, todos que não aceitam, em parte ou no todo, a avaliação do MEC, ou são trogloditas, primitivos, ignorantes ou são adeptos de alguma facção radical de algum partido marxista. Com os defensores do Provão não há meio termo, os que ousam discordar do exame são pobres coitados sem iluminação.

A prova da atitude pouco respeitável com os opositores está expressa na Revista do Provão que, em vez de limitar seu enfoque nas qualidades defendidas pelos autores, vai do início ao fim atacando as críticas contrárias ao instrumento de avaliação do governo federal, de forma agressiva e até mesmo bélica, desfilando em suas páginas argumentos duvidosos e alguns vazios de verdade mais ampla, configurando apenas um simulacro, uma visão da realidade pretendida.

A abertura da Revista do Provão é a maior prova da falta de hábito de debate democrático no informativo do MEC (e pago com o dinheiro público, ou seja, de quem adere ao Provão ou participa do boicote). O impresso dirigido aos alunos dos cursos avaliados no exame peca pela intransigência de artigos e matérias publicadas. A utilização da peça de humor de um estudante de Comunicação adesista mostra, na verdade, que o movimento estudantil contrário ao instrumento do MEC incomoda muito mais do que o minist&eaceacute;rio aparenta.

Principalmente o movimento dos estudantes de Comunicação liderados pela Enecos, a Executiva da Comunicação Social.

O professor Victor Gentilli, em artigo no Observatório da Imprensa, também é adepto da ridicularização e da descaracterização da capacidade crítica dos adversários do Provão, o que não prova muita coisa. No artigo, o integrante da comissão da área de jornalismo utiliza as questões levantadas pela Enecos e cria outra ilusão de respeito ao pensamento divergente. Mas, no conjunto, reafirma a falta de base acadêmica ou profissional ou ainda cultural mais ampla dos segmentos estudantis para poder formular idéias mais eficazes nos modelos de avaliação. Como os "integrados" citados por Umberto Eco (em "Apocalípticos integrados"), o Provão é a o melhor instrumento para a melhoria da educação superior do Brasil, e não cabem críticas ao seu conteúdo ou à sua formulação. Ele é bom e o pensamento imperativo impede dúvidas.

O artigo da página 36 da Revista do Provão, assinado pelo gerente de programas jornalísticos da TVE (do governo) e ex-editor-chefe do Jornal Nacional da Rede Globo (governista), jornalista Luís Edgar de Andrade, é outra peça de encomenda do rolo compressor da propaganda do reinado de FHC II. Depois de mostrar seus conhecimentos da história dos cursos de Jornalismo no Brasil, vem se mostrar "surpreso" pela notícias do boicote ao exame por parte de UFF, UFRJ e mais ainda da Cásper Líbero. O autor do artigo, querendo demonstrar inocência e indignação, manda o velho texto do papai-governo, "Azar o deles…", e tenta findar as suas linhas com uma suposta dose de conhecimento de vinhos. Acredito que os nomes mais famosos que passaram na frente do JN foram Armando Nogueira e infelizmente o inexpressivo capataz Alberico Souza Cruz. A palavra do articulista tem jeito de coisa usada, e sua assinatura não causa efeito na lida.

No domingo, 10/6, vou comparecer ao local do exame e sem nenhum constrangimento somente assinarei a prova, configurando a minha atitude de boicote ao equivocado instrumento de avaliação. Sem medo, por achar que somente os meus professores da instituição onde curso Jornalismo são aptos a proferir uma avaliação coerente e ampla sobre os meus conhecimentos e práticas de estudo.

Faço isso por achar que a avaliação é somente uma peça de propaganda da política (ou falta de) do MEC, não tendo em seu conjunto ou essência o objetivo claro de aperfeiçoar a realidade dos cursos de ensino superior. Porque o governo se utiliza do Provão para fugir das suas responsabilidades constitucionais no que tange à educação. Vou boicotar o Provão sem medo, pois tenho a consciência do meu conhecimento adquirido dentro e fora da instituição de ensino, já provado no mercado com elogios de profissionais ativos. A posição de boicotar o exame é uma maneira de mostrar aos portadores do discurso imperativo que, apesar da intransigência por parte deles aos conceitos de debate democrático e o esforço para tentar abafar uma comunidade crítica e destemida, há vários jovens que não se amedrontam com ameaças, mesmo aquelas vindas do governo.

Os defensores da política educacional do governo atual fingem que não estão preocupados com o boicote, assim com outros auxiliares de FHC fingiram não existir uma crise energética. Dentro de todas as realidades virtuais espalhadas pelos instrumentos do governo e dos organismos que dividem o poder político e econômico, a imagem do Provão que o MEC quer passar não é a mais forçosa e destituída de base mínima. Lendas como "a maioria das empresas está exigindo a nota do Provão", além de ser objeto de ameaça, mostram a deturpação do próprio discurso das autoridades, que informam que o exame é somente para analisar as instituições. Mas como 2002 está chegando e a possibilidade de a política atual ser rejeitada nas eleições presidenciais é muito grande, acredito que a luz volte a reinar na esfera educacional e os integrados oniscientes voltem para suas associações orgânicas, livrando por algum tempo o país de suas práticas tirânicas de discursos e ações.

(*) Estudante de Jornalismo, Faculdades Integradas Hélio Alonso, Rio de Janeiro

Victor Gentilli responde: Concordo quanto ao mau gosto da revista do Provão. Posta a premissa, penso que o colega Geraldo Araujo acha que humor serve apenas para criticar os outros. É preciso aprender a ver com bons olhos críticas supostamente bem humoradas de quem pensa diferente. Releio meu texto e procuro ver onde desqualifico estudante para expor idéias, argumentos e raciocínios. Sim, coloco idéias, argumentos e raciocínios diferentes; mesmo assim, alguns contra o que entendo crítica malfeita ao provão, outros contra a forma de boicote, que considero covarde e irresponsável. Vamos dialogar, Geraldo, o Observatório continua às ordens para você expor seu pensamento sobre o jornalismo e o ensino de jornalismo.



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