Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CRISE DE GESTÃO

O fim de uma era

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

CRISE DE GESTÃO

Morreu o "Cidadão Kane" brasileiro. É assim que um texto sobre a morte de Roberto Marinho, assinado por Carin Petti e Richard Adams, ganhou as páginas do britânico The Guardian da segunda-feira (18/8). Sob o título "Agora o samba acabou", a matéria afirma que o desaparecimento de Marinho abalou o império que construiu, "mas a mídia do país já estava em crise, com a turbulência econômica custando centenas de empregos".

O texto do Guardian segue em um tom cuja ousadia não foi vista na mídia brasileira. Talvez porque a Grã-Bretanha, país de origem do polêmico documentário Muito Além do Cidadão Kane, produção do Channel Four sobre as Organizações Globo, não tenha tanto a temer ao expor algumas verdades incômodas a respeito do principal empresário da mídia brasileira.

A morte do "magnata da mídia brasileira que poderia ter saído diretamente dos moldes do Cidadão Kane" marcou o fim de uma era na mídia brasileira, segundo o Guardian. "Ao assumir O Globo, jornal de seu pai, aos 21 anos, Marinho construiu um império comparável apenas aos de Rupert Murdoch e Silvio Berlusconi".

O jornal afirmou que o futuro de seu filho, Roberto Irineu, que agora assume a presidência do conglomerado, é incerto. "O império luta para pagar dívidas internacionais da ordem de US$ 1,4 bilhão, fortemente prejudicado pela desvalorização da moeda do Brasil e pela crise econômica que assolou o país". O diário britânico disse que mesmo a poderosa TV Globo, com 20 mil empregados e rendimento anual de quase US$ 1,6 bilhão, "não está imune à tempestade financeira que esta abatendo a mídia brasileira".

Financial Times

A edição online do Financial Times da mesma segunda-feira também trata da crise da mídia no Brasil ? analisada, como no Guardian, a partir do gancho oferecido pela morte de Marinho. O diário econômico avalia que a saída de cena do jornalista não poderia ocorrer em hora pior, visto que a holding Globopar está inadimplente com seus compromissos financeiros desde outubro passado. "A presença de Roberto Marinho não era mais relevante na administração da empresa, mas sua morte foi psicologicamente muito ruim", afirmou ao FT um executivo de mídia não identificado.

O jornal cita ainda a influência da Rede Globo sobre a vida brasileira, cujo sinal alcança 99,99% dos lares com aparelho de TV e determina a base da cultura popular nacional. De outra parte, as revistas e jornais do grupo perdem dinheiro e o mercado de publicidade está em declínio.

De acordo com nota do jornal online Último Segundo (18/6) sobre a matéria do Financial Times, "para muitos observadores, a solução da Globo seria vender as divisões menos lucrativas e manter o que sabe fazer" ? isto é, televisão. "Graças a um sistema que recompensa as agências de publicidade pelo volume de negócios que elas atraem, a TV Globo captura 75% dos lucros de publicidade do Brasil com uma audiência de 50%."

Ao analisar a matéria do FT, o boletim eletrônico Tela Viva News (18/6) informa que "fonte qualificada dentro do grupo Globo (…) declarou recentemente a este noticiário que os acionistas não aceitam a interferência dos credores na escolha do principal executivo da empresa, e nem dar ações da Globo como garantia". De acordo com o diário econômico britânico, o projeto de reestruturação prevê cortes de 25% e alongamento de 12 anos na dívida estimada em 1,7 bilhão de dólares.

Tiro no pé

A morte do magnata suscita uma questão mais ampla. A reportagem do Guardian quis mostrar, factualmente, a crise do jornalismo brasileiro, cujas redações estão demitindo em massa. "As redações das principais organizações noticiosas brasileiras estão cheias de computadores inúteis e escrivaninhas vazias", diz o Guardian. "Os antigos ocupantes estão neste momento em casa, procurando emprego."

O Guardian afirmou ainda que a mídia brasileira está se desfazendo por causa de dívidas pesadas, preços altos e falta de receitas publicitárias, o que vem acarretando profundos cortes de gastos. Segundo o que apurou junto aos sindicatos profissionais, mais de 500 postos desapareceram apenas no ano passado.

A desvalorização do real em relação ao dólar teve conseqüências drásticas para as organizações de mídia do país, especialmente a Globo, sustenta o Guardian. Afora as dívidas com credores externos, as emissoras privadas do Brasil costumam importar programação dos EUA, cujos preços, em dólar, agora ficaram insustentáveis.

"Na tentativa de voltar a lucrar, a Globo vendeu alguns de seus negócios periféricos, inclusive um banco, uma construtora e sua participação na companhia de telecomunicação NEC", informa a matéria. "Também tomou medidas amplas de contenção de gastos. Isso inclui retirada de fundos da Editora Globo e do jornal Valor Econômico, iniciativa conjunta com a Folha de S.Paulo."

Lembrando que 60% do papel de imprensa brasileiro é importado e pago em dólares, o Guardian cita mais um elemento que contribui para a paisagem econômica caótica da mídia do país, neste caso a impressa. Assim, a mais antiga e poderosa forma de comunicação brasileira, o jornal, não tem como escapar à crise. É o caso do Estado de S.Paulo. "Após ser dona de O Estado de S. Paulo, um dos mais influentes jornais do país, por 132 anos, a família Mesquita não controla mais o Grupo Estado, graças às dificuldades financeiras."

O artigo do jornal britânico lembra que até dezembro do ano passado, segundo a legislação brasileira, investidores estrangeiros não podiam comprar partes das companhias midiáticas do país. Uma recente emenda constitucional ao artigo 222 mudou o quadro, passando a ser possível a empresas de fora comprar até 30% das ações de uma companhia de mídia nacional. A ironia é que, por enquanto, não há sinais de qualquer movimentação dos investidores estrangeiros para entrar nos negócios. Ironia maior ainda, segundo o Guardian, é o fato de "companhias de mídia brasileiras que fizeram lobby a favor do limite de 30% na propriedade, agora acharem que esses 30% são um impedimento… A indústria da mídia do Brasil está agora competindo com outros países com regras mais atraentes. Só agora estão percebendo que podem ter dado um tiro no próprio pé".

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