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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > LIÇÕES INESQUECÍVEIS

O furo e o prejulgamento

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

LIÇÕES INESQUECÍVEIS

Otavio Frias Filho (*)


Texto da “orelha” do livro O jornalismo dos anos 90, de Luís Nassif, 320 pp., Editora Futura, São Paulo, 2003; preço R$ 45,00; <http://www.edfutura.com.br>; título da redação do OI.


A imprensa deveria ir mais fundo na apuração das irregularidades, deveria dar mais evidência às injustiças e falcatruas que se cometem contra o cidadão comum, deveria expor a realidade de forma nua e crua, sem rodeios. Por outro lado, a imprensa deveria também evitar a incitação de linchamento morais, seu poder deveria ser utilizado de modo mais criterioso, a busca do furo não deveria justificar suas freqüentes precipitações.

Critica-se o jornalismo por ser omisso e invasivo, por ser comprometido e irresponsável ao mesmo tempo. Luís Nassif vem dedicando boa parcela de seu talento eclético ? como influente colunista que atua em jornal, TV, internet e rádio ? a resolver esta contradição que dilacera o jornalismo nos nossos dias.

Falsa contradição, em grande medida, que só pode ser superada pela evolução qualitativa da própria mídia.

Não se trata de uma vaga constatação. Caso raro de polemista destemido, mas avesso a dogmatismos, Nassif teve papel decisivo na revelação dos dois erros mais célebres do jornalismo brasileiro recente, os casos do bar Bodega e da Escola Base, esmiuçados neste livro. Sua militância crítica alcança, no entanto, toda uma série de outros “pequenos assassinatos” que a imprensa comete a cada dia por incúria, prepotência ou mera pressa.

No começo do livro, o autor relata certo episódio da infância que o tornou refratário, para sempre, à intimidação das unanimidades. Num ambiente corporativo como o de qualquer profissão, numa época em que seria tão mais fácil enaltecer as proezas que culminaram no impeachment de Collor (outro caso debatido no volume), Nassif tem remado contra a corrente, apontado falhas, revelando matizes, criticando maniqueísmos. Sua legitimidade para criticar deriva tanto da trajetória de grande êxito profissional, em que aproximou jornalismo econômico e direitos da cidadania, como da atitude sempre respeitosa para com os colegas.

Nem todas as suas conclusões são pacíficas, nem todos os seus argumentos são irrefutáveis. O jornalismo não é uma ciência, muito menos exata. Nada mais discutível, talvez, do que estabelecer um relato fidedigno sobre a verdade. Luís Nassif enfrenta com entusiasmo essa eterna dificuldade, para vislumbrar um jornalismo sempre falho e precário, mas dinâmico, capaz de se distinguir pela velocidade com que se corrige e melhora.

(*) Diretor de Redação da Folha de S.Paulo

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