Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O Globo

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

GUERRA & BIOTERRORISMO

"Fato e boato", editorial copyright O Globo, 21/10/01

"Quem espalha terror é terrorista. Num momento em que as emoções ameaçam impor-se à sensatez, é freqüentemente necessário enfatizar o óbvio, em especial quando ele faz lembrar o que à primeira vista pode não ser evidente.

Simplificando: pratica o terror, sem dúvida, quem tenta espalhar o pânico enviando cartas contaminadas com antraz para toda sorte de destinatários. E tem a mesma intenção quem o imita usando substâncias inofensivas. Ambos desejam o pânico, a quebra da normalidade, a destruição das estruturas sociais.

Pode-se alegar que o terrorista que não mata é apenas uma pessoa desequilibrada. De certo há algo de errado com seus processos mentais, mas esse álibi apenas determina a forma de isolamento que manterá a sociedade a salvo dos efeitos de seus problemas mentais. Em suma: o terrorista do talco precisa ser denunciado, processado e afastado do convívio social. Se for o caso, deverá ser submetido a tratamento psiquiátrico.

Ver no falso assassino um brincalhão apenas cretino é reação de quem não entende o que se passa no mundo nestes dias especialmente difíceis e trágicos.

Os meios de comunicação, assim como as autoridades (igualmente responsáveis pelas informações que chegam à comunidade), têm atribuições especiais. É sabido e aceito que cabe à mídia o dever de distinguir o fato do boato, e não divulgar o segundo para evitar que se torne indistinguível do primeiro.

Comedimento idêntico deve pautar o tratamento das notícias de falsos atentados. Muitos podem ser ignorados, pela falta de repercussão e conseqüência. Outros exigem registro (inclusive porque seria um erro esconder o fenômeno da sociedade). Mas faz-se obrigatório evitar qualquer conotação alarmista e acompanhar, com a ênfase merecida, a investigação dos episódios, e principalmente a identificação e processo dos culpados."

 

"Imitação da vida em Hollywood", editorial copyright O Globo, 21/10/01

"Tenho uma amiga que, há tempos, se corrói numa dúvida atroz. Ela não sabe se, nos Estados Unidos, o cinema imita os americanos ou se os americanos imitam o cinema. Cita como exemplo o cinto de utilidades que a gente costuma ver nas telas enfeitando o uniforme dos bombeiros de Nova York. Quando deparou-se com um, na vida real, numa rua de Manhattan, não pôde evitar o riso. Acreditava que aquilo era invenção do cinema. Mas… será que não era mesmo?

É claro que, no fundo, no fundo, minha amiga acha que o americano imita o que vê no cinema. Não teria sido Hollywood que levou para as telas o American way of life . Hollywood simplesmente inventou o American way of life . Influenciado por minha amiga, sempre me perguntei como reagiria o americano ao perceber que sua vida não correspondia ao que ele via nas telas. Tive uma experiência disso durante os Jogos Olímpicos de Atlanta. A cidade se preparou para organizar as maiores Olimpíadas de todos os tempos. A mais segura da História. O americano acreditou e presenciou um fiasco. No segundo dia, o metrô da cidade deu pane. Pior: com toda a segurança que, aparentemente, cercava os estádios e locais utilizados por atletas e espectadores, uma bomba explodiu no orgulho da cidade, o parque construído especialmente para a festa. O resultado foi uma morte e a estupefação dos americanos. Eles reagiram como se o filme os surpreendesse sem um final feliz.

Mais nada, até hoje, está comprovando a proximidade entre o cinema e o American way of life do que esta guerra dos Estados Unidos contra o terror. Vamos combinar que a guerra faz parte do modo de vida americano, certo? Então só o cinema pode ensinar ao país como se comportar. Foi de cinema que todo mundo se lembrou quando os dois aviões chocaram-se contra as torres gêmeas do World Trade Center. Parecia cena de filme de Arnold Schwarzenegger. A cobertura de televisão ampliou a semelhança. Dois arranha-céus foram ao chão. Imagina-se que houve muitas mortes. Mas quase não se viram corpos na TV. Foi como no cinema. Explode-se muito, mas morre-se pouco. Ou, pelo menos, o espectador vê muitas explosões, mas não vê muitas mortes. O cineasta Robert Altman deu a deixa, em entrevista publicada pelo GLOBO esta semana, ao comentar os ataques de 11 de setembro: ?Ninguém jamais pensaria em cometer uma atrocidade destas se não tivesse visto algo parecido num filme.? E arrematou: ?Ensinamos como fazer a coisa.?

Altman teve a coragem de dizer o que todo mundo estava pensando. De onde mais surgiria a idéia de um avião atravessando um edifício de mais de cem andares?

Logo após os atentados, o governo americano pediu ajuda a quem mais entendia daquilo: o cinema. Roteiristas e especialistas em efeitos especiais desenharam cenários de possíveis próximos atentados. Não foram eles que inventaram o terrorismo no cinema? Não foram eles que os terroristas da vida real imitaram? Então, nada mais natural que eles botem a cabeça para pensar para o governo.

E os laços ficaram mais estreitos esta semana quando, numa reunião com executivos da indústria cinematográfica, a Casa Branca pediu que fosse organizada uma força-tarefa em Hollywood. Como a comunidade cinematográfica pode participar do esforço de guerra? Nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, os artistas corriam o país vendendo bônus de guerra. Hoje, isso não é preciso. Basta organizar um show pela televisão e pedir doações pelo telefone. Ninguém sai de casa e o papel está cumprido. Na guerra passada, artistas se apresentavam para soldados no front. Bem, um show no Afeganistão arrasado não chega a ser uma boa idéia. Esse tipo de ajuda, Hollywood não pode mais prestar. Sobra então a arma mais eficiente usada no passado e a única que Hollywood pode usar hoje: a produção de filmes patrióticos. Para ser mais eficiente ainda, tudo indica que o governo vai cobrar da indústria a sensibilidade de não produzir histórias que possam manchar a imagem do país.

Censura? Pelo menos, foi assim que se chamou a intervenção do governo Bush na televisão americana para determinar o comportamento das emissoras em relação à transmissão de entrevistas de Bin Laden e autoridades afegãs. Bush já disse o que a televisão não pode mostrar. Agora, quer fazer o mesmo com o cinema."

 

"CNN pode ignorar versão de Bin Laden", copyright Valor Econômico / The New York Times, 18/10/01

"A CNN informou que apresentou seis perguntas por escrito a Ossama bin Laden e que sua expectativa é que ele as responda no seu próximo vídeo.

A CNN enfatizou que não tem obrigação de divulgar as respostas de Bin Laden. ?Se ele apenas fizer propaganda, não há razão para que levemos a entrevista ao ar?, disse o presidente da CNN, Walter Isaacson. ?Só divulgaremos se for notícia.? A Casa Branca não comentou o assunto.

Na semana passada, diversas redes de TV americanas, inclusive a CNN, disseram que atenderiam à sugestão do governo americano, de que tivessem ?cuidado? ao divulgar declarações de Bin Laden, que supostamente poderiam incitar a violência ou enviar mensagens em código para terroristas.

Segundo a rede de TV, um homem que dizia representante da Al-Qaeda, organização chefiada por Bin Laden, fez um convite, através da rede árabe de comunicações Al-Jazeera. Foi essa rede, com sede no Qatar, que divulgou as declarações anteriores de Bin Laden, principal suspeito dos atos terroristas de 11 de setembro.

Não se sabe se Bin Laden vai responder as perguntas nem quando o vídeo será divulgado."

    
    
                     
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