Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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O Globo

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

TIM LOPES, ASSASSINADO

"O bom combate", Editorial, copyright O Globo, 10/06/02

"A morte de Tim Lopes transcende a dor da perda de um profissional respeitado, de um amigo e companheiro de trabalho, de um marido, de um pai. Há tragédias que marcam de sangue o calendário de tal forma que se transformam em símbolo.

O repórter Tim Lopes foi assassinado em atividade profissional, em uma grande cidade brasileira, vítima do tráfico de drogas encastelado nas favelas. Não foi alvo de bala perdida. Ele se tornou alguém marcado para morrer exatamente por ser um jornalista no exercício da profissão.

É mal sinal quando repórteres começam a ser assassinados. Não que sejamos uma casta na sociedade, que queiramos ter imunidades especiais. Ao contrário. Quanto melhor o repórter, quanto mais apurada a qualidade do jornalismo praticado, mais próximo ele está das ruas, do povo, dos fatos duros e cruéis da vida real, e dos riscos. Como Tim Lopes. Assim como a febre indica a existência de alguma doença, este assassinato dá uma medida do avanço do crime, organizado ou não, e da barbárie sobre a vida de todos nós – uma doença que pode ser fatal se não for contida e vencida a tempo.

Olhos e ouvidos da sociedade, o jornalista é o inimigo preferencial de todos aqueles que querem ocultar e cometer crimes. Dos delitos mais aos menos graves. Dos criminosos mais poderosos aos menos. Dos crimes de colarinho branco aos comuns. Tim Lopes e suas reportagens atendiam aos aspectos mais nobres da missão da imprensa: jogar luz onde alguns querem que continue envolto em nuvens e trevas. Ao fazer reportagens substantivas de denúncias de maus-tratos a trabalhadores ou a doentes psiquiátricos, ao revelar o desrespeito debochado às leis pelo tráfico de drogas, Tim cumpria de forma eficiente essa missão. Morreu em combate.

Tim Lopes resolveu ir à Favela da Vila Cruzeiro a partir do telefonema de um morador do bairro da Penha à redação da TV Globo. Preocupado com a desenvoltura dos traficantes, ele não ligou para a polícia, nem buscou ajuda de outro órgão do poder público. Telefonou para uma redação. E o repórter atendeu ao chamado.

A imprensa, aqui e no mundo, tem passado por mudanças profundas. Os jornais foram fundados em torno de ideais políticos e ideológicos. Durante muito tempo, as redações constituíram-se em pólos aglutinadores de intelectuais defensores de projetos para sua nação e para o mundo. O tempo passou, os países se urbanizaram, ficaram complexos, e o mapa das ideologias embaralhou-se. Os jornais que sobreviveram à modernização da vida passaram a ser administrados também como empresas. Mas o sonho do jornalismo, transformado, sobreviveu.

As paixões político-partidárias esmaeceram-se e as redações converteram-se em usinas – tão ardorosas como as de antigamente – de produção de informações voltadas ao cidadão. Mesmo o escândalo político é investigado e divulgado não para destruir um inimigo partidário, mas para informar a sociedade. Há carreiras de homens públicos destroçadas. N&aatilde;o pela imprensa, mas pela divulgação da verdade. A rigor, a missão do jornalismo ganhou em nobreza.

E é por esse ângulo que se deve reverenciar Tim Lopes, um soldado da cidadania. Ao recorrer à Globo e não à polícia, o morador do bairro da Penha, com o gesto, simbolizou a incapacidade do poder público de debelar a maior crise de segurança enfrentada pelo Rio em mais de meio milênio de história. Liga-se para uma redação, não para a polícia.

O morador agiu corretamente. A distorção está nas circunstâncias vividas pelo Rio de Janeiro e outras grandes cidades brasileiras. Junto com Tim Lopes, foi alvejado o jornalismo investigativo. Mas como destacou editorial divulgado ontem pela TV Globo, ?temos certeza de que, mesmo diante deste atentado, a imprensa brasileira não abrirá mão do seu papel.? A imprensa não recuará, é certo.

Aliadas do cidadão, as redações sabem que o jornalista sempre paga um preço quando o Estado perde batalhas para algum poder que tenta sobrepujar a lei. É assim nos momentos de ruptura do Estado de direito, como no passado. Ou nas fases de violência desvairada, como agora.

Mas esta é uma guerra que não pode ser ganha apenas pela imprensa. Esta é uma guerra de todos – do Estado, da sociedade. Também não é uma guerra do estado e da cidade do Rio de Janeiro. É uma guerra do Brasil.

Que o assassinato de Tim Lopes não seja apenas símbolo desses tempos difíceis que vivemos. Mas que possa converter-se em um marco do início de uma efetiva reação contra o crime em todas as suas formas."


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"?O momento não é de revolta?", copyright O Globo, 10/06/02

"Alessandra Wagner, mulher do jornalista Tim Lopes, da TV Globo, enviou ontem um fax manuscrito à redação, logo após a confirmação da execução do marido. O texto é o seguinte:

?Que todos continuem rezando pelo Tim, porque ele continua vivo dentro de nós. Ele está me dando essa força, essa serenidade. O momento não é de revolta. O Tim, até então, estava aqui nos ajudando, mas Deus está agora precisando dele ao seu lado para ajudar o mundo todo. Que todos continuem nesta corrente de positividade porque, onde ele estiver, ele estará recebendo o nosso carinho e essa luz. Que este sacrifício não tenha sido em vão.?"


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"FH: ?Tentativa de silenciar imprensa?", copyright O Globo, 10/06/02

"O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que o assassinato do jornalista Tim Lopes é uma tentativa do crime organizado de calar a imprensa. Ao desembarcar na Base Aérea de Brasília, o presidente disse que a sociedade e os governos devem se unir para dar um basta a esta situação.

– É mais um crime hediondo. O assassinato do jornalista Tim Lopes tem, além do mais, uma conotação específica, porque se tratava de um repórter investigativo. É uma tentativa de silenciar a imprensa na questão da droga. Nós estamos passando de todos os limites. É o momento de nos darmos as mãos, tanto os governo federal, estadual e municipal quanto a sociedade, e colocarmos um ponto final nessa série de barbaridades que estão ocorrendo. O assassinato desse jornalista indigna a todos os brasileiros – disse o presidente.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Marco Aurélio de Mello, afirmou ontem que a situação de violência no Rio é muito grave e defendeu uma cooperação entre as forças policiais estaduais e federal no combate ao crime. Para ele, o acontecimento escancara o grau de delinqüência a que chegamos no país. Ele disse também que a força policial está se mostrando impotente, porque não consegue combater o tráfico de drogas:

– A situação é gravíssima. Nós não poderíamos imaginar, há 10 anos, um tiroteio entre quadrilhas. O estado precisa ocupar seu espaço. A situação do Rio, pelas favelas e pelos morros, é de gravidade maior.

O ministro defendeu ainda que o policiamento seja mais ostensivo. Ele entende que o morro está dominado pelos traficantes, que estão ocupando o espaço dos governos.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Rio de Janeiro, Octavio Gomes, disse que mais uma vez a população assiste, estarrecida, a um assassinato bárbaro:

– Quantos trabalhadores terão que morrer para que as autoridades resolvam, com seriedade, responsabilidade, vontade política, determinação e coragem, encarar a questão da segurança pública? A barbárie chegou a tal ponto que bandidos matam do pobre ao rico e, agora, matam até jornalistas que, muitas vezes, defendem os próprios bandidos, quando são aviltados em seus direitos nas prisões. Se não respeitam eles, e quanto aos demais?"


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"Confirmada morte de Tim Lopes por traficante", copyright O Globo, 9/6/02

"Policiais civis prenderam na madrugada deste domingo no Morro da Caixa D?Água, no Complexo do Alemão, cinco pessoas suspeitas de envolvimento no desaparecimento do jornalista Tim Lopes, da TV Globo.

Em depoimento, dois suspeitos afirmaram que o jornalista foi capturado, torturado e morto pelo líder do tráfico no local, Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco. Tim Lopes estava desaparecido há uma semana. O depoimento confirmou várias ligações feitas ao Disque-Denúncia, as quais informavam que Tim teria sido seqüestrado por traficantes dentro do baile funk da Vila Cruzeiro.

Uma das denúncias dizia que o jornalista tinha sido flagrado com uma microcâmera e levado para a boca-de-fumo da Grota, no Morro do Alemão, onde teria sido torturado e morto. Tim Lopes foi um dos autores da reportagem sobre o Feirão das Drogas nos morros cariocas, entre eles o do Alemão, em Ramos.

A polícia liberou dois dos cinco suspeitos. Dos três que permaneceram detidos, um é menor de idade e sua participação no crime não foi confirmada.

Os outros dois suspeitos seriam, segundo a Polícia Civil, integrantes da quadrilha de Elias Maluco. Eles foram interrogados na 38? DP e identificados como Fernando Sátiro da Silva, 25, o Frei, e Reinaldo Amaral de Jesus, 23, o Cadê. Fernando já tinha prisão por tráfico pedida num processo em que o traficante Elias Maluco também era réu.

De acordo com o chefe de Polícia Civil, Zaqueu Texeira, Frei e Cadê disseram que não participaram da execução do jornalista. Mas, segundo Teixeira, o nível de detalhamento dos seus depoimentos levanta a suspeita de que eles participaram do crime.

Os dois presos não disseram onde estariam os restos mortais do jornalista, mas o chefe de Polícia Civil acredita que logo o local será descoberto. Eles também forneceram o nome de um homem, André Capeta, que seria cúmplice do assassinato. Segundo os depoimentos, Elias Maluco teria executado o jornalista pessoalmente, utilizando um instrumento cortante, chamado por eles de ?espada ninja?. Antes, Tim teria sido baleado."


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"Jornalista desaparece em favela na Penha", copyright O Globo, 3/6/02

"O repórter da TV Globo Tim Lopes está desaparecido desde ontem à noite. Ele estava produzindo uma série de reportagens sobre bailes funks em bairros do subúrbio do Rio e foi visto ontem, pela última vez, às 20h, na Vila Cruzeiro, na Penha.

O jornalista desmarcou um encontro com o motorista que o acompanhava na reportagem, previsto para as 20h, dizendo que não havia terminado o seu trabalho. Um novo encontro foi marcado para as 22h, mas o jornalista não apareceu. Tim esteve na Vila Cruzeiro quatro vezes.

Esta manhã, a emissora comunicou o desaparecimento de Tim Lopes às autoridades."

 

"A Guerra Começou", editorial copyright Jornal do Brasil, 6/06/02

"Os marginais que seqüestraram o repórter Tim Lopes, em missão jornalística para apurar distorções dos bailes funk e suas conexões com o tráfico de drogas, comportam-se como os políticos que não suportam oposição e tratam de sufocá-la na lei ou na marra. Os traficantes também possuem lei própria (prendem, julgam e executam quase sem transição), e ela que assinala sua presença em territórios que pretendem intocáveis.

A ausência da autoridade nas favelas e em outros nichos (conhecidos) de criminalidade 7criou aberrações de que são exemplos os bailes funk promovidos pelos traficantes para fazer as drogas circularem.

O jornalista estava ali porque a polícia não estava. Por sua natureza, a colheita de informações em terreno minado é perigosa mas não impossível. A imprensa já solucionou crimes – comuns ou de colarinho branco – de que a polícia passou ao largo. Mas nada se compara à impunidade reinante no Rio de Janeiro, onde nem 10% dos crimes de morte são solucionados. A impunidade é a mãe de todos os crimes que se cometem até mesmo a céu aberto.

Só há uma maneira de conviver com este caso, de péssima repercussão internacional: solucioná-lo, como ponto de partida para uma cruzada maior de enfrentamento da criminalidade em seus nichos. A situação a que se chegou é de guerra urbana, e não há mais como recuar."


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"Tristeza e revolta", copyright Jornal do Brasil, 10/06/02

"A confirmação da morte de Tim Lopes, ontem à tarde, causou comoção não só entre amigos e familiares, mas em cada cidadão brasileiro. Entidades internacionais como a Sociedade Interamericana de Imprensa e a organização mundial Repórteres Sem Fronteiras (RSF), baseada em Paris, prestaram solidariedade à família.

Em pronunciamento ontem à noite, o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, disse que o crime causa indignação a todos os brasileiros. ?É preciso colocar um ponto final nestas barbaridades?, declarou.

O ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, também reagiu ao assassinato: determinou ontem o deslocamento para o Rio de Janeiro de helicópteros e do Comando de Operações Táticas da Polícia Federal, para auxiliarem na força-tarefa já formada para o combate ao tráfico no Estado. Reale Júnior quer a prisão de todos os responsáveis pelo crime. ?Impedir a impunidade é fundamental para a paz social?, ressaltou o ministro, que também informou que a Polícia Federal vai continuar com seu trabalho de inteligência no caso. ?Este fato atinge a todos nós, a mim e a toda a sociedade brasileira?, comentou.

A governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, defendeu a ação da polícia na investigação do crime. E disse que a polícia do Rio ?continuará incansável na apuração do crime até que tudo seja completamente esclarecido.?

?Ultrapassamos a barreira do suportável. O bandido não poupa nem quem muitas vezes o ajuda, como é o caso do jornalista Tim Lopes. Não há mais limites. O Estado precisa se impor?, disse Octavio Gomes, presidente da OAB do Rio de Janeiro. ?A constituição federal diz que segurança é dever do Estado e direito do cidadão?, continuou.

Nacif Elias, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, acredita que os profissionais da área não devem se intimidar com o assassinato de Tim. ?Num primeiro momento vamos ter medo, mas não podemos aceitar. Comparo com a ditadura, quando tiravam o repórter da redação e ele nunca mais voltava. A imprensa não pode ficar calada e o povo do Rio precisa de paz?, disse Nacif.

Basta na criminalidade

A TV Globo divulgou ontem a seguinte nota: ?É com profundo sentimento de pesar e, ao mesmo tempo, de revolta e indignação que a TV Globo comunica: a polícia confirmou oficialmente que Tim Lopes, um de seus jornalistas mais premiados, foi de fato brutalmente assassinado durante a realização de uma reportagem sobre bailes funk nos subúrbios do Rio. O brutal assassinato deixa consternados todos nós, seus companheiros de trabalho, e todos os jornalistas brasileiros e cidadãos de bem desse país. Neste momento, nossos pensamentos vão especialmente para a família que tem toda a nossa irrestrita solidariedade e apoio. Tim era um apaixonado pelo jornalismo investigativo e se orgulhava dos resultados positivos de cada denúncia que fazia. Não permitamos que sua morte tenha sido em vão. Que sirva, ao menos, de alerta para que as autoridades dêem um basta definitivo à violência e à criminalidade. Nós, vamos cobrar.?"

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