Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > M. F. NASCIMENTO BRITO (1922-2003)

O Globo

Por lgarcia em 12/02/2003 na edição 211

M. F. NASCIMENTO BRITO (1922-2003)

“Obituário: M.F. do Nascimento Brito, aos 80 anos”, copyright O Globo, 9/02/03

“Por mais de 52 anos Manoel Francisco do Nascimento Brito esteve à frente do ?Jornal do Brasil?. Sob seu comando, o matutino de quase 112 anos (foi fundado em 9 de abril de 1891) viveu alguns dos seus melhores períodos, ora revolucionando a imprensa nacional, tanto na forma de expor as notícias, como no conteúdo, ora desafiando autoridades e o regime militar.

Nascido em 2 de agosto de 1922 no Rio de Janeiro, M.F. do Nascimento Brito, como viria a ficar conhecido, fez seus estudos primários e secundários com padres beneditinos e se diplomou em Direito na Faculdade Nacional do RJ. Foi oficial aviador da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial e, a partir de 1946, passou a exercer a advocacia. Naquele mesmo ano casou-se com Leda Marchesini, filha de Maurina Pereira Carneiro, segunda esposa do conde Ernesto Pereira Carneiro, que comprara o ?Jornal do Brasil? no início do século passado.

Sob o seu comando, rádio virou modelo

Ainda em 1946 foi designado pelo conde Pereira Carneiro diretor da Rádio Jornal do Brasil. Reformulou a emissora, dando-lhe uma programação que viria a ser copiada no resto do país; a mistura de música e informação. Nos anos seguintes passou a comandar as áreas administrativa e financeira do ?Jornal do Brasil? e, depois, também a orientação política e editorial do jornal. Foi superintendente, diretor e diretor-presidente de todas as empresas do grupo ?Jornal do Brasil?. Data dessa época – início dos anos 50 – a decisão de promover uma completa reforma para tornar o matutino mais moderno e atuante, projeto que viria a se concretizar em 1957 sob a orientação de Odylo Costa, Filho.

Sobre a famosa renovação gráfica e editorial do ?JB?, que marcou época no jornalismo brasileiro, Nascimento Brito costumava dizer que muitos jornalistas brilhantes se consideravam autores da reforma, mas ele atribuía a principal responsabilidade pelo sucesso do empreendimento à condessa Pereira Carneiro, então viúva do conde Pereira Carneiro e que herdara a empresa.

– A condessa era o eixo de tudo – dizia o ex-presidente do ?JB?.

Mas foi ainda na época da implantação das mudanças que a condessa – que viria a falecer no fim dos anos 80 – passou toda a gestão da empresa a Nascimento Brito. Coube a ele dirigir por décadas o que se tornara um dos mais importantes jornais do país. Sobre a crise que acompanhou o jornal a partir dos anos 70, Nascimento Brito a atribuía aos governos militares, inconformados com manifestações de independência editorial. A empresa, porém, enfrentou dificuldades financeiras por erros de gestão e falhas de planejamento estratégico, como por exemplo o endividamento provocado pela construção da sede nova na Avenida Brasil, hoje abandonada. Em janeiro de 2001 foi anunciada a venda do ?Jornal do Brasil? ao empresário Nelson Tanure.

Em curtos períodos, Nascimento Brito foi também diretor do ?Diário de Minas? e da ?Tribuna da Imprensa?. Foi ainda diretor do Sindicato dos Proprietários de Jornais e Revistas do RJ, da Associação Comercial do RJ e da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) em três mandatos. Eleito vice-presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP para o Brasil, denunciou em São Domingos, em 1964, ano do golpe militar, o risco a que estavam expostas as liberdades públicas no nosso país. Recebeu ainda os prêmios Maria Moors Cabot, em 1967; Alberdi Sarmiento, em 1969; e Jules Dubois, em 1970.

Saúde estava abalada desde 1978

Nascimento Brito tinha a saúde abalada desde 1978, quando sofreu um derrame, mas continuou comandando o ?JB? até agosto de 2000. Ele morreu às 7h40m de ontem, aos 80 anos, de falência cardíaca e acidente vascular cerebral. Ele estava internado na UTI do Hospital Copa D?Or desde 20 de janeiro, devido a um derrame. Seu corpo foi velado no Memorial do Carmo, no Caju, e será cremado hoje, ao meio-dia.

Nascimento Brito deixa cinco filhos – Maria Teresa, Maria Regina, José Antônio, Maria Isabel e Manoel Francisco – 12 netos e um bisneto. Há um ano e meio, ele já vinha perdendo a voz e tinha dificuldade para falar e comer, problemas que se agravaram em dezembro passado, informou ontem, no Copa D?Or, Manoel Francisco do Nascimento Brito Filho.”

“Morre aos 80 o empresário Nascimento Brito”, copyright Folha de S. Paulo, 9/02/03

“O empresário Manoel Francisco do Nascimento Brito, 80, que fez parte da direção do ?Jornal do Brasil? por mais de 50 anos, morreu ontem às 7h40 no Rio de Janeiro. A causa da morte foi um acidente vascular cerebral, com falência cardíaca, informou a assessoria do Hospital Copa D?Or, onde Nascimento Brito morreu.

Ele estava internado desde o dia 21 de janeiro no hospital, em Copacabana, na zona sul do Rio. De acordo com seu filho José Antônio do Nascimento Brito, 48, presidente do Conselho Editorial do ?Jornal do Brasil?, o empresário havia perdido a fala e a maior parte dos movimentos, em consequência de uma série de pequenos derrames que sofreu no último ano. Ele já enfrentava sequelas de um primeiro derrame, ocorrido em outubro de 1978.

O corpo de Nascimento Brito seria velado a partir das 15h no Memorial do Carmo, no Caju (zona norte), e cremado hoje, possivelmente às 11h. O horário estava sujeito a confirmação.

O empresário entrou no ?Jornal do Brasil? em 1949 e só deixou o diário em 2000. Foi casado e teve cinco filhos com Leda Marina Marchesini, enteada do conde Ernesto Pereira Carneiro, que havia comprado o ?JB? em 1918. Dono de empresas de navegação e aviação, Pereira Carneiro recebera o título de conde do Vaticano.

Nascimento Brito nasceu em 2 de agosto de 1922. Sua mãe, Amy Avoegno do Nascimento Brito, era inglesa, e ele sempre cultivou essa ascendência. Durante a Guerra das Malvinas, em 1982, as ilhas disputadas pela Argentina e pela Grã-Bretanha eram chamadas no ?Jornal do Brasil? pelo nome britânico -Falklands.

Formado em direito pela Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), Nascimento Brito era procurador do Banco do Brasil quando foi chamado por Pereira Carneiro para ser consultor jurídico da Rádio JB. Casou-se em 1946 e, em 1952, foi nomeado superintendente do sistema ?Jornal do Brasil?, que incluía o jornal, a agência de notícias, uma gráfica e as emissoras de rádios.

Após a morte do conde, em 1954, a direção do jornal ficou sob responsabilidade de sua viúva, a condessa Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, que iniciou um processo de reformulação editorial e gráfica do ?JB?, até então um jornal especializado em classificados, que ocupavam toda a sua primeira página.

Em 1956, Nascimento Brito foi nomeado diretor-executivo da empresa. Sob o comando de jornalistas como Janio de Freitas, hoje membro do Conselho Editorial da Folha, Reinaldo Jardim, Odilo Costa, filho, e Amílcar de Castro (na parte gráfica), o jornal ganhou credibilidade e conquistou o público mais intelectualizado.

Data dessa época o Caderno B, o primeiro caderno de cultura da imprensa brasileira, que chegou a ter dez críticos de cinema.

O jornalista Alberto Dines foi o editor-chefe que mais tempo ocupou o cargo na nova fase do jornal. Ficou quase 12 anos, de janeiro de 1962 a dezembro de 1973, e, segundo Nascimento Brito, consolidou a reforma do ?JB?. Em 1973, driblou a censura com a célebre capa sem manchete que noticiou o golpe militar no Chile.

As dificuldades financeiras do jornal começaram no fim da década de 70, quando o concorrente ?O Globo?, ancorado na audiência da TV, derrubou sua liderança no mercado de classificados. A crise foi agravada por problemas administrativos e pelos custos da construção de uma nova sede para o jornal, inaugurada em 1973 na zona portuária do Rio.

Desde o final dos anos 50, sob a presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961), Nascimento Brito tentara, sem sucesso, obter uma concessão de TV. Na última vez, foi preterido pelo governo de João Baptista Figueiredo (1979-1985), em favor de Sílvio Santos.

O empresário não foi bem-sucedido em algumas apostas políticas. Nos anos 70, chegou a apoiar o ministro do Exército, general Sílvio Frota, contra Figueiredo, o chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) e favorito do presidente Ernesto Geisel à sua sucessão. No início da década de 80, com a dívida do ?JB? crescendo, apoiou Paulo Maluf, que viria a ser derrotado por Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1984.

Durante a CPI que investigava o governo Fernando Collor (1990-1992), o ?Jornal do Brasil? publicou manchete que avalizava a ?Operação Uruguai?, manobra pela qual auxiliares do presidente pretendiam justificar a movimentação de dinheiro na conta de ?fantasmas? a partir de um suposto empréstimo feito em Montevidéu para financiar a campanha de 1989.

Na época, Nascimento Brito tratava com Lafayete Coutinho, presidente do Banco do Brasil, da renegociação de uma dívida calculada pelo banco em US$ 90 milhões. Não obteve sucesso, e o endosso à ?Operação Uruguai? afetou a credibilidade do jornal.

Apesar da crise financeira, o ?JB? havia se mantido em posição de destaque no jornalismo. Teve papel importante na investigação da bomba do Riocentro, detonada por militares em um show comemorativo do 1? de Maio, em 1981, e desvendou a fraude eletrônica que tentou impedir a vitória de Leonel Brizola na eleição para o governo do Rio, em 1982.

Na década de 90, a decadência econômica do ?JB? parecia irreversível. Tentativas de vender o jornal tinham fracassado, em parte por divergências internas na família Nascimento Brito. Em 1992, o empresário se afastou da administração direta do diário para assumir a presidência do conselho.

Em 1994, tornou-se presidente do conselho editorial, responsável pela área política de todo o sistema. No ano seguinte, transferiu a José Antônio do Nascimento Brito as principais funções executivas. José Antônio já tinha ocupado a direção do ?JB? no final dos anos 70 e início dos 80, depois que o pai sofreu o primeiro derrame. Na época, chegou a lançar duas revistas, ?Viva?, dedicada a esportes, lazer e forma física, e ?Brasil S.A.?, que pretendia ser uma espécie de ?Fortune? brasileira.

Mesmo sem função executiva, Nascimento Brito manteve o hábito de se reunir todo dia, às 15h, com a equipe de editorialistas. Segundo o depoimento de chefes de Redação que passaram pelo ?JB?, não costumava interferir na edição das notícias, mas manteve influência sobre a página editorial. Só se afastou do jornal em 2000.

Em janeiro de 2001, a família Nascimento Brito fechou contrato com o empresário Nelson Tanure, que arrendou o título do jornal por um período de 60 anos, renováveis por mais 30 anos, e duas emissoras de rádio do grupo -Cidade e JB-, por dez anos. Tanure comprou ainda a Agência JB e o site JB Online.

Conhecido por comprar empresas em estado pré-falimentar para recuperá-las e vendê-las, Tanure pagou R$ 70 milhões à família. Para administrar o negócio, criou uma nova empresa, a Companhia Brasileira de Multimídia, da qual detém 77% do capital -os outros 23% pertencem a José Antônio do Nascimento Brito.

A antiga empresa, Jornal do Brasil Ltda, ficou com a sede e com uma dívida estimada em cerca de R$ 750 milhões na época da venda -grande parte dela com bancos, além de débitos trabalhistas e previdenciários. Hoje, o ?JB? tem um acordo operacional com o diário carioca ?O Dia? para unir suas atividades administrativas e comerciais -as redações são independentes. Ambos já são impressos na gráfica de ?O Dia?.

REPERCUSSÃO

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, presidente da República: Em nota oficial, o presidente lamentou a morte do jornalista Manoel Francisco do Nascimento Brito e se solidarizou com a família do empresário. Para Lula, ele ?foi um democrata convicto e empresário consciente, que soube introduzir as inovações necessárias para a manutenção do centenário jornal entre os grandes veículos de comunicação do país.?

FRANCISCO MESQUITA NETO presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), em nota: ?A ANJ lamenta profundamente o falecimento de Manoel Francisco Nascimento Brito. M.F.Nascimento Brito dedicou-se por 50 anos ao jornalismo na direção do ?Jornal do Brasil?, um dos mais influentes órgãos da imprensa do país e um dos fundadores da ANJ, marcando a sua trajetória pela postura de integridade e sempre de defesa dos interesses da nação. Apresentamos condolências aos familiares, à direção e aos funcionários do ?Jornal do Brasil? em nome da diretoria da ANJ e dos jornais associados.?

ROBERTO MARINHO presidente das Organizações Globo: ?A morte de Nascimento Brito é uma perda para a imprensa brasileira. Sua vida confundiu-se com a história do ?Jornal do Brasil?. Em determinados períodos, foi um dos responsáveis pela modernização da imprensa. Teve destaque na vida política nacional.?

FERREIRA GULLAR poeta: ?É uma perda lamentável. Nascimento Brito encarnava toda essa reforma do jornal [dos anos 50]. Fazia parte do grupo que iniciou a reforma. Tenho uma lembrança muito afetuosa dele.?

FERNANDO GABEIRA deputado federal (PT-RJ), trabalhou no ?Jornal do Brasil? nos anos 60: ?Um excelente diretor. Conduziu o jornal num período muito especial e comprou as apostas que fizeram do JB um dos jornais mais singulares do mundo.?”

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