Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O grande crime

Por lgarcia em 05/09/2000 na edição 97

Quantos anos de serviço em busca de uma promoção essa tragédia encurtou para os próximos diretores de redação de O Estado de S. Paulo?

Perguntas que não nos cabe responder. Porém nos fazem refletir seriamente sobre nossas atitudes ásperas nas redações, nossa prepotência em nome do bom jornalismo e até dessa entrega, quase masoquista, de dedicar uma vida inteira à profissão. Muitas vezes nos esquecendo que atrás de gravatas apertadas e mesas desarrumadas bate um coração de homem comum, único ser racional que ama por saber e mata por prazer, imperfeito demais para quem procura sempre a clarividência de fatos, um jornalista.

Hermann Stipp, 26 anos, 4º ano de Jornalismo da Unitau, Taubaté, SP

Para mim, o episódio apenas comprova um amor oportunista e interesseiro, um aspecto nojento, sobre até aonde pode chegar o ser humano – à corrupção também de sua própria alma. Isto seria um grande trunfo na defesa do criminoso.

Eitel Couto Rosa Jr., Franca, SP

É lamentável que num momento em que o país chafurda na lama da corrupção, quando às portas das eleições de outubro próximo, e o espectro da fraude a nos rondar, como se ainda vivêssemos na época das eleições a bico de pena, o Observatório se ocupe de bobagens como o programa No limite, da TV Globo (que aliás nem sei direito de que se trata, posto que não perco tempo com tais coisas). Como se não bastasse, o programa se ocupou do caso Pimenta Neves. Trata-se de um assassino como tantos outros que existem por aí e que não deveria merecer mais do que umas poucas linhas nos noticiários policiais (prato cheio para O Dia ou O Povo).

O povo está passando fome (todos os dias eu vejo gente idosa apanhando, nas caixas coletoras de lixo, latinhas de cerveja e refrigerante para sobreviver). O Brasil está ameaçado na sua soberania e no entanto vocês perdem tempo com coisas menores. O caso Pimenta Neves ficaria melhor num tratado de teratologia, como ilustração de um caso típico. Ao matar a jovem jornalista o assassino objetivava destruir a prova mais cabal do seu fracasso, da sua impotência. Ao contrário dele, ela era jovem e cheia de vida. Na sua fragilidade, Pimenta Neves alimentou a ilusão de que com seu poder, oferecendo cargos e salários à jornalista, poderia tê-la. Ledo engano; vã ingenuidade. Este senhor, que deve ter lá os seus 60 anos, já deveria ter aprendido a lição de que algumas mulheres se realizam melhor com dois homens de 30 anos do que com um de 60.

Pimenta Neves não poderia dar à jovem o que ela verdadeiramente precisava. Logo, ela procurou outro, provavelmente mais jovem. E daí? Deveria ser esta uma história comum, com o protagonista reconhecendo a derrota e saindo de cena, agradecendo à moça os bons momentos que ela lhe proporcionou. Mas não, pois estamos diante de um indivíduo mal-resolvido sexualmente, desajustado. O drama (quiçá uma tragédia ) é o desdobramento natural, uma conseqüência lógica.

Não quero mais perder tempo com esse sujeito. Fiz estes comentários apenas para mostrar a vocês que o tema poderia ser tratado num outro nível e que certamente atenderia muito mais ao interesse público: por que homens velhos se envolvem com mulheres jovens e podem chegar a matá-las quando rejeitados? Alguns psicanalistas poderiam discorrer adequadamente sobre o tema. Referências históricas e literárias não faltariam. E nessa abordagem o Pimenta Neves não teria importância nenhuma.

Certamente que o sistema de poder dominante (FHC & Cia.) está gostando do espaço que a grande imprensa está dando a estas baboseiras, deixando de lado as nossas misérias sociais resultantes do modelo neoliberal seguido pelo atual governo. Nesse sentido, o Observatório da Imprensa em nada difere da grande imprensa chapa-branca.

Alfredo Pereira dos Santos

Nota do O.I.: Caro Alfredo, agradecemos sua carta. Lembramos que o Observatório da Imprensa faz crítica da mídia – e exclusivamente neste sentido está sendo aqui tratado o caso Pimenta Neves, que afeta profundamente as redações e as relações nelas vigentes. O leitor não pode imaginar o que seja um redação de jornal diário. O que torna esta uma questão de claro interesse público. Cabe acrescentar que não fazemos crítica da alma masculina, e jamais poderíamos, portanto, convidar psicanalistas para debater o tema. Um abraço, M. C.

Acho que a imprensa deveria se preocupar com coisas mais importantes em nosso país, informações úteis que possam ajudar o Brasil a deslanchar, crescer, pois temos tudo para ser uma grande potência. A imprensa, nosso quarto poder, deveria se preocupar em debater algo que trouxesse benefício ao nosso povo, e não ficar aí perdendo tempo com essa atitude torpe, baixa, de uma pessoa como o Sr. Pimenta Neves, atitude essa igual a dezenas que acontecem em nosso dia-a-dia.

Adenilson A. Matos

O caso Pimenta Neves lembra um ponto pouco discutido, no qual vejo o grande problema: a questão ética da relação pessoal entre chefe e subordinado. Isso acontece em várias empresas. E nós, jornalistas, que na maioria das vezes assumimos a defesa da justiça, como admitimos relações como essa em nosso meio?

Em primeiro lugar, se Sandra Gomide foi promovida por influência de Pimenta Neves, por que nenhum chefe contestou essa decisão? E quando a moça foi demitida? Ninguém contestou também? Devemos entregar sempre aos diretores de empresa este poder absoluto?

Precisamos discutir o que é determinante hoje no jornalismo: competência, beleza?

Num mundo em que a maior parte dos profissionais é de mulheres (considerando-se a proporção de alunos nas faculdades) e nas chefias predominam os homens, está em jogo a relação de poder. Que exige ética. Temos ética nas redações? Ou se é ético por inteiro ou não se é. Questão de caráter.

O crime é claro, trata-se de um homem que quis tornar sua parceira uma propriedade, uma escrava de sua vontade, senhor de sua existência. Dizer que matou em defesa da honra! Vejam o tamanho do absurdo!

Sandra Regina Santos

Aí vão algumas considerações sobre o caráter e o "papel" da imprensa neste odioso caso. É bom sempre lembrarmos que um facínora não surge da noite para o dia. Ele tem gestação lenta e cresce em ambientes propícios, às vezes incentivado por quem o contrata. Com o Pimenta Neves não foi diferente como você poderá ver abaixo.

Pimenta tem longo e nada invejável histórico de assédio sexual. Desde que voltou ao Brasil, no final de 1995, ele parece ter se deslumbrado em ver um bando de jovens, muitas belas, repórteres reunidas em uma mesma redação, no caso a Gazeta Mercantil. Como ele passou muito tempo nos Estados Unidos e casado, ele deve pode ter incorporado o espírito do "lobo mau" (disposto a tirar o atraso e conquistar, através do cargo, o amor de meninas na faixa dos 20 anos!). Para saber maiores detalhes, basta você entrevistar as repórteres que atuaram na Gazeta nesta época. Falo especificamente do período entre dezembro de 1995 e agosto de 1996. Antes de ele ter começado a namorar Sandra Gomide.

A rotina de assédio, sem qualquer disfarce era contínua. O sujeito "pulava" de mesas em mesa se insinuando para todas as meninas. Às vezes o jogo era bruto. O linguajar era, digamos, meio papo de borracharia mesmo! E isto acontecia à luz do dia. Não era pelos cantos mas sim em plena redação, e em festas, como no aniversário dele, ou eventos ligados ao pessoal da redação. Onde houvesse um "rabo de saia" com menos de 30 anos de idade, lá estava ele azucrinando o juízo! Para chegar a estas "vítimas" basta recorrer aos arquivos e consultar o expediente da Gazeta Mercantil desta época. O nome de todas as repórteres está lá.

Outro dado sobre a medida exata do caráter deste sujeito é o seguinte. Antes da privatização da Vale do Rio Doce, a sucursal do Rio da Gazeta recebeu um convite da CVRD para mandar um representante do jornal a Carajás. Nesta viagem-pauta seriam mostrados vários segmentos da empresa que certamente enriqueceria o nível de conhecimento de qualquer um que se dedique a escrever sobre a área de minério de ferro. Ou seja, não era um jabá do tipo para "comprar" jornalistas. Além do mais, não existem vôos regulares para Carajás. A única maneira de fazer uma matéria sobre aquele fantástico complexo é usando a infra-estrutura da Vale.

Pois bem, o pessoal em São Paulo autorizou a viagem. A repórter embarcou e voltou com uma bela matéria. Isenta, séria e crítica, como era do feitio dela. Contudo, um detalhe quase foi mortal para a repórter em questão: Pimenta estava ausente da redação (creio que no exterior) e não foi consultado sobre a viagem. Foi o bastante para que ele, sentindo-se traído (pela repórter, pela chefe da sucursal do Rio e pelo mundo) iniciasse uma odiosa campanha de perseguição contra a repórter. Que continuou no jornal apenas para ser humilhada. Seus textos não eram mais assinados (na Gazeta, até decreto presidencial tem texto de abertura assinado pelo repórter) e a publicação de qualquer matéria escrita por ela tinha que passar pelo crivo pessoal do louco. Se havia dúvida sobre o caráter da repórter, o lógico seria demiti-la. Mas ele preferiu espezinhá-la porque sabia da correção moral da pessoa em questão. Usou aquilo para se afirmar como um homem acima do bem e do mal. Já a chefe da sucursal do Rio perdeu o cargo, mas continuou na empresa.

No Estadão, em que pese o fato de ele ter levado profissionais de bom caráter pessoal e talento profissional para substituir os demitidos, ele instalou um espécie de circo de horrores. Acho que vale a pena conversar mais detidamente com os demitidos. Descontando-se a carga, no máximo 10%, de rancor dos depoimentos, certamente, ilustrarão com mais clareza o caráter covarde deste cidadão. O pior de tudo é que ele tinha "carta-branca" da direção de O Estado de S. Paulo para perpetrar toda sorte de arbitrariedades. Intrigas, fofocas, perseguições, linchamento moral e profissional, essa era a rotina do Estadão na gestão Pimenta Neves.

Isto tudo para dizer o seguinte: ele não pirou da noite para o dia. O tal currículo invejável do cara nunca foi capaz de suplantar a personalidade mesquinha que ele demonstrou ter. Nem o eximiu de adotar a covardia como modus operandi.

Como todos os canalhas, até ele foi capaz de uma atitude decente nestes quatro anos. Ela ocorreu no final de 1995 ou início de 1996 (não me lembro ao certo) quando o editor-associado da Gazeta Mercantil Glauco Melo sofreu um atentado, enquanto caminhava pelas ruas dos Jardins com a mulher. Vítima de uma tentativa de assalto, Glauco foi alvejado na têmpora, à queima-roupa, pelo ladrão que tentava roubar-lhe a carteira. O fato causou uma forte consternação na Gazeta, até porque Glauco é muito estimado por todos. Pois bem, para demonstrar solidariedade, Pimenta escreveu um longo artigo (acho que o primeiro e único nos últimos seis anos!) publicado na capa da Gazeta. Neste artigo, citado de forma confusa na Vejinha, que fez matéria sobre o atentado, ele discorreu sobre a violência, a brutalização das relações pessoais e alertava para o fato de, pela covardia e a intolerância, estarmos caminhando para um cenário digno dos filmes Mad Max. Ele não apenas cuidou de apoiar o amigo como "batalhou" para que Glauco tivesse o melhor tratamento possível. Parcialmente curado, Glauco foi reconduzido a seu posto na Redação e apesar de ter perdido boa parte da capacidade de raciocínio (o tiro foi na cabeça!), Pimenta o manteve no cargo de editor-associado. Um belo gesto, sem dúvida!

Apesar disto, passados quatro anos, descobrimos que aquelas palavras escritas na capa da Gazeta eram, sem dúvida, premonitórias. Hoje, poucos se surpreendem ao descobrir que o Mad Max, na realidade, sempre foi o próprio autor do artigo.

Carlos Augusto Cambraia, Aldeota, Fortaleza cobra4000

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