Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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PRIMEIRAS EDIçõES > SENSACIONALISMO

O grande pecado da imprensa

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

SENSACIONALISMO

Fernando Torres (*)


"No princípio era o papiro e o pergaminho. A comunicação, porém, era sem forma e vazia. E foi dito: Haja imprensa; e houve imprensa. E todos viram que era muito bom."

"Eis que se formaram do pó da terra os barões da imprensa, todos à mesma imagem e semelhança. E foi-lhes dito: crescei e publicai, informai a Terra. Porém receberam a seguinte ordem: de todo assunto publicareis livremente, mas do sensacionalismo não tratareis, porque no dia em que dele tratardes a desordem e a imoralidade reinarão e os receptores serão conhecedores do bem e do mal."


Século 19, longínqua década de 90. O consumo de jornal nos lares americanos havia se paralisado. A estagnação provocou experimentações, artifícios, reformas, modernizações. Tudo em busca de novos leitores. Destacou-se a disputa cerrada entre William Hearst e Joseph Pulitzer, dirigentes dos rivais New York Journal e World, respectivamente.

Inicialmente, Pulitzer levou a melhor. Em 1895, criou o personagem Yellow Kid (Garoto Amarelo) a fim de retratar histórias cavernosas do governo e ocorrências nas favelas. Entretanto, a concorrência se intensificou. Em outubro de 1896, Hearst comprou o garoto de camisa amarela e tornou-o símbolo de seu jornal, surgindo então a "yellow press" [no Brasil, imprensa marrom]. Não satisfeito, o magnata utilizou-se dos meios mais estridentes e espalhafatosos para seduzir o leitor: violência, banalização sexual, deturpação. Estava infiltrado na imprensa o sensacionalismo.


"Vendo os barões da imprensa que o sensacionalismo resultava em leitores, tomaram do fruto e o publicaram. E abrindo-se os olhos, perceberam que a notícia estava nua. Quando ouviram a voz dos conservadores, esconderam-se de sua presença por entre as páginas amareladas. E lhes chamaram os conservadores e perguntaram: ?Que fizestes? Publicastes o sensacionalismo que vos ordenamos que não publicásseis?? Então disseram os barões: ?O Notícias Populares, que nos deste como exemplo, nos mostrou o sensacionalismo e então publicamos?. Respondeu o Notícias Populares aos conservadores: ?Jean Mellé me enganou e eu publiquei.?"


No Brasil, a imprensa amarela ficou marcada pelo sanguinário Notícias Populares, lançado em outubro de 1963. "Inventado" pelo jornalista romeno Jean Mellé, o projeto foi vendido ao banqueiro Herbert Levy, dono da Gazeta Mercantil. Inocentemente, Levy não pensou em lançar um produto sensacionalista, mas sim um jornal popular direitista. Exatamente o contrário de seu "sócio".

Após o golpe de 64 e a queda de João Goulart, Levy sossegou. Porém, seu brinquedinho tornara-se inútil. Passá-lo para a frente seria a solução. Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, recentes compradores da Folha de S. Paulo, toparam a idéia, levando junto o fundador. Sob a direção de Jean Mellé e, mais tarde, de Ebrahim Ramadan, o NP revolucionou o jornalismo, oferecendo textos curtos, muitas fotos e manchetes de impacto, como: "Desapareceu Roberto Carlos", de 1968, quando um repórter da TV Record não conseguiu contatar o rei nos Estados Unidos e especulou um seqüestro; ou "Nasceu o Diabo em São Paulo", de 1975, da série de 27 edições a respeito do Bebê-Diabo, um garoto de São Bernardo do Campo portador de chifres e rabos. O NP também inovou no campo das minorias: foi um dos primeiros a apresentar uma coluna GLS e a abordar educação sexual de forma irreverente.

Com a idade de 37 anos, o NP morreu em janeiro de 2001. O denominado pai do sensacionalismo brasileiro iria pela última vez às bancas com apenas 20 mil exemplares. O substituto do Grupo Folha era o Agora, inspirado no bem-sucedido carioca Extra. "Fuzilado em meio a muito sangue", seria a manchete.


"Então disseram os conservadores ao Notícias Populares: ?Visto o que fizeste, maldito és entre todos os jornais brasileiros; rastejarás sobre a tua prensa e reduzirás o número de leitores até o fim de tua vida. Poremos inimizade entre ti e a imprensa convencional, entre a tua descendência e os teus concorrentes. Estes te ferirão a cabeça e tu não lhes roçarás o calcanhar?." E aos barões da imprensa disseram: ?Visto que atendestes a voz do sensacionalismo que vos ordenamos que não publicásseis, maldita é a imprensa por vossa causa. Em fadigas obtereis dela o sustento, durante todos os dias de tua vida. Da tela de vosso monitor tirarás teu pão, até que voltes à terra, pois dela fostes formados?."


Com o advento da TV e o script combinando informação e espetáculo, estava montado o palco de atuação do sensacionalismo. Apregoam-lhe seu início ao malfadado Aqui agora, do SBT, nascido em 1991 e assassinado em 1997. Balela! É bem verdade que o espalhafatoso telejornal contribuiu ? e muito ? para o desenvolvimento do sensacionalismo televisivo. No entanto, o crédito de pioneiro cabe ao Império.

Na noite de domingo de agosto de 1973 ia ao ar a primeira edição do Fantástico, ambicionando a mescla de jornalismo e entretenimento. Deu no que deu: o slogan "o show da vida", ou o dito showrnalismo, título lançado por José Arbex Jr. em sua tese de doutorado na USP. Com matérias especulativas ? a pauta (ou roteiro) incluía eventuais visitas de discos voadores, o incrível homem-bomba, domadores de crocodilos e mensagens psicografadas por Chico Xavier ? o programa criou um público popular. Não é à toa que fantástico é sinônimo de sensacional(ista).

A ele se seguiram o Cidade Alerta, da TV Record, Brasil Urgente, da Band, Linha Direta, da Globo, entre outros. Vale citar também os dominicais Programa do Faustão, Domingo Legal e Domingo da Gente, comandados pelos "jornalistas" Fausto Silva, Gugu Liberato e Netinho. Tudo bem que o assunto é jornalismo, mas seria injusto esquecer dos primeiros enlatados americanos produzidos no Brasil, como o Programa do Ratinho, Hora da Verdade e Eu Vi na TV, conduzidos por Carlos Massa, Márcia Goldschmidt e João Kleber. Muito instrutivos.

"Fizeram os senhores conservadores vestimentas de papel para os barões da imprensa a fim de encobrir o sensacionalismo e os vestiram. E assim, disfarçaram o sensacionalismo."


"Mas eis que os barões da imprensa disseram entre si: ?O receptor se tornou, como nós, conhecedor do bem e do mal. Assim para que não estenda a mão e tome também da imprensa convencional e leia e entenda como tudo funciona, manipulemos a informação?. E misturaram a verdadeira informação com o sensacionalismo, guardando o caminho da verdadeira informação."


Contestado por literatos, religiosos e educadores, o sensacionalismo precisou se mascarar. Hoje, a imprensa amarela evoca novos semblantes. Impregnou-se na imprensa convencional. Passou a deturpar, manipular, esconder a real informação. Chegam a dizer por aí que toda manchete é sensacionalista, pois objetiva chamar a atenção do receptor. Outros atenuam o termo "imprensa sensacionalista" para "imprensa popular". Tudo em prol de um disfarce ético e moralista.

Entretanto, o maior pecado da imprensa não mudou o enfoque. Violência, sexo e deturpação continuam na pauta. Mas agora metamorfoseados, misturados, embaralhados com as notícias de verdadeira relevância. O bem e o mal, em perfeito equilíbrio.


"E, cegos, todos viram que era muito bom."


(*) Aluno do 2? ano de Jornalismo do Unasp e editor da revista Canal da Imprensa <www.canaldaimprensa.com.br>

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