Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O Granma e o caso Elián

Por lgarcia em 20/03/2000 na edição 86

Beatriz Wey (*)

A idéia de nação cubana fomentada pelo jornal Granma só pode ser compreendida se considerarmos um elemento indispensável: a imagem. Pela imagem fotográfica, os leitores são levados a imaginar e a conhecer a realidade, deixando que os elementos visuais falem por si – em outras palavras, provocando um efeito ilusório.

A imagem não nos oferece a própria realidade, e sim o que o leitor julgará pelo efeito que ela poderá produzir. Em outras palavras, a imagem estimula a imaginação e acaba por operar com a formação de idéias inadequadas, ou seja, imagens confusas provenientes da experiência sensorial e da memória.

Não é possível dizer que as imagens sejam falsas, pois correspondem ao modo como realmente as coisas exteriores afetam aqueles que a visualizam diariamente na imprensa. Como tal, a imagem é sempre verdadeira enquanto imagem, mas falsa segundo a idéia real das coisas. Na medida em que as imagens vão tomando espaço na imprensa elas podem confirmar uma associação entre coisas dissociadas, sem que o leitor se dê conta de tal processo, um processo que tende a crescer quando novas imagens visam confirmar a suposta veracidade das anteriores.

Uma arte antiga

Este elemento da imprensa tende, gradativamente, a afastar a reflexão dos dados reais e a consolidar um conhecimento imaginativo, fruto de experiências visuais, uma experiência vaga, baseada na repetição de imagens. O leitor é levado ao hábito de associar causa e efeito de coisas que se repetem diariamente na imprensa, sujeitas a ter sentido real.

Pela reflexão sobre a imagem e seus efeitos ilusórios é que me reporto ao Granma. Uma imprensa como tantas outras, mas com um objetivo singular: formar uma consciência nacional coesa e unitária. Sem dúvida tal projeto exigiu mais do que uma reprodução de imagens, porém não podemos negar que a documentação visual complementou os textos, quando não falou por eles por sua ilusória descrição da realidade em questão.

Nos momentos em que a imaginação nacional parece abalada o recurso visual é fundamental, principalmente pela possibilidade de se recuperar elementos indispensáveis na história construída e reconstruída diariamente. É na arte de fazer o leitor imaginar que tem diante dos olhos a verdade que o Granma se sustenta há várias décadas. Se a história foi inventada pouco se pode perceber, pois as imagens parecem adquirir certa autonomia, ora exaltando, ora omitindo fatos e acontecimentos: não importa como se apresente aos nossos olhos, podendo ser inclusive muito simples – como boa parte do material iconográfico do Granma -, mas deve ser capaz de traduzir determinado processo histórico pela experiência visual que se adquire, apenas isso.

Emoção nas manchetes

Por tudo isso é que a história da revolução encontra sua redenção diante da imagem, que cria e recria os processos que nos levam a imaginar, de forma que heróis continuam heróis, mártires continuam mártires, e o partido continua a exercer apenas sua função manifesta, sem transparecer jamais sua função latente. É a arte de fazer imaginar.

Nos últimos três meses a imprensa cubana, o Granma, passou a registrar de forma minuciosa todos os acontecimentos que envolveram e ainda envolvem a vida do menino Elián González (6 anos), que ficou órfão de mãe quando ambos saíram de forma ilegal do país em direção à Flórida, EUA. O caso acabou por se tornar questão nacional, e por que não dizer, foi responsável por acender a chama do patriotismo em Cuba, muito abalada com a crise econômica vigente.

As últimas manchetes revelam o acontecimento de forma marcante, com grau extremo de emoção e sentimentalismo: “Elián voltará a sua Pátria” (9/1/00); “Mais de dois meses sem ver o neto seqüestrado” (30/1/00); “A dor dilacerante dos avós” (6/2/00); “O direito do pai” (13/2/00); “A inocência de um menino mobiliza o povo” (20/2/00).

Mitos e patriotismo

O mesmo resgate do sentimento patriótico é registrado no material iconográfico, com a imagem de crianças com bandeiras de Cuba aclamando pela volta de Elián, avós materna e paterna chorando, uma grande multidão de mulheres, estimadas em 200 mil pelo Granma, em protesto em frente ao escritório de negócios dos EUA em Havana, passeatas de estudantes e trabalhadores, o pai biológico de Elián sem entusiasmo para viver e, finalmente, Elián sempre triste, tenso ou chorando.

Desde o princípio o caso Elián foi definido como a ponta do iceberg das conflituosas relações diplomáticas entre os dois países, há décadas mergulhadas em impasse. Por esta razão, não surpreende o papel desempenhado pelo Granma nestes últimos três meses, a começar pelo fato de que esta imprensa nasceu em 1965 para reafirmar o posicionamento do Partido Comunista de Cuba e do governo de situação revolucionária contrários às interferências americanas. Cabe dizer que a arma contra a política externa adversa, principalmente dos Estados Unidos, sempre foi delineada pela imprensa com a construção contínua de uma identidade nacional, definida pelos laços culturais, sociais e políticos, e pelo processo de restauração contínuo do movimento revolucionário no país.

No entanto, há muito tempo o espírito patriótico não se encontrava tão vivo, apesar das tentativas constantes de reanimá-lo com manipulações arbitrárias atreladas à construção de mitos históricos.

Objetivo comum

O momento atual é privilegiado, pois os heróis dos últimos três meses estão próximos de todos. Entre eles, Elián, suas avós, que foram aos EUA para vê-lo por algumas poucas horas, o pai do menino, que reivindica seus direitos. Segundo o Granma, Elián é marca da resistência, sua mãe, vítima de “seqüestradores neoanexionistas”, e o pai, um herói. Aos cubanos leitores cabe a tarefa de sempre: lutar pelos interesses nacionais, lutar para trazer o menino de volta a Cuba.

Em função deste raciocínio, diversos artigos do Granma procuram destacar o fato de que os cubanos estão se unindo para “salvar” Elián, cientistas, intelectuais e trabalhadores. Entre os manifestantes o Granma resgata o papel das mulheres, que em grandes gritam: “Devolvam nosso menino.”

A relação de envolvimento que o jornal procura estabelecer resulta no que Manuel Castells, em O Poder da identidade, denomina de “experiência compartilhada”, ou seja, na (re)construção do sentimento patriótico a partir de uma causa abraçada por segmentos heterogêneos da sociedade. Uma causa superior que justifica a luta coletiva por um objetivo comum.

Identidade como processo

Evidentemente que este ressurgimento nacionalista nada tem em comum com a experiência nacionalista vinculada ao período de formação do Estado moderno. Não acredito que este nacionalismo contemporâneo, pautado no caso Elián, venha necessariamente fortalecer o Estado cubano, mas contribui para manter a identidade nacional e a defesa dos elementos culturais presentes na Ilha, o que de certa forma é suficiente no momento.

É difícil prever por quanto tempo a “experiência” ainda será compartilhada, mas é certo que tem sido utilizada pela imprensa de forma exaustiva para associar velhas questões aos acontecimentos atuais, uma prova concreta de que a identidade nacional é um processo, e que para definir uma nação é preciso que a chama do patriotismo não desapareça quando Elián retornar a Cuba.

(*) Pesquisadora do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política) da PUC/SP

 

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