Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > SÉRIE SOBRE IMPRENSA

O jogo do jornalismo esportivo

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

SÉRIE SOBRE IMPRENSA


Jornalismo esportivo, de Paulo Vinícius Coelho, 120 pp. Editora Contexto, São Paulo, 2003; R$ 19,90; <www.editoracontexto.com.br>, tel. (11) 3832-5838


A partir de uma pesquisa realizada em 2001, a Editora Contexto decidiu lançar uma série sobre jornalismo pois constatou que o mercado editorial não oferecia livros nessa área que tivessem como foco principal o aluno de cursos de Jornalismo e também os profissionais em atividade.

No segundo semestre de 2002 apareceram os dois primeiros títulos da coleção: Jornalismo científico ? parceiros desde Gutenberg, de Fabíola de Oliveira e A arte de fazer um jornal diário, de Ricardo Noblat ? este, na terceira edição [veja abaixo remissões a matérias sobre esses livros publicadas no OI].

O terceiro volume da série ? Jornalismo esportivo, de Paulo Vinícius Coelho ? será lançado em 25 de março, na Livraria da Vila, em São Paulo. A seguir, a introdução de Jornalismo esportivo e, na próxima página, o primeiro capítulo deste lançamento da Contexto.

 

Paulo Vinicius Coelho

“Futebol não pega, tenho certeza; estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho.” (G.R.)

Provavelmente nenhum palpite de comentaristas antes da Copa do Mundo de 2002 foi tão furado quanto o do escritor Graciliano Ramos, no início do século 20. Graciliano parecia convencido de que o jogo dos ingleses não iria conquistar adeptos no Brasil. Talvez o maior engano da história do esporte brasileiro.

Não que o escritor alagoano tivesse alguma coisa contra a bola jogada com os pés ou que fosse apaixonado pelo remo, o esporte mais popular do início do século. O que ele achava era que o que vinha de fora não poderia “pegar” com facilidade no Brasil. E nada mais inglês do que o futebol. Pelo menos do que o futebol jogado naquele tempo.

O autor de Vidas secas talvez tenha sido também o primeiro palpiteiro sobre esportes. Palpiteiro, sim, daqueles que até hoje enchem as noites de domingo. Nos primeiros anos de cobertura esportiva era assim. Pouca gente acreditava que o futebol fosse assunto para estampar manchetes. A rigor, imaginava-se que até mesmo o remo, o esporte mais popular do país na época, jamais estamparia as primeiras páginas de jornal. Assunto menor. Como poderia uma vitória nas raias ? ou nos campos, nos ginásios, nas quadras ? valer mais do que uma importante decisão sobre a vida política do país? Não, não poderia, mesmo que movesse multidões às ruas em busca de emoções que a vida cotidiana não oferecia.

Duvidar foi o esporte preferido até mesmo de gente experiente, que vivia de escrever para os cadernos especializados, já no meio do século 20. João Saldanha fez uma previsão no final dos anos 60, quando um aventureiro resolveu lançar não um caderno, mas uma revista inteiramente dedicada ao futebol. Placar nunca sairia dos primeiros números, imaginava Saldanha, que prestou inestimáveis serviços ao esporte brasileiro.

A importância dos veículos que se dedicavam ao esporte começou mais cedo, no entanto. Em São Paulo, na década de 1910 havia páginas de divulgação esportiva no jornal Fanfulla. Não se tratava de periódico voltado para as elites, não formava opinião, mas atingia um público cada vez mais numeroso na São Paulo da época: os italianos. Um aviso não muito pretensioso de uma das edições chamava-os a fundar um clube de futebol. Foi assim que nasceu o Palestra Itália, que se tornaria Palmeiras décadas mais tarde, no meio da Segunda Guerra Mundial. Nesse tempo, as poucas páginas dedicadas a esporte nos diários paulistanos falavam sobre outra guerra. A travada entre os são-paulinos, que sonhavam tomar à força o estádio Parque Antártica dos palestrinos.

A Fanfulla é até hoje a grande fonte de consulta dos arquivos do Palmeiras sobre as primeiras décadas do futebol brasileiro. O jornal trazia relatos de página inteira num tempo em que esse esporte ainda não cativava multidões. E informava as fichas de todos os jogos do clube dos italianos. Até mesmo dos que incluíam times de aspirantes palestrinos contra os segundos quadros de equipes do interior. Não existia o que se pode chamar hoje jornalismo esportivo. Mas não fossem aqueles relatos e ninguém jamais saberia, por exemplo, quando e qual foi o primeiro jogo do velho Palestra.

Nem do velho Corinthians, nem do Santos, nem que o futebol do Flamengo só nasceu em 1911, apesar de o clube ter sido fundado para a prática do remo 16 anos antes. A primeira cesta no Brasil, o primeiro saque. Tudo foi registrado. Tudo meio a contragosto. Porque nas redações do passado ? e isso se verifica também nas de hoje em dia ? havia sempre alguém disposto a cortar uma linha a mais dedicada ao esporte.

No início do século 20, o Rio de Janeiro pulsava e impulsionava o Brasil. E no Rio os jornais dedicavam também cada dia mais espaço ao futebol. Mais do que nas demais cidades do país. Os jogos dos grandes times da época aos poucos foram ganhando destaque. Até que o Vasco, em 1923, venceu a Segunda Divisão apostando na presença dos negros em seus quadros.

Era a popularização que faltava. Os negros entravam de vez no futebol, tomavam a ponta no esporte. O Vasco foi campeão cario-ca pela primeira vez em 1924, apesar da oposição dos outros grandes, que sonhavam tirá-lo da disputa alegando que o clube dos portugueses e negros não possuía estádio à altura de disputar a Primeira Divisão.

Os portugueses construíram o estádio de São Januário e nunca mais saíram das divisões de elite do futebol do país. Nos anos 30, o Jornal dos Sports nasceu no Rio de Janeiro. A rigor, foi o primeiro diário exclusivamente dedicado aos esportes no país. O primeiro a lutar ferozmente contra a realidade que tomou conta de todos os diários esportivos a partir daí.

Durante todo o século passado, dirigir redação esportiva queria dizer tourear a realidade. Lutar contra o preconceito de que só os de menor poder aquisitivo poderiam tornar-se leitores desse tipo de diário. O preconceito não era infundado, o que tornava a luta ainda mais inglória. De fato, menor poder aquisitivo significava também menor poder cultural e conseqüentemente ler não constava de nenhuma lista de prioridades. E se o futebol ? como os demais esportes ? dela fizesse parte, seria necessário ao apaixonado ir ao estádio, isto é, ter menos dinheiro para comprar boas publicações sobre o assunto.

Assim, revistas e jornais de esportes foram surgindo e desaparecendo com o passar dos anos. No Rio de Janeiro, a Revista do Esporte viveu bons anos entre o final da década de 1950 e o início dos anos 60. Viu nascer Pelé, o Brasil ganhar títulos mundiais, viu o futebol, seu carro-chefe, viver momentos de estado de graça. E nem assim sobreviveu às adversidades.

No final dessa década, o jornalista paulistano Roberto Petri lançou seu próprio diário esportivo: O Jornal. Não durou. Petri voltou a trabalhar em emissoras de rádio como Gazeta, Difusora e Bandeirantes, até concentrar-se nos comentários sobre o futebol argentino na ESPN Brasil, no final dos anos 90.

Só no fim da década de 1960, os grandes cadernos de esportes tomaram conta dos jornais. Ou melhor: em São Paulo, surgiu o Caderno de Esportes, que originou o Jornal da Tarde, uma das mais importantes experiências de grandes reportagens do jornalismo brasileiro. Dessa época para cá, os principais jornais de São Paulo e do Rio lançaram cadernos esportivos e deles se desfizeram como se tratasse de objeto supérfluo. Gastar papel com gols, cestas, cortadas e bandeiradas nunca foi prioridade.

Nem no Brasil, dito país do futebol, que só teria revista esportiva com vida regular nos anos 70. A Itália, por sua vez, lançava seu primeiro exemplar de revista dedicada exclusivamente aos esportes em 1927. A Argentina também. Países com muito mais vocação para o assunto, mesmo que esta seja muito mais cultural do que esportiva.

De todo jeito, a partir da segunda metade dos anos 60, com cadernos esportivos mais presentes e de maior volume, o Brasil entrou na lista dos países com imprensa esportiva de larga extensão. Não quer dizer de alta ou baixa qualidade. A primeira depende muitas vezes da quantidade de profissionais indicados para trabalhar na área.

Leia também

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem