Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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O jogo dos inocentes

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

ESTRATÉGIAS GLOBAIS

Gilson Caroni Filho (*)

Não pode ser tomado por pensamento conspiratório o simples registro de uma evidência gritante. Os que, por equívoco ou má-fé, vinham exaltando um suposto padrão editorial de excelência nas organizações da família Marinho durante a cobertura eleitoral terão que reavaliar o que andavam pregando em prosa e verso. É bom lembrar que os mais açodados chegaram a solicitar aos críticos do monopólio o reconhecimento da eqüidistância da TV Globo frente aos interesses em jogo.

Observatórios dotados de possantes telescópios e eficazes lunetas giratórias insistiram em ignorar a presença de qualquer asteróide indo de encontro à lisura jornalística no registro dos fatos eleitorais. Segundo os relatos dos nossos prestimosos astrônomos, vivíamos uma configuração celeste de plena redenção do monopólio aos ditames do jogo democrático. Sem riscos de colisão ética.

Desta vez, a operação seria mais sutil, mas não menos insidiosa e, quem sabe, eficaz. E viria da segurança pública o móvel que a deflagraria. Lembramos ao leitor que o jogo está apenas começando, mas os primeiros lances prometem a recorrência de antigas jogadas. "O essencial costuma ser invisível", como lembram todos os que folhearam um dia as páginas escritas por Saint-Exupéry. Para apreender certas tramas talvez bastem algumas passagens de O pequeno príncipe, como bem sabem as crianças inteligentes e as misses nem tanto.

Desde a rebelião no complexo penitenci?rio de Bangu 1, a TV Globo vem surpreendendo considerável parcela de seus telespectadores com rasgados elogios à ação "determinada" da governadora Benedita da Silva, do Partido dos Trabalhadores. Alguns, boquiabertos, viram no editorial lido em tom solene por William Bonner, editor e apresentador do Jornal Nacional, a adesão da emissora ao reconhecimento de uma atuação competente do aparato de segurança estadual. Independentemente de clivagens partidárias, o monopólio passava a cultuar o mérito.

Edição histórica

Dias depois, após a prisão do traficante Elias Maluco, no Complexo do Alemão, o telejornal de maior audiência voltou a enaltecer a inteligência e a eficácia da polícia subordinada à governadora petista. Na mesma noite, a emissora anunciava que o jornal das organizações circularia no dia seguinte trazendo as repercussões políticas e eleitorais da prisão do bandido.

De fato, em edição atípica, O Globo não poupou páginas encomiásticas ao que seria o embrião de uma desejável política de segurança pública. Até a jornalista Míriam Leitão dedicaria sua coluna aos feitos da governadora em três frentes: indicadores sociais, fiscais e segurança.

Tudo seria digno de registro exultante, não fosse óbvia a tática que se afigura. Passou a ser imperativo ao bloco de poder a realização de um segundo turno nas eleições para o governo estadual, no Rio de Janeiro. E a candidatura a se opor à de Rosinha deveria ser a da petista, Benedita da Silva. Se tal empreitada não se apresentar possível, um intenso embate no primeiro turno já seria de bom tamanho. Com isso estariam reduzidas a zero (na primeira hipótese) as chances de apoio do candidato do PSB a Lula, num eventual segundo turno com Serra. E, no segundo caso, uma confrontação acirrada entre as duas candidatas deixaria seqüelas difíceis de contornar para uma composição no plano presidencial. Notemos a magnitude do que está em jogo: 14% do eleitorado (índice obtido pelo ex-governador do Rio na última pesquisa Ibope) e o terceiro colégio eleitoral do país.

Parafraseando o bordão do candidato tucano, é sempre bom lembrar aos que não resistem ao canto da sereia que a Globo sabe o que pensa e tem perfeita noção de como não dizê-lo. Nenhum outro veículo consegue, como a emissora monopolista, editar o que o momento histórico lhe solicita.

(*) Professor-titular da Facha, Rio de Janeiro

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