Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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O jogo é este: leva-se um furo e dá-se dois

Por Alberto Dines em 20/09/1997 na edição 30

A Folha (junto com os jornalões cariocas) foi furada pelo concorrente, o Estadão, no anúncio da desistência de Mário Covas disputar a reeleição ao governo de São Paulo (segunda-feira, 15/9).

Em compensação, deu um belíssimo furo revelando com todos os detalhes que o deputado federal Zé Gomes da Rocha (PSD-GO) usa verba parlamentar para pagar sete jogadores e o técnico do seu clube de futebol. E, além disso, continuou sua série de denúncias sobre o escândalo da jogatina televisiva (v. abaixo).

Na edição seguinte (terça-feira, 16), a Folha cobriu normalmente o caso Covas e ainda ostentou na primeira página dois galardões: a Câmara dos Deputados vai investigar suas denúncias e certamente punir o deputado sem compostura e o governo federal vai mudar as regras dos sorteios de TV.

O todo-poderoso Painel de Leitores não registrou, as vendas não caíram e a vida continua – jornalismo é assim. Sobretudo num sistema informativo aberto e intenso como é o nosso onde todos estão aptos a dar e levar furos.

O único senão da história é que a matéria da Folha que efetivamente poderia tratar da desistência de Covas (um ato oficial no domingo onde o governador esteve presente) ocupou-se apenas em registrar as vaias articuladas por grupos de oposição contra Covas.

Este é o preço que se paga quando os repórteres saem pré-pautados ou pré-programados pelo tal “jornalismo crítico”, nome charmoso para o velho e despudorado vício de brigar com a notícia (v. abaixo).

The New York Times investe em qualidade

Na segunda-feira 15 de setembro o mais importante jornal americano e talvez do mundo adotou uma serie de modificações industriais e tecnológicas. Objetivo: melhorar a qualidade da informação. O NYT fechará as edições mais tarde, incluirá notícias mais atualizadas (inclusive esportivas) e passará a publicar fotos e ilustrações em cores.

Considerada pelo publisher como a mais importante alteração no jornal desde os anos 70, não afetará a concepção visual básica do jornal (a mesma desde o início do século). A edição metropolitana (Nova York e adjacências) passou a conter de cinco (às 2as) a seis cadernos (de 3a a 6a). Mas o noticiário nobre (política, fatos nacionais e internacional) continua organicamente compactado num único caderno. Na mesma segunda-feira, a nossa Folha (o jornal mais fragmentado do país) apresentava 8 cadernos.

No Brasil, os investimentos industriais contemplam inicialmente o aumento do faturamento através de configurações para aumentar o número de páginas de anúncios em cor. De equipamentos ou sistemas que permitam a maximização da atualidade nem pensar – não atendem à equação lucro-benefício.

Jornal Nacional apela na apresentação

O pingue-pongue frenético na abertura da edição é um retrocesso para um jornal televisivo que neste ano revolucionou o telejornalismo investigativo. Peter Jennings da ABC não precisa recorrer a estas bossas & truques para prender a atenção do público. É humilhante para profissionais sérios participar deste “espetáculo” que, além de criar falsos piques, produz tensões que acabam por provocar seguidos erros (como tem acontecido).

Últimas do Jornalismo “Crítico”

* A Folha é tão crítica, mas tão crítica, que sua manchete sobre o enterro de madre Teresa reclamava: “Pobre não vê enterro de madre Teresa” (14/9). Só quem não sabe que Calcutá é a cidade mais miserável do mundo pode dizer uma coisa destas. A BBC mostrou durante horas (inclusive para o telespectador brasileiro) as multidões de gente humilde que acompanharam o funeral. Em Calcutá, classe média baixa vive na calçada.

* A Folha é tão crítica, mas tão crítica, que ignorou inteiramente o discurso que Ruth Cardoso pronunciou como oradora de honra na abertura da 50ª Conferência Internacional de Organizações Não-Governamentais sobre a exclusão social e os meios de combatê-la. Mas publicou a crítica de um desconhecido intelectual alemão sobre a ação social do atual governo brasileiro. Autor da matéria: o secretário de redação do jornal.

* A Folha é tão crítica, mas tão crítica, que agora quer desmontar a imagem do irmão de Diana, Charles Spencer, acusando-o de, no passado, vender informações aos tablóides. Lendo-se o texto fica evidente que o redator forçou a mão. Nos demais jornais do domingo 14/9 as mesmas informações foram tratadas com outro enfoque.

Jornalões subiram, revistas caíram

Estudo produzido pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação) e resumido pela Gazeta Mercantil mostra que entre 1990 e 1996 os cinco principais jornais obtiveram um aumento de circulação de 50% (de 4 milhões de exemplares/dia para 6 milhões). O segmento jornal, que detinha 33% do bolo publicitário em 90 (US$ 3,5 milhões), pulou para 36%, com US$ 10,6 milhões.

O segmento TV ficou com os mesmos 51% mas o setor revistas dono de 10% do bolo publicitário caiu para 8%. Significa que, apesar dos vícios da mídia impressa diária, ela ainda consegue mostrar-se imprescindível (sobretudo porque cresce o número de leitores que compram ou assinam dois jornais da mesma praça).

Explicação óbvia: nossas revistas não se renovaram, estão ainda mais rasas do que os quotidianos.

Dois pontos para a Rádio Eldorado (AM-SP)

* Pela contratação do jornalista e advogado José Ramos Horta, prêmio Nobel da Paz, para comentar duas vezes por semana a questão do Timor Leste. É a primeira vez na história da imprensa brasileira que um veículo assume ostensiva e inequivocamente a causa de um povo oprimido.

* Pelo editorial na semana 25-39 de agosto anunciando que não mais transmitiria as cotações do dólar no mercado paralelo por considerar ilegais estas transações. Atendia às sugestões da nossa edição de 20/8.

Encol: e quem lembra de Ronald Levinson?

Para a mídia é fácil culpar a esfera pública pelo tamanho do buraco da Encol. Mas será que nenhum dos 42 mil clientes deste império imobiliário procurou os jornais para reclamar? E que providências tomaram os jornais para abortar o escândalo?

O caso nos remete a um outro, protagonizado pelo mago das finanças dos anos 70, Ronald Levinson, com a Delfin, um rombo igual ou até maior (em dinheiro de hoje) e que continua impune num magnífico apartamento de frente para o Central Park em Nova York.

Levinson foi mais esperto do que a máfia da Encol: financiou a compra de apartamentos para um seleto grupo de jornalistas cariocas (ou paulistas lá residentes), meteu-se em negócios com empresários de mídia e assim, ao longo de quase duas décadas, o “Caso Levinson” tornou-se tabu.

Hoje, quantos pauteiros e editores de economia conhecem o caso? A culpa é do governo.

Besteirol na tragédia de Diana

As duas maiores asnices na cobertura da princesa cometidas pela mesma Folha:

* Manchete de página do caderno de turismo (8/9) sobre a Cidade-Luz: “Nada mais Diana do que acabar em Paris”. Maria Antonieta seria mais sóbria.

* Matéria de capa da Revista da Folha (7/9): “Somos todas princesas – traída, vítima de bulimia e à procura de amor, Diana parecia sintetizar os principais problemas da mulher moderna”. Na foto, insinuando que imbecilidade é fenômeno genético, mãe e filha, peruas paulistanas, posam de princesas.

Imprensa e jogatina

* A Folha iniciou uma série de denúncias no dia 8/9 sobre o escândalo dos sorteios de TV – uma dos trabalhos mais competentes do jornalismo impresso neste ano, mantido aceso durante 10 dias consecutivos por uma única profissional, a repórter Elvira Lobato.

Comprovação irrespondível de que o jogo foi liberado, pelo menos para os grandes grupos da mídia eletrônica com as benções de algumas religiões. A beatíssima D. Santinha, que em 1947 conseguiu do marido, o presidente Eurico Gaspar Dutra, o fechamento dos cassinos, jamais poderia imaginar que a sua cruzada em nome da moral e dos bons costumes seria desmoralizada desta maneira.

* Anúncio de capa do caderno de classificados da Gazeta Mercantil (10/9) apresenta um fantástico serviço aos amantes do carteado e roleta, o cassino terceirizado. A Planet Players oferece ao público brasileiro o turismo do pano verde com charters para Aruba, Atlantic City, Las Vegas, Punta del Este, África do Sul e St. Maarten e Puerto Iguazu, Argentina (base operacional do sistema). Texto na primeira pessoa do singular: “Aposto que estes números vão dar muita sorte pra você” (seguem-se os dois telefones, 0800-134263 e 822-0044, de S. Paulo). Quem será o destemido croupier?

Memória fraudada

Mauro Malin

O capítulo da memória como mercadoria mal começou a ser teorizado. Muito ainda se dirá a respeito. Desde logo convém assinalar, como é o caso em relação a qualquer mercadoria, a existência de contrafações e fraudes.

Toda a propaganda sobre o passado glorioso da Folha de S. Paulo é enganosa. Se o Conar valesse alguma coisa, teria sido vetada. Mas o Conar – conselho de “auto-regulamentação” – só se mexe quando é acionado por algum reclamante. Só funciona quando a peça publicitária passa grosseiramente das medidas. Às vezes, nem isso: nenhum dos anúncios glamourizando jovens drogados foi contestado.

O passado mais condena do que dignifica as Folhas. Para falar de período recente, até meados da década de 70 o grupo era vinculado às posições políticas da ditadura militar.

Melhor que a Folha tenha mudado de lado, mas o passado não mudou de natureza.

Leitores, esses bobos

M.M.

Enquanto a propaganda da Folha, em harmonia com sua opção política oposicionista em face do governo atual, procura fraudulentamente forjar um passado glorioso numa trincheira combatente – o que não significa tratar ostensivamente seu leitor como bobo -, Veja se juntou ao Estadão na absurda concepção de que o produto deve ser oferecido aos pobres de espírito.

No anos de 1995/6, o grupo Estado veiculou uma série de anúncios em que se sugeria a pessoas sem luzes nem assunto que assinassem o jornal, para se metamorfosear em sabidinhos. Agora, a repetição sem graça de Veja mostra um pai motorista que não sabe dizer aos filhos o que são “precatórios”.

Infelizmente, é o que pensam grandes veículos paulistas do distinto público que pretendem atrair.

Lavoura moderninha

M.M.

Na cobertura da renúncia de Mario Covas à reeleição, o Estado, único a dar ao assunto a devida relevância (ver a primeira nota do Circo, acima), estampou no dia seguinte, 16/9, um show de infração às chamadas regras comezinhas das editorias de política.

Na página 4, há cinco declarações entre aspas de personagens que não são identificados, o chamado “off” (“off the record”, confidencial).

Os declarantes são um “tucanão”, um “dirigente” (do PSDB), um “tucano”, um “dirigente paulista” (idem) e um “assessor de Fernando Henrique”. Verdadeira horta de plantações. Os declarantes que fornecem as razões cruas do conflito (R$ 800 milhões de perda de arrecadação calculada do estado de São Paulo) são claramente identificados, mas depois: Mario Covas e Yoshiaki Nakano, secretário da Fazenda.

A memória de Carlos Castello Branco não foi feita para humilhar ninguém, mas andam passando da conta. “Off” entre aspas é proibido – ou deveria ser – em qualquer manual de redação.

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