Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

O joio e o trigo

Por lgarcia em 05/03/2003 na edição 214

LEITURAS DE VEJA

Claudio Julio Tognolli (*)

Nos anos 60, quando Adlai Stevenson fazia, no Conselho de Segurança da ONU, durante crise dos mísseis, o papel ora cabido a Colin Powell, disparou uma das clássicas frases sobre jornalismo: "A imprensa separa o joio do trigo. E publica o joio".

Perversão dos tempos, a frase cai bem, agora, para quaisquer interpretações vindas da revista Veja para a "fúria antiamericana". Para os entendidos em semiótica, a cor vermelha tem um papel fundamental nas capas de Veja: foi vermelha a capa da primeira edição, em 1968, sobre as URSS; foi também vermelha a capa de Fernandinho Beira-Mar. E vermelha, também, a capa que satanizou o líder do MST, João Pedro Stédile, vendido como um belzebu carmin.

A revista que acreditou no "boimate"? aquela brincadeira de primeiro de abril, gringa, a vender o tomate com genes de boi ? resgata agora os tomates vermelhos, ainda que discretos, para montá-los na capa de George W. Bush, edição 1.791, de 26 de fevereiro passado.

Seria sinal dos tempos acreditar que Veja seguisse a linha que a capa vende. Mas a mensagem clássica e notarial de Veja surge nas últimas linhas do texto que abre a reportagem de capa, à página 40:


"Os americanos são ainda odiados por um motivo mais prosaico: porque há décadas vivem uma era de prosperidade sem igual na história humana. Num planeta em que 45% das pessoas subsistem com menos de 2 dólares por dia, os americanos são os beneficiários de uma opulência que agride os brios dos países retardatários. Além disso, os Estados Unidos têm valores, como a democracia e a liberdade absoluta de manifestação de idéias e crenças, que chocam todos aqueles que aprovam regimes totalitários, entre eles os radicais islâmicos. Os EUA, como país, resultaram da convivência das diferenças. O individualismo de seu povo é uma característica cujos resultados são assombrosamente positivos. Isso produz ressentimento."


Chamemos a isso o corte que filósofos intitularam "Navalha de Occam", ou mais recentemente, "teleologia", ou raciocínio a partir das causas finais. Porque após 11 de setembro, quaisquer críticas ao governo republicano dos EUA são vistas como um finalismo rematado, uma ratio em prol do fundamentalismo, ou do "islamismo terrorista".

Na mídia nacional brazuca, pouca gente tem suas opiniões sobre os EUA vistas de um modo imparcial. Dá para contar nos dedos: digamos, o Gore Vidal que entrevistou na cadeia o fuzileiro Tim McVeigh (autor do atentado contra o Oklahoma Building, há sete anos) e o Noam Chomsky de sempre. Vejamos o que Chomsky, por exemplo, disse ao jornalista John Horgan, editor-chefe da Scientific American: "Os EUA são uma superpotência terrorista e a mídia é o seu agente publicitário. Se o The New York Times começasse a resenhar os livros que escrevo sobre política, isso seria sinal de que eu estou fazendo algo de errado". (The End Of Science, pág. 189).Portanto, como temos visto em Veja, ou New York Times, quaisquer críticas aos EUA brotariam da inveja da "opulência da maior nação democrática do mundo".

Passaporte para o terrorismo

Escreva uma matéria sobre o que os EUA e a CIA aprontaram por aí: faça um box sobre assassinato de Jacobo Arbenz na Guatemala dos anos 50, sobre Kissinger estar sendo acusado de crimes contra a humanidade (Chile, 1973) pelo juiz espanhol Baltazar Garzon. Sobre os trabalhos na brazilianista Martha Huggins acerca do papel da CIA no movimento de 64, no Brasil; sobre a mentira deslavada (denunciada pelo Daily Telegraph) que foi invadir o Kosovo em abril de 99 para contornar uma "limpeza étnica ? o site <www.stratfor.com>, da Universidade de Louisiana, sustenta com documentos do FBI que foram encontrados ali menos de 100 corpos, contra os 10 mil alegados por Bill Clinton; fale do Plano Colômbia, segunda prioridade de Bush depois da guerra contra o Iraque; conte que a CIA depôs em agosto de 1953 o primeiro-ministro iraniano Mohamed Mossadegh para pôr em seu lugar o Xá Reza Pahlevi; fale do papel de George Bush pai no escândalo Irã-Contras, em 1986. Você não estará informando, dirão. Será tachado de "pró-terrorista". Este será o seu passaporte para o mundo de Laden.

O oxigenação das idéias, no entanto, ocorre no Brasil. Dois exemplos: reportagem do Observer, intitulada "Do fundo do copo ao topo do poder", bravamente reproduzida pela CartaCapital, em sua edição 227, de 12 de fevereiro passado. E o perfil dos "falcões de Bush", publicado na Caros Amigos deste mês e de autoria do correspondente nos EUA Sérgio Kalili.

(*) Repórter especial da Rádio Jovem Pan, consultor de jornalismo investigativo da Unesco, professor de jornalismo na ECA-USP e do Unifiam, mestre em psicanálise da comunicação e doutor em filosofia das ciências. 

 

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem