Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Mãe, mulher, guerreira

O jornalismo celebra Fátima Bernardes

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

APRESENTADORA-ESPETÁCULO

Marcia Benetti Machado (*) e Sean Hagen (**)


Texto apresentado no I Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPjor), reunido em Brasília, nos dias 28 e 29 de novembro de 2003, com o título original "O jornalismo celebra sua diva: o discurso das revistas Nova e Criativa sobre Fátima Bernardes"; intertítulos da Redação do OI.


O avanço da estrutura de show no espaço ocupado pelo jornalismo aponta uma tendência que pode ser mais do que um simples modismo na TV brasileira. Esse movimento acontece, em parte, pelo aumento e a acolhida de produções voltadas ao entretenimento que priorizam as fofocas sobre artistas, as desgraças cotidianas, as disputas da vida privada, as singularidades sexuais e de conduta. Crescem em número e no tempo total na grade de programação das TVs. Contaminam o espaço reservado à informação, trazendo-o para dentro de sua estrutura e teatralizando a realidade.

Do embate entre a informação e o entretenimento, surgem estruturas diferenciadas que, ainda que mantendo contato com o jornalismo, exploram premissas nitidamente espetaculares, exercitando uma proposta que transita entre um espaço e outro. No conteúdo, abordam os mesmos assuntos dos shows, mas com premissas básicas do campo jornalístico. Na forma, explicitam mais claramente esta aproximação com o espetáculo: câmera nervosa, pouca edição e música de fundo nas entradas ao vivo. Mas o grande diferencial deste modismo, que podemos chamar de jornalismo-espetáculo, está centrado no espaço do apresentador. Cabe a ele manter o interesse do público em meio às desgraças relatadas no programa. A necessidade de assegurar a idéia de "ineditismo" ? em um universo de informações geralmente compartilhadas por todas as emissoras ? desenvolveu um dispositivo de diferenciação: o apresentador-espetáculo. Verdadeira estrela do show biz, possui uma forte personalidade imagética capaz de criar empatia instantânea com o público. O nome dele está sempre à frente do programa, como uma grife.

Atualmente, o modelo paradigmático desse estilo é José Luis Datena. Exagerado, grandiloqüente, opinativo, Datena é a própria notícia, mais do que a informação que veicula. Datena costuma repreender produtores, editores e técnicos por qualquer erro surgido no jornal. Faz isso ao vivo, em cadeia nacional, reforçando o axioma de que as informações e imagens materializam-se no instante mágico em que um apresentador põe o rosto na tela. Com um grito e um gesto firmes ele supostamente conserta qualquer erro. Essas intervenções ganham um reforço mais espetacular com o uso de uma música dramática acompanhando todas as entradas do apresentador. Datena não apresenta os fatos como os jornalistas fazem: ele manda que o público veja exatamente o que ele vê.

Essa tendência não fica restrita somente aos programas que transitam entre o show e o jornalismo. Também ocupa o espaço do telejornal tradicional. Boris Casoy, considerado um dos primeiros âncoras do país a ocupar o horário nobre da TV, pegou de surpresa público e estudiosos ao cunhar o bordão "Isto é uma vergonha", que usa quando se sente indignado com o conteúdo de alguma reportagem. Suas intervenções beiram o histriônico, e uma leitura mais aguçada permite supor que há um comportamento meticulosamente estudado e teatral nessas opiniões. A postura abertamente opinativa opõe-se ao prestígio construído por Casoy durante anos no jornalismo impresso, em que isenção e discrição eram valores correntes.

Campeoníssima da "empatia"

Frente a essas investidas e a uma audiência que hoje oscila entre os 35 e os 45 pontos percentuais no Ibope ? bem abaixo do sucesso das décadas de 70 e 80, quando chegava à media de 50 pontos ?, o Jornal Nacional, sempre reafirmando a busca por um formato único, investe em outro dispositivo para se aproximar dessa tendência: a glamourização dos apresentadores. Com essa estratégia, a Rede Globo busca preservar a forma e o conteúdo que o público está habituado a ver no Jornal Nacional, ao mesmo tempo em que insere os apresentadores no campo do espetáculo. Estrategicamente "ensanduichado" entre uma seqüência de novelas, o JN se apresenta como um rasgo de realidade dentro da ficção. E talvez seja justamente por isso que nunca investiu de forma mais contundente em elementos externos ao seu meio, apesar de já ter experimentado a dramatização e reconstituição de fatos na disputa pela audiência.

Em 1996, após tirar da apresentação Sérgio Chapelin e o ícone Cid Moreira, em uma tentativa de desvincular o Jornal Nacional da imagem governista cristalizada na figura dos apresentadores "oficiais" do país, a direção da Globo escala dois jornalistas para ocupar o posto: Lilian Witte Fibe e William Bonner. As mudanças para tentar aumentar a audiência vão mais longe: uma pesquisa feita por Mauro Porto (1999) entre 1995 e 1996 indica um crescimento significativo na participação dos apresentadores no telejornal. A média de 15% do tempo total ocupado pela dupla Moreira e Chapelin cresce para 26% com Witte Fibe e Bonner. Além da apresentação, os dois jornalistas também ocupavam a função de editores, colaborando ativamente na construção do telejornal.

Ao mesmo tempo em que concedia mais espaço e poder aos jornalistas-apresentadores, a Globo percebeu que o público rejeitava apresentadores com credibilidade, mas sem empatia, e não esquecia o carisma de Cid Moreira. "Hallin sugere que a credibilidade do noticiário de televisão entre o público é baseado (sic) mais na forma que no conteúdo" (PORTO, 1999, web). Enquanto uma pesquisa de opinião apontava Bonner como "perfeito para o papel, por parecer o Cid Moreira mais jovem" (CAMACHO et al, 1998, web), outras amostras indicavam que Witte Fibe "aparecia em primeiro lugar no quesito ?credibilidade?, mas chegava em quarto na categoria ?empatia?, ficando invariavelmente atrás da campeoníssima do gênero, Fátima Bernardes" (idem). Em 1998, a troca foi efetivada, permanecendo até hoje. Na época, Witte Fibe deixou clara sua postura frente às mudanças que o telejornal vinha sofrendo: "Entreter, divertir ou distrair o público nunca foi tarefa jornalística (…). Pelo que sempre ouvi dos especialistas, no jornalismo de TV o importante é a credibilidade. Empatia é fundamental nas novelas e na linha de shows" (apud PRIOLLI, 1998).

Mundo barroco

Com um aparente processo de mudanças em curso no meio televisivo, a Rede Globo ainda não havia encontrado a fórmula ideal para barrar os avanços da concorrência, já que o JN se furtava a assumir uma forma predominantemente espetacular. Mesmo contaminado pelo espetáculo, como todos os produtos televisivos, a estratégia de ação empregada sempre foi mais sutil. Até mesmo a tecnologia usada na criação de vinhetas, cenários, gráficos, um item largamente associado à espetacularização, recebeu tratamento diferenciado e serviu de base ao afamado "padrão Globo de qualidade", que credita à técnica possibilidades de isenção, imparcialidade e veracidade.

Esse diferencial perde espaço com o desenvolvimento de equipamentos digitais de alta qualidade a custos menores, portanto ao alcance de todas as redes de TV. Priolli e Borelli (2000, p. 65) lembram que "hoje, austeridade e competência técnica não são vistas necessariamente como sinônimos de isenção e/ou como fontes possíveis de credibilidade". Liberadas dos entraves técnicos e sem o peso da cobrança de um "padrão de qualidade", as redes menores arriscam em fórmulas diferenciadas, atingindo exatamente a fatia da programação em que a Globo tem relutância ou falta de agilidade para mexer. Como afirmam Priolli e Borelli (2000, p. 65), "opondo-se ao padrão global clean de fazer jornalismo, emerge uma verdadeira estética da poluição, do excesso, que, ao que parece, se une à proposta de veiculação de uma imagem do Brasil como ele é" (grifo dos autores).

Essa ruptura do clean pela estética da poluição vem ao encontro das idéias de Michel Maffesoli (1996), que nos apresenta um mundo barroco na concepção das imagens, "poluído" por múltiplos matizes e informações, agregando conteúdo àquilo que se imaginava só aparência: "(…) o mundo imaginal, que está sendo elaborado contemporaneamente, fundamenta-se em um substrato arquetípico. Repete, de maneira cíclica, o que se acreditava ultrapassado. É isso que permite falar de maravilhamento, de reencantamento" (MAFFESOLI, 1995, p. 147).

Vida devassada

Observando o Jornal Nacional por esse prisma, Fátima Bernardes e William Bonner ocupam um lugar único no contexto da crescente espetacularização dos programas jornalísticos da TV brasileira. Sem cair no apelo farsesco desempenhado por Datena, nem na opinião indignada de Casoy, o casal constrói uma imagem de credibilidade, profissionalismo e isenção como sempre pregou a cartilha do fazer jornalístico, mas agora agregando um novo elemento: o estilo de vida glamourizado que ocupa fora do estúdio e da tela da TV.

Poucos anos atrás, o "colégio invisível" dos jornalistas proibia que os profissionais fizessem testemunhais publicitários, bem como promoção pessoal em revistas e jornais, sob pena de comprometerem sua credibilidade. Mas a audiência que legitima os programas com ênfase no jornalismo-espetáculo parece desconhecer ? ou rejeitar ? essa proposição. A mudança nessa leitura pode ser creditada, sob a ótica de Maffesoli, aos mitos de épocas diferentes que se superpõem em uma transmutação lenta. "Disso decorre o fato de que o estilo da época pode ser, ao mesmo tempo, ?evidente?, para aqueles que o vivenciam, e totalmente opaco, para os que tentam analisá-lo" (1995, p. 43).

Ao mesmo tempo em que buscam a imparcialidade e a credibilidade frente à bancada do JN, Bernardes e Bonner têm a vida devassada por revistas e jornais, criando uma sinergia entre esses dois campos. Conhecer as particularidades do casal conduz nossos olhos para uma outra leitura da posição que eles ocupam como profissionais: assumem um papel "humanizado" frente à frieza do cenário e da tecnologia. Quebram o distanciamento e cativam ao mesmo tempo em que se colocam em um papel quase inatingíiacute;vel para o telespectador comum. São belos, charmosos, pais exemplares e bem-sucedidos profissionalmente.

Momento de comunhão

Essas são características do novo mito que vem ocupando um espaço cada vez maior no telejornalismo. Mas é preciso ressaltar que essas qualidades "fúteis" só ganham ressonância quando substanciadas por imparcialidade, objetividade e credibilidade ? estas, sim, associadas ao jornalismo e a resquícios do mito primeiro inserido no novo mito. As ações encarnadas por Bernardes e Bonner expressam a comunhão que acontece nos "objetos-imagens", propiciando a "eucaristia de um novo estilo" (MAFFESOLI, 1995, p. 129). O autor acredita que, em torno dos objetos-imagens, bem como nos grandes eventos sociais, esportivos, culturais ou religiosos, as pessoas procuram tocar o outro e participar de uma conexão tátil, não verbal, ainda pouco analisada. Maffesoli indica que o mesmo pode ser aplicado à televisão, o que nos faz pensar em um duplo reforço no Jornal Nacional: de um lado, os objetos-imajados Bernardes e Bonner; do outro, "a tela da televisão favorecendo uma espécie de comunidade" (1995, p. 129).

A comunhão com o público parece ser a especialidade de Fátima Bernardes, a "apresentadora mais querida pelo público, segundo pesquisas feitas regularmente pela Globo" (APOLINÁRIO, 1998, web). Ao lado do marido e apresentador/editor-chefe do telejornal, Bernardes vem exercitando cada vez mais essa empatia junto ao público.

Um momento de comunhão na mídia para Bernardes aconteceu na Copa do Mundo de 2002, em que apresentou vários segmentos do JN direto da Ásia. Os bordões "bom dia, Fátima; boa noite, William" e "onde está você, Fátima Bernardes?" podem ter ajudado na boa audiência. A dúvida é descobrir se quem falava eram os profissionais ou o casal apaixonado. O público estava interessado apenas nas informações ou no papel dos apresentadores desempenhado como um subtexto de novela, em que a euforia vivida pela Seleção Brasileira parecia permitir uma troca de intimidades entre o casal? Quantos não terão esperado, em vez do "boa noite" tradicional, Fátima enviar um beijo a William e aos filhos trigêmeos?

O mito no qual se espelhar

Os (aparentemente tantos) atributos de Fátima Bernardes são insistentemente evidenciados pela mídia brasileira. A jornalista já não é só uma celebridade cuja vida privada desperta curiosidade nos anônimos; ela serve de modelo e parâmetro de como ser ou agir ? não gera apenas identificação, mas também projeção. É a representação da felicidade usualmente idealizada pelas ? ou para as ? mulheres ocidentais modernas: o triplo sucesso, como mulher amada e desejada, mãe realizada e profissional publicamente reconhecida.

Essa representação, vale lembrar, está sendo construída discursivamente. No caso do jornalismo, que é o discurso que nos interessa aqui, falamos de um universo de grande complexidade ? pois, sendo um discurso sobre algo, evidentemente por ele passam sentidos construídos em outros lugares e por sujeitos com objetivos alheios aos do campo jornalístico, às vezes até mesmo conflitantes com estes.

Tomamos como objeto de análise dois textos publicados nas revistas femininas Nova de setembro de 2002 e Criativa de fevereiro de 2003, números em que a apresentadora foi capa. Em ambos, Bernardes é tratada como uma supermulher que reúne os requisitos para a plena felicidade, entre eles a beleza, o amor, a realização materna, a competência, a auto-estima e a liberdade. "Bonita, famosa, mãe de trigêmeos e muito bem casada. Quem não quer ser um pouquinho parecida com a Fátima Bernardes?" (Nova). A leitora da revista, provavelmente, quer.

Formação discursiva

Como lembra Edgar Morin (1977, p. 144), as revistas femininas não costumam enfocar o objeto da sedução, o que é regra nas masculinas: "Se o rosto da mulher e não do homem impera na revista feminina é porque o essencial é o modelo identificador da mulher sedutora, e não o objeto a seduzir". Não indicam o que desejar, e sim como ser.

Bernardes é retratada como uma mulher simples: "Chegou ao estúdio fotográfico rigorosamente no horário, não se incomodou em fazer várias provas de roupa, se encantou com a maquiagem e com o empenho de toda a equipe encarregada de produzi-la. ?Vocês estão me tratando como uma estrela, eu não mereço tanto?, diz a virginiana" (Nova). E também modesta: "?Sou igual a todo mundo?, argumenta" (Nova).

A apresentadora sabe que não é "igual a todo mundo" e que sua imagem transita entre algo que a leitora pode ser de fato e algo que a leitora talvez quisesse ser. "Como qualquer brasileira em licença-maternidade, Fátima voltou ao trabalho quatro meses depois do nascimento dos pimpolhos. Iria cobrir a Copa de 1998, na França, pelo Fantástico" (Criativa). Um discurso que reitera o sentido de uma mulher comum, mas, afinal, não exatamente igual às demais.

Sabemos que analisar um discurso requer encontrar determinadas marcas, vestígios deixados aqui, ali e mais adiante pelos sentidos. Chamamos de paráfrase o movimento de construção e reforço do mesmo sentido por estratégias e expressões variadas. As marcas são os rastros desta significação, essas regularidades que vão reunindo, como um ímã, enunciados singulares em torno de um sentido particular ? ou, dito de outro modo, enunciados únicos e irrepetíveis em torno de um sentido fundante que se repete. Quando localizamos as marcas dispersas ao longo de um texto, dizemos que os enunciados que as contêm se filiam a uma Formação Discursiva.

Estrelas hollywoodianas

Há muitos modos de conceituar e compreender uma Formação Discursiva. Optamos por tomá-la, aqui, como uma região de sentidos. Uma região que circunscreve o que pode ser dito, com todas as complexidades que isso implica: dizer de um lugar, ocupando a posição de um sujeito, e dizer sempre para um outro sujeito, o receptor imaginado para aquele discurso. O discurso é invariavelmente essa relação entre sujeitos, o que nos obriga a admitir que os sentidos nunca estão "lá" no texto, mas são constituídos intersubjetivamente. É importante ter essa condição como pressuposto de qualquer discurso, porque ela nos leva a considerar que os sentidos mapeados são sempre predominantes, jamais absolutos ? o que não deslegitima a análise, pois ela é feita com uma busca rigorosa e várias vezes revista das marcas discursivas.

O sujeito que enuncia está investido de um papel. Nos textos que analisamos, temos um jornalismo segmentado e dirigido que acaba dizendo quem sua leitora deve ser e, mais importante, quem ela não pode ser. A instituição de modelos a serem copiados pode ter extensa ação sobre o imaginário do leitor:


Um gigantesco impulso do imaginário em direção ao real tende a propor mitos de auto-realização, heróis modelos, uma ideologia e receitas práticas para a vida privada. (…) E é porque a cultura de massa se torna o grande fornecedor dos mitos condutores do lazer, da felicidade, do amor que nós podemos compreender o movimento que a impulsiona, não só do real para o imaginário, mas também do imaginário para o real (MORIN, 1977, p. 90).


William Bonner e Fátima Bernardes nos remetem ao mito das estrelas hollywoodianas dos anos dourados do star system. Fora do Jornal Nacional, que se credenciou como paradigma de telejornalismo no país e não parece disposto a arriscar o espetáculo explícito, o discurso midiático constrói uma imagem mítica dos apresentadores, da mesma forma que Morin (1989) acredita serem construídas as estrelas: ao projetar-se sobre um outro, um "duplo", o casal impregna o espaço do JN com o "talento jornalístico e o sucesso pleno na vida", ao mesmo tempo em que se deixa impregnar pelo "paradigma do telejornal mais famoso do Brasil", não deixando claro onde começa um e termina o outro.

Paixões e mesquinharias

O sentido que subsiste é o de que Bernardes e Bonner são o Jornal Nacional. Realidade e projeção se misturam: "Para além da imagem, projeções míticas se fixam numa pessoa concreta e carnal: a estrela. Investida em seu duplo, investe-o por sua vez. A estrela submerge no espelho dos sonhos e emerge na realidade tangível" (MORIN, 1989, p. 67).

Mito, aqui, também deve ser compreendido pela visão de Mircea Eliade, que o resgata do universo das fábulas e ficções em que estava circunscrito até o fim do século 19, para analisá-lo como algo vivo, que possa garantir significação e valor à existência da humanidade, sempre apoiado no momento fundador. "(…) a principal função do mito consiste em revelar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas: tanto a alimentação ou o casamento, quanto o trabalho, a educação, a arte ou a sabedoria" (ELIADE, 1994, p. 13).

Essa é a grande diferença de Bernardes e Bonner em relação ao que Morin classifica como olimpianos ? heróis da cultura de massa promovidos a vedetes, um misto de humano e sobre-humano capaz de gerar o maravilhamento de que antes nos falava Maffesoli:


(…) olimpianas e olimpianos são sobre-humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam. A imprensa de massa, ao mesmo tempo que investe os olimpianos de um papel mitológico, mergulha em suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que permite a identificação (MORIN, 1977, pp. 106-7).


Ainda que mantenham uma sobrepersonalidade ? o duplo ?, os olimpianos vivem as paixões e mesquinharias dos mortais. Com uma excessiva humanização do mito, os olimpianos deixam de ser modelos para se tornarem símbolos. Enquanto o casal de apresentadores mostra uma existência perfeita, sem máculas e sem "vedetismos", exercitando valores absolutos, os olimpianos não se furtam a ter a imagem maculada pela exposição de fofocas e escândalos na mídia. Porém, é importante salientar que, mesmo baseada na idéia de perfeição, a construção da imagem de Bernardes e Bonner não deixa de se alimentar dessa capacidade de "parecer humano", que assegura a identificação com o público.

Mãe, mulher, guerreira

É neste quadro de caráter mitológico que o discurso sobre Fátima Bernardes se configura. Ele se constitui em torno de três Formações Discursivas principais, que de certa forma retomam três arquétipos: a Grande Mãe, a que nutre, protege, é capaz de amar e cuidar carinhosamente; a Musa, a mulher que seduz, absorve, conquista e exerce seu poder e sua feminilidade, e o Herói Guerreiro, antes socialmente restrito ao mundo masculino e hoje assumido pelas mulheres que conquistaram independência e autonomia. É Carl Jung quem sistematiza a idéia de que os arquétipos são as "imagens primordiais" presentes na psique como "formas" universais. Para Jung, os arquétipos existem no inconsciente coletivo:


O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade. Enquanto o inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos. O conceito de arquétipo, que constitui um correlato indispensável da idéia do inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar (JUNG, 2003, p. 53; grifos do autor).


Em toda as culturas e em todas épocas, a figura da Mãe exerce fascínio, temor e admiração. O arquétipo materno traz "a mágica autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento" (JUNG, 2003, p. 92). É assim que Fátima Bernardes relata a felicidade de ser mãe de trigêmeos: "Me considero uma mulher privilegiada, pois hoje minha casa é uma festa. Recebo muito carinho dos meus filhos e amor em dose tripla" . Ao que a revista complementa: "A jornalista é mesmo uma mãe coruja e devotada, do tipo que dorme menos de sete horas por dia só para não abrir mão de levar os filhos logo cedo à pracinha, acompanhá-los na natação e deixá-los no colégio" (Nova).

Bernardes não é apenas uma mãe realizada. É sobretudo uma supermulher que consegue fazer tudo com perfeição ? e ao mesmo tempo. "Como concilia o papel de mãe e a vida corrida de jornalista? Sem crise. ?Toda mulher trabalha hoje em dia. Acho normal as pessoas ficarem curiosas sobre como é cuidar de trigêmeos, mas não vejo nada de mais. Não gosto que fiquem me exaltando por isso.? Fátima conta com a ajuda de uma babá e de seus pais. Acorda às 7h30 da manhã, brinca com as crianças e espia as primeiras notícias do dia. Faz ginástica, almoça com os filhos, leva-os ao médico ou os deixa na escola, enquanto pensa em possíveis pautas para o JN" (Criativa, grifos nossos). "No fundo, ela admite ser uma profissional full time, que imagina uma boa reportagem mesmo quando sai para levar os trigêmeos ao cinema ou à pracinha" (Nova).

Receita de casamento

A idéia de que Bernardes ascendeu profissionalmente por méritos próprios, devido a seu espírito batalhador e persistente, é sempre reforçada: "Para ocupar a bancada do Jornal Nacional, a cadeira mais cobiçada do telejornalismo brasileiro, a jornalista Fátima Gomes Bernardes Bonner trabalhou muito. Já são 15 anos só de Rede Globo. (…) Foram quatro anos como repórter de O Globo. Fazia coberturas para o jornalzinho de bairro que era encartado na edição regional. ?Subi em favelas, cobri enchentes, buraco de rua, lixo, questões municipais. Tomei muito sol.? (…) Das vielas da periferia para os corredores dos estúdios de televisão, não teve indicação de bambambã nenhum" (Criativa). Ao mesmo tempo, o componente sobre-humano vem daquilo que não se pode explicar racionalmente: um golpe de sorte ou predestinação. "O destino deu então um empurrãozinho. ?Levei um grupo de alunos da academia de dança para uma apresentação ao ar livre e no local conheci alguns responsáveis pelo jornal O Globo. Eles me ofereceram uma chance como repórter freelance e aceitei na hora" (Nova, grifos nossos). "Fátima é a prova de que estar no lugar certo e na hora certa funciona. ?Mas fiz a minha parte. É bacana contar com a sorte, mas ela só aparece se você estiver antenada?" (Criativa, grifos nossos).

A representação de Bernardes como uma mulher que conquistou a felicidade está sempre associada à figura de Bonner. A chamada de capa da revista Nova não deixa dúvida sobre isso: "Fátima Bernardes: a receita dela para ter esse carisma, esse sucesso, esse maridão…". No universo das revistas femininas, não há felicidade sem amor: "O amor decantado, fotografado, filmado, entrevistado, falsificado, desvendado, saciado parece natural, evidente. É porque ele é o tema central da felicidade moderna" (MORIN, 1977, p. 131). Para Morin, o amor é o arquétipo dominante da cultura de massa. Mais do que tudo, porque ele permite que se institua o casal, que emerge "como portador do conjunto dos valores afetivos" (p. 134).

Bernardes é representada como a mulher que sabe manter o casamento. "O romance continua em alta na vida dos dois. ?Manter a chama acesa é o grande segredo para permanecer 12 anos casada com a mesma pessoa. Se a relação tivesse perdido o charme, não valeria a pena. Respeitamos muito um ao outro e isso faz a diferença?, comenta. Ela e William gostam de sair para jantar fora e assistir a shows de música quando a agenda permite" (Nova). É recorrente o sentido de parceria: "O casamento é uma parceria de sucesso. Um apóia o outro sem fazer sombra" (Criativa) e "Predestinada ao sucesso, no dia 30 de março de 1998 a jornalista foi escolhida e assumiu a bancada do Jornal Nacional ao lado de William Bonner, com quem vive uma segunda parceria, o casamento de 12 anos" (Nova, grifos nossos).

Felicidade completa

Sobre a desejada realização amorosa, diz Morin (1977, p. 134): "Nesse amor sintético [do erotismo unido à razão], a mulher tende a aparecer simultaneamente como amante, companheira, alma-irmã, mulher-criança e mulher-mãe e o homem como protetor e protegido, fraco e forte". Assim, "nos bastidores, dizem que Fátima foi ótima influência na vida do marido, famoso por ser despojado. ?Quando nos conhecemos, ele achava que bastava ter dois pares de sapatos, um preto e um marrom?" (Criativa). Mas a mulher forte também sabe venerar: "A jornalista não esconde a admiração que nutre pelo marido. ?Ele é bonito, inteligente e bem-humorado, além de excelente chefe e editor do jornal. Sabe tirar de cada profissional o que ele tem de melhor?" (Nova).

Modelo cada vez mais distante, e talvez por isso mesmo mais desejável, a Mãe e a Guerreira se associam ao arquétipo da Musa para fechar o círculo do mito da perfeição. "O grande número de compromissos assumidos pela apresentadora não impede que cultive um lado mais vaidoso. Duas vezes por semana, aproveita uma parte da manhã para fazer ginástica sob a orientação de uma personal trainer e assim mantém os seus 58 quilos distribuídos em 1,69 metro de altura. Dona de uma pele lisa e sem manchas, tem como regra de ouro retirar toda a maquiagem antes de cair no sono. ?Posso chegar em casa morta de cansaço, mas só me deito depois da limpeza?, garante. Mesmo assim, dispensa outros tratamentos e não cogita uma cirurgia plástica" (Nova). Além da beleza, a mídia ressalta seu aspecto jovem, afirmando que a apresentadora "completa 40 anos (…) com um rostinho jovem e um baita corpão" (Nova).

Podemos sintetizar os principais sentidos deste discurso em torno da imagem de uma Mãe presente, realizada, devotada, afetuosa, alegre, privilegiada, orgulhosa e amada pelos filhos. De uma Musa linda, bem-casada, disciplinada, jovem, sensual, vaidosa, bem-humorada, elegante, famosa, madura, companheira e amada pelo marido. E de uma Guerreira competente, dedicada, persistente, batalhadora, entusiasmada, experiente, determinada, consciente, inteligente, capaz, carismática e amada pelo público. Não há recanto da felicidade que Bernardes não tenha visitado a bordo do discurso midiático.

Datena para quê?

Mesmo considerando as especificidades da revista feminina e o tipo de texto característico do perfil ? um estilo predominantemente elogioso, admirado e parcial ?, ainda assim surpreende o tom adotado por jornalistas que, afinal, estão tratando de uma colega de profissão, mas se colocam na posição de quem retrata um ídolo ? e é dessa posição que enunciam. Como um fã pode ocupar a tribuna de um jornalista? Não seriam, em princípio, posições de sujeito incompatíveis? Ao que tudo indica, os atributos de Fátima Bernardes e William Bonner parecem de tal modo "incontestáveis" que são tratados como naturais, óbvios, evidentes e consensuais. Não são tratados como uma construção discursiva, e sim como "reais", o que autorizaria o jornalismo a incensar o mito da estrela perfeita, espelho a ser mirado, modelo a ser imitado.

É espantoso que uma jornalista escreva algo como "A cara da notícia das 8 da noite [Bernardes] não destoa na sala de ninguém" (Criativa). E que a mesma jornalista, mais adiante, assim defina a postura de Bernardes e Bonner: "Na correria, eles controlam tudo com a segurança de quem sabe o que faz. Na hora de falar de tragédias ou alegrias, não perdem a linha. É mais que talento; é competência. Trabalho duro. Sucesso é só conseqüência". A revista Nova, que elegeu Bernardes como "a musa do ano", não causa menos perplexidade ao encerrar seu perfil: "A verdade é que a tevê hoje não vive sem Fátima, e ela não vive sem seu trabalho. Com a musa na tela, há sempre de ser uma boa noite".

Sabemos que o discurso jornalístico faz circular determinados sentidos, silenciando outros, e que, sendo midiático, tem alto poder de inserção cultural e disseminação social. Esse poder simbólico de instituir parâmetros, "naturalizando" o que na verdade resulta de processos históricos de afirmação de modelos de comportamento, não pode e não deve ser subestimado. Fátima Bernardes não é apenas uma celebridade: é uma diva, que tem um parceiro à sua altura, tão perfeito quanto ela, e este casal a ser admirado e imitado imprime-se cada vez com mais nitidez no imaginário brasileiro. Com duas estrelas desta grandeza, por que, afinal, a Rede Globo precisaria de um Datena?

(*) Jornalista, professora-doutora da UFRGS

(**) Mestrando da UFRGS

Referências

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SQUIRRA, Sebastião. Boris Casoy: o âncora no telejornalismo brasileiro. Petrópolis: vozes, 1993.

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