Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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O jornalismo está de volta

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100

Fabiano Golgo, de Belgrado

Dezenas de milhares de pessoas celebraram noite adentro, de quinta para sexta-feira (5/6 de outubro), o levante popular que fez arder em chamas o parlamento, a TV estatal RTS, vários prédios de repartições públicas, uma delegacia de policia e muitos carros, em protesto contra as manobras de Slobodan Milosevic para tentar manter o poder na Iugoslávia. Muitos dos que enfrentaram o gás lacrimogêneo e as balas de borracha de uma polícia receosa de atacar seus compatriotas – refletindo a tradicional irmandade sérvia – tiveram que se manter acordados a noite inteira, pois vinham de outras regiões da Iugoslávia. Como Pedja K., torneiro mecânico de Kragujevac. A Cruz Vermelha distribuiu pães e pequenos pacotes com comida a esses milhares de corajosos revolucionários que, por culpa das políticas de Milosevic, pouco ou nenhum dinheiro carregavam para se alimentar depois do tenso dia de protestos. Vários restaurantes distribuíram comida de graça, alguns até se aventuraram a abrir a adega à população que comemorava o aparente fim da era Milosevic.

Uma coisa comum a todos os estabelecimentos que vararam a noite participando das comemorações era a TV ligada. Sérvios no meio da madrugada assistindo, boquiabertos, às seis emissoras de TV liberadas em poucas horas, no dia anterior, dos fantoches de Milosevic. Segundo relatam colegas da equipe de Fakta, programa semanal tcheco, espalhados pela Iugoslávia acompanhando a revolução, no interior a população está ainda mais surpresa. Em Belgrado, com ou sem TV-marionete, tem-se acesso a dezenas de publicações underground, rádios-pirata, internet e antenas parabólicas. Nas pequenas cidades e vilarejos, de menor poder aquisitivo e maior controle da policia, Milosevic conseguiu manter sua imagem por anos com a ampla manipulação da mídia. Não é à toa que dos 33% que votaram nele 29% estão em lugarejos.

Milosevic começou a se dedicar exclusivamente à política em 1984, como herdeiro de Ivan Stambolic, chefe do Partido Comunista da Servia. Tornou-se líder do Partido Comunista de Belgrado e foi posicionando aliados em postos-chave na capital, especialmente no controle da mídia. Naqueles primeiros anos conseguiu indicar vários ex-colegas da faculdade de Direito e da companhia de gás que dirigira para cargos importantes nos veículos de comunicação. Não demorou muito até derrubar seu padrinho Stambolic, o qual ele havia enfraquecido em sutil campanha pelas rádios e TVs. Milosevic assumiu a presidência do Partido Comunista da Sérvia e, mais tarde, do país. Posicionou duas centenas de aliados em todos os veículos de mídia.

Limpeza de emergência

Com a onda de desmantelamento da hegemonia estatal na economia, Milosevic teve que engolir o surgimento da mídia independente. Não os atacou diretamente, mas pouco a pouco foi criando meios legais de levá-los à falência. Desesperado com o rumo das eleições de setembro – que se lhe resultaram fatais –, fechou, com pouco embasamento legal, todos os veículos que ousaram diferir da visão oficial dos eventos.

É por isso que a manhã de sexta-feira foi marcante para os amantes da liberdade de imprensa. Dezenas de jornais, rádios e TVs – até sites de internet – antes fiéis ao governo acordaram a população praticando jornalismo sério. Já no dia anterior ao levante que fez arder o parlamento federal um grupo de quase 300 jornalistas entraram em greve e prometeram ajudar os manifestantes na tomada de seus veículos. Na frente da estatal RTS esperavam cerca de 40 deles, de braços abertos. Foram eles que entregaram o presidente da Rádio e Televisão Sérvia às massas enfurecidas. Ele apanhou em frente ao prédio da estação, recebendo socos, pontapés e pauladas até que um grupo de manifestantes moderados resolveu evitar um linchamento.

Na sexta-feira, a Iugoslávia acordou com a imprensa livre. O jornal Politika, que até quinta-feira era controlado pelo governo – e publicava coisas do tipo "Kostunica, que é apoiado por degenerados como homossexuais e feministas (…)" –, amanheceu nas bancas proclamando o oposicionista como o novo presidente e avisando aos leitores: "Voltamos a fazer jornalismo; a propaganda política em nossas páginas é coisa do passado". Durante a madrugada, fizeram uma limpeza de emergência nos quadros da redação. Isso se repetiu em praticamente todos os veículos da Sérvia. Os capangas de Milosevic permanecem no controle em Montenegro e no norte de Kosovo.

Tarefa urgente

Os canais estatais antes controlados pela filha de Milosevic, Marjana (RTS 1, 2 e 3), a Rádio Belgrado, o Canal 1, a TV Programa 202, a Rádio e TV Studio B, TV Politika e seu jornal homônimo, TV BK Telekom, RTV Pink e Kosava, Tv5 Nis, TV Cronic Valjevo, a agência estatal de noticias Tanjug, os diários Vecernje Novosti, Danas, Ekspres, Blic, Glas Javnosti, Vijesti, Pobjeda Dan e Borba mudaram seu staff e passaram a reportar objetivamente. Trouxeram de volta repórteres e técnicos que haviam sido expulsos ou presos por Milosevic e botaram mãos à obra. A Rádio B92, que havia formado a B292 após sua ocupação pelo pessoal de Milosevic, tomou de volta seus transmissores e a antiga freqüência – 92.5 MHz.

Milivoje Calija, um dos editores da rádio –que se celebrizou como bastião de combate à desinformação patrocinada pela mídia governista, e acabou fechada, embora jamais tenham conseguido cortar por completo suas transmissões –, disse que "há muitas incertezas, mas uma coisa é certa: a mídia foi liberada de vez, agora não tem volta".

As novas autoridades ainda têm uma tarefa urgente pela frente: libertar os vários jornalistas presos pelo regime, como Miroslav Filipovic e Zoran Lukovic.

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