Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > TV DE ROEDORES

O jornalismo "filho de uma égua"

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

TV DE ROEDORES

Antônio Lemos Augusto (*)

Na emissora de uma capital do país, o apresentador de um programa imitador de Ratinho chama pessoas de "filho de uma égua" no ar. Em outra emissora, da mesma capital, o apresentador faz longo comentário questionando o que um jovem, que foi espancado por policiais, fazia à noite em um bairro da periferia, como que justificando os atos dos PMs. Não sou daqueles que crucificam programas populares de jornalismo. Mas é preciso diferenciar o que é popular do que é popularesco. O que pensam empresários que conseguem o dom de ter uma emissora de televisão ao entregar programas nas mãos de quem chama o telespectador de "filho de uma égua"? Liberdade de expressão é uma coisa, libertinagem é outra – ditado antigo, mas atual.

Herdeiros do estábulo

Conheci recentemente uma pessoa que foi presa arbitrariamente pela polícia há alguns anos. O filho havia se envolvido tempos antes em crimes. A polícia se julgou no direito de pensar que a criminalidade é hereditária e resolveu prender o pai, sem provas, por outro caso. O cidadão foi algemado em uma cadeira em posição determinada para que tivesse câimbras. Depois, foi encaminhado ao presídio, onde ficou por uma semana ao lado de homicidas. Sabe o que o apresentador do programa popularesco disse em seu comentário? "Família que rouba unida vai presa unida." Repito: o cidadão era honesto, tanto que foi colocado em liberdade por determinação judicial.

Os apresentadores popularescos, os que se julgam em condições de determinar quem é "filho de uma égua" ou não, atuam como juízes, como padres da falsa moral e, não raro, ganham um cargo nos poderes legislativos. O posicionamento que normalmente mantêm em relação a pessoas da periferia não se repete com nomes da classe alta. Há uma forma diferenciada de atuação.

Tais apresentadores normalmente se referem a setores de elite em comentários generalistas, sem apontar o indivíduo. Já em relação ao cidadão periférico eles dão nome e endereço, criticam, julgam e não se retratam em caso de erro. Não dizem nunca que determinado juiz ou delegado é "filho de uma égua", por mais que possam fazer comentários críticos ao Judiciário ou à polícia.

Mas, quanto ao cidadão, a história é outra.

Nunca é demais repetir o Artigo 221, da Constituição Federal do Brasil, citando os incisos I e IV. "A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: Preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; Respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família." Não creio que esteja dentro dos valores éticos, por mais genérica que seja tal expressão, afirmar no ar que o cidadão é "filho de uma égua". Como compete ao Poder Executivo, sob apreciação também do Congresso Nacional, outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de radiodifusão e imagens, de acordo com o Artigo 223 da Constituição Federal, é possível concluir que nosso presidente e nossos parlamentares federais são coniventes e apóiam o falso moralismo que coloca a todos sem conta bancária como herdeiros de eqüinos.

(*) Jornalista em Cuiabá, coordenador do boletim semanal Imprensa Ética; e-mail: <arlaarla@terra.com.br>

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