Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > BÉRÉGOVOY & SALENGRO

O jornalismo pode matar?

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

BÉRÉGOVOY & SALENGRO

Leneide Duarte-Plon, de Paris


A história do jornalismo moderno é a de sua emancipação em relação a todos os poderes e, portanto, de sua afirmação como um poder autônomo, capaz de enfrentar os outros. Mas quem enfrentará o poder dos jornalistas? ? Thomas Ferenczi, jornalista do Le Monde, autor do livro Eles o mataram : o caso Salengro, Editora Plon


A resposta é sim. Uma das provas é o caso Salengro, uma campanha feita na França por dois jornais de direita, Gringoire e L?Action Française, em 1936, contra o então ministro do Interior Roger Salengro. O presidente do Conselho, nome do cargo de primeiro-ministro, era Leon Blum, da Frente Popular (união de partidos de esquerda).

Deprimido pela campanha que misturava denúncia e difamação, Salengro suicida-se em 17 de novembro de 1936. Os jornalistas o acusavam de ter sido desertor durante a Primeira Guerra Mundial. A acusação era falsa. Depois de ter sido condenado à morte por deserção, o ministro fora inocentado em julgamento subseqüente.

Este é um caso exemplar de como a imprensa, pelo poder que detém e, muitas vezes, por precipitação ou movida por paixões políticas, pode condenar um inocente à morte.

Para o jornalista e escritor Thomas Ferenczi, o caso Salengro não é típico na história do jornalismo. Segundo ele, em entrevista ao Observatório da Imprensa em setembro de 2001 [veja remissão abaixo], o caso "foi apenas um episódio num período de grande polêmica, os anos 30". Nessa época, explica Ferenczi, a linguagem dos jornalistas era extremamente violenta, as polêmicas eram muito intensas e a imprensa tinha menos preocupação com equilíbrio, honestidade e imparcialidade. Era uma imprensa muito engajada, inclusive nos excessos que esse engajamento podia significar. Na época, o caso Salengro não foi coberto pela grande imprensa.

Para Ferenczi, o jornalismo investigativo, sobretudo de dez anos para cá, desenvolveu-se muito, os jornalistas aprenderam a investigar e a examinar um caso primeiramente pelo ângulo da informação apurada, antes de se entregarem à polêmica.

"O caso Salengro não era uma história completamente inventada, mas a imprensa de extrema-direita, que divulgou a história, não estava preocupada com a verdade. A imprensa de hoje estaria mais atenta quanto à veracidade das acusações contra Salengro, sobretudo a de que ele havia desertado como soldado na Primeira Guerra Mundial", avalia Ferenczi.

Veneno letal

A imprensa de hoje está mais atenta. Mas há dez anos a imprensa francesa esteve na origem de um outro suicídio de um político. No dia 1? de maio de 1993, o ex-primeiro-ministro Pierre Bérégovoy matou-se com uma bala de revólver na cidade de Nevers, da qual era prefeito e deputado na Assembléia Nacional.

Para marcar os 10 anos do desaparecimento de Bérégovoy um livro foi publicado em maio, na França. Diferentemente do de Ferenczi (Ils l?ont tué: l?affaire Salengro ? Eles o mataram: o caso Salengro), que enfatizava o papel da imprensa no suicídio do ministro Roger Salengro, o livro de Dominique Labarrière (Cet homme a été assassiné: la mort de Bérégovoy ? Este homem foi assassinado: a morte de Bérégovoy) tenta mostrar que a morte de Bérégovoy pode não ter sido um suicídio. Por isso, ele deu como subtítulo "Investigação sobre a investigação".

Labarrière não quer apenas condenar os jornalistas como culpados. Ele quer também mostrar pontos obscuros que, segundo ele, são suspeitos e podem levar a uma dúvida quanto ao suicídio do ex-primeiro ministro de Mitterrand.

A filha de Bérégovoy, Catherine, e seu marido Georges Cottineau deram entrevista ao Le Monde refutando a hipótese de assassinato e declarando que a depressão de Pierre Bérégovoy era "muito grave". Le Monde qualificou as hipóteses de Labarrière de "malucas", veiculadas por um livro para despertar a dúvida. Labarrièrre quer mostrar falhas na investigação e pontos obscuros que poderiam levar à suspeita de assassinato em vez de suicídio.

O livro é fantasioso e não traz prova alguma de um suposto assassinato. Mas trata das razões que podem ter levado Bérégovoy a se matar. Desde sua chegada ao Palácio Matignon, em abril de 1992, a imprensa o chama de "kamikaze do presidente", por assumir o cargo de primeiro-ministro num ano pré-eleitoral em que nada mais poderia fazer para salvar a esquerda da derrota. Ele chega ao posto quando o governo Mitterrand, desgastado por escândalos de toda ordem, já está condenado à futura coabitação com um governo de direita, que seria dirigido por Edouard Balladur.

Como parte da verdadeira guerra travada contra Mitterrand na imprensa, o jornal Le Canard Enchaîné deu com destaque, na edição de 3 de fevereiro de 1993, a notícia de um empréstimo feito por Bérégovoy a um amigo de Mitterrand, Roger-Patrice Pelat, rico homem de negócios um tanto obscuros. O dinheiro destinava-se à compra de um modesto apartamento, mas a notícia e as matérias que se seguiram conseguiram envenenar um homem íntegro, saído da militância sindicalista e não da burguesia, origem dos políticos influentes na França.

Políticos e "politichiens"

O empréstimo de Bérégovoy estava dentro da total legalidade, com documento em cartório, como convém a um homem considerado honesto mesmo pelos adversários.

Juízes que tinham interesse em ver Mitterrand perder as eleições e jornalistas usados para veicular "vazamentos" fizeram o papel de carrascos de Bérégovoy. Na realidade, o governo Mitterrand estava afundado até o pescoço de denúncias de negociatas e escândalos.

A frase entre aspas que dá nome ao livro de Labarrière ? "Cet homme a été assassiné" ? foi dita por François Mitterrand, numa referência ao empenho da imprensa e de políticos em destruir o ex-primeiro-ministro. No discurso que fez nos funerais de Bérégovoy, Mitterrand se referiu aos "cães" a quem "foram jogadas a honra e a vida de um homem".

Os jornalistas se reconheceram nos "cães" de que falou o presidente. E não gostaram. Mas ele poderia também estar pensando nos políticos que abandonaram Bérégovoy, um tipo de gente a quem o presidente De Gaulle costumava chamar de "politichiens". Mitterrand poderia estar pensando, ainda, nos juízes que conheciam as entranhas dos processos de escândalos do seu governo e que sutilmente faziam chegar os detalhes desses processos aos jornalistas.

Na noite da morte de Bérégovoy, um procurador declarou na televisão : "Se eu fosse juiz ou jornalista, não dormiria bem esta noite".

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