Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ÚLTIMAS DO DENUNCISMO II

O jornalismo sou eu, a mosca azul em ação

Por Alberto Dines em 20/06/1997 na edição 24

São três os fatores que agravam o atual surto denuncista e convertem um esforço sadio de investigação numa disfunção viciosa.

* Percussão e “repercutismo” – utilização abusiva de artifícios extra-reporterísticos, de edição e de marketing, para engrossar os efeitos da revelação de um escândalo. Infográficos simplistas, indevidamente lastreados, e sondagens de opinião pública induzidas são alguns dos recursos que podem converter qualquer suspeita, fundada ou infundada, em representação cabal e literal da verdade. Os Outros, os concorrentes, estão comprometidos com o que há de pior, logo, vale tudo.

* Politização da reportagem – tentativa de validar a denúncia através de pressupostos ideológicos que orientam e encaminham os desdobramentos do trabalho jornalístico impondo-lhe um rumo apriorístico e, portanto, preconceituoso. Como escândalos dizem respeito a questões morais, justificam-se todos os procedimentos, legítimos ou ilegítimos. Nossa causa é justa, logo, vale tudo.

* Vedetismo pessoal, emulação combinada dos efeitos Watergate e Adriana Galisteu – amparado no clima empresarial acima descrito, surge agora um terceiro fator, a vaidade exacerbada, a angústia da notoriedade, a contaminação dos celebradores, imperiosamente discretos e céticos, pelo vírus da celebridade. O próximo prêmio ninguém tasca, é meu, esgoelam-se os novos Woodwards e Bernsteins, logo, vale tudo.

A mosca azul desenvolve-se e prolifera nas ribaltas, nos pódios e picadeiros. Jornalistas (inclusive os de televisão e rádio), porque lidam com a fama e a glorificação, devem estar vacinados contra os seus danos para manter-se dentro do “espírito dos bastidores”. Infectados pelo infame inseto, perdem o equilíbrio, o distanciamento crítico e o imprescindível ceticismo, uma das ferramentas essenciais do profissional amadurecido.

Preservar-se dos holofotes evita o ofuscamento e, como estamos testemunhando, evita acidentes – a apropriação de feitos alheios é um deles.

Fernando Rodrigues, o repórter da Folha que desvendou a compra de votos na Câmara Federal, foi impecável na fleugma e ceticismo, manifestados tanto nas entrevistas como nos seus comentários da página editorial.

Rogério Pacheco Jordão, do Jornal da Tarde, o primeiro a denunciar irregularidades na emissão de títulos públicos na Prefeitura de São Paulo, teve a noção dos limites do trabalho jornalístico e, se apareceu sucessivas vezes neste OBSERVATÓRIO, foi por convocação, justamente pela discrição adotada e pelo patrulhamento a que foi submetido por alguns pares.

Quem confia no seu talento e na lisura dos seus procedimentos não se deixa inebriar nem perde a compostura para valorizar-se. Isto fragiliza os méritos pessoais e afeta a credibilidade do sistema – a mídia -, que, longe de colocar-se como um serviço público acima de qualquer suspeita, acaba por revelar-se tão mesquinho e duvidoso quanto aquele que movimenta a concorrência entre quitandas ou dentifrícios.

Aqui, nos remetemos à afirmação da edição de 20 de maio deste OBSERVATÓRIO “As denúncias da Folha: repórter versus edição – com achegas sobre a perigosa tentação de politizar a reportagem, quando afirmamos – todo respeito ao jornalista e todo ceticismo aos jornais.

Não pode ser diferente: se as empresas jornalísticas são as responsáveis pelos padrões com que se exerce o jornalismo e se este foi protegido na Constituição com uma série de prerrogativas, é indispensável que a Sociedade, que as outorgou, esteja permanentemente alerta para o seu desempenho.

O ceticismo, para quem não sabe, é um dos caminhos para chegar ao Conhecimento, uma das formas de buscar a verdade. O ceticismo não é sinônimo de omissão, ao contrário, é prova de inconformismo e diligência.

Este ceticismo funcional fundamenta e valida o media-watching e sobre ele montamos a plataforma conceitual que norteou a criação deste OBSERVATÓRIO.

O jornalismo investigativo não pode converter-se numa obsessão por escândalos. Também não pode restringir-se aos temas ditos “magnos”, aqueles que produzem CPIs ou derrubam presidentes. Isto, sim, é uma escandalosa interpretação minimalista da função social da mídia.

Prova desta exacerbação denuncista está no fato de que o chamado “Escândalo do PT” provocou até agora pelo menos três punições graves – foi demitido o Editor de Política do Estadão e afastados dois editores da edição regional da Folha (estes porque não deram a devida atenção às sucessivas matérias do Diário do Povo de Campinas).

Um sistema mediático baseado no mix de trivialidades e espasmos denunciatórios que, apesar da competição selvagem, funciona com a coesão de um oligopólio, deve ser acompanhado com ceticismo permanente e generalizado.

Por esta razão desagradamos à esquerda, à direita e àqueles cujo olhar crítico, segmentado e maniqueísta, está a serviço das respectivas paixões e paranóias.

A mosca azul é arcaica, vem do absolutismo em que pontificavam a Empresa-Sol, a noção de Jornalismo Sou Eu, a arrogância do Depois De Mim, o Dilúvio. Espécie em extinção – a mosca azul não resiste ao ceticismo.

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