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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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O jornalista e o vinho

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

REDE GLOBO E ELEIÇÕES

Gilson Caroni Filho (*)

Tristes são os tempos em que o registro de evidências é tomado como delírio fundamentalista em defesa de um suposto líder supremo. Deplorável quando esse tipo de exegese parte de alguém que, ao menos por dever de ofício, deveria ler atentamente o que pretende retrucar como falácia.

O artigo de Nilson Lage ["Ora, direis, vendo fantasmas"],
publicado na edição passada deste Observatório,
tenta desqualificar meu texto sobre o comportamento da Globo na
cobertura das eleições [ver remissão abaixo].
Busca atribuir a ele uma natureza conspiratória que só
aparenta existir quando trechos são pinçados objetivando
descontextualizar a argumentação central: a de que
a TV Globo, ao contrário do que andavam apregoando seus entusiastas,
tomou partido claramente da candidatura governista. E o fez, a partir
do segundo turno, explicitamente. Até quinta-feira da semana
retrasada, a cobertura da emissora favoreceu claramente José
Serra.

Talvez um pequeno exemplo sirva para refrescar a memória do professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Diz a boa regra jornalística que os dois lados devem ser ouvidos quando estabelecida uma polêmica. Pois bem, bastou o candidato de oposição criticar a política de juros da equipe econômica para o céu desabar no Jornal Nacional. Imediatamente se pronunciaram o porta-voz da presidência da República, o ministro Pedro Malan e a assessoria do candidato governista. É bem verdade que abriram espaço para Aloísio Mercadante ou José Dirceu ? os dois juntos, jamais. A essa bela assimetria, Nilson Lage deve chamar de "bom jornalismo". Bem como dar destaque aos discursos de Serra em diversos palanques e mostrar apenas a movimentação do candidato petista, ocultando sua fala para as multidões. Ou será que Lula não falou? Belo jornalismo, senhor Lage.

Interessante notar-se o realismo cínico de boa parte da imprensa ante a campanha terrorista do candidato tucano. Colunistas e articulistas, com raríssimas exceções, coonestaram a orquestração do medo como legítima "estratégia de comunicação". Dissociaram o conteúdo do contexto e a indignação esperada de "zelosos fiscais da lisura ética" cedeu espaço a considerações de natureza meramente tática. Muito se leu quanto à falta de opções de José Serra. Era o "matar ou morrer" visto como intrínseco a qualquer disputa política. Essa banalização do terror decerto será vista pelo professor como mais um exemplo de bom jornalismo. Embora, como destaca em sua tentativa de artigo, ele jamais poria as mãos no fogo por quem o produziu.

O certo é que as linhas do professor Nílson Lage são quase irrespondíveis. Não pela força de sua argumentação, mas, ao contrário, pela inexistência de argumentos, pela indigência de um texto que prima pela ausência de criticidade e, pasmem, carece até de encadeamento lógico. Como não se costuma gastar boa cera com mau defunto, a réplica se dará sob a forma de tópicos, tal como o fez o "velho jornalista de orelhas em pé".

a) Quando citei o episódio de Lula saindo de um banheiro público, enquanto Serra era mostrado fazendo discurso de estadista, tive a honestidade intelectual de não só mostrar que o detalhe havia sido registrado por Bernardo Kucinski, como reproduzi dois parágrafos de seu texto. Seria bom que todos os relessem, antes de um eventual endosso ao que se quer configurar como cobertura "quase justificável, em termos jornalísticos". Interessante esse procedimento de pinçar trechos para distorcer o conteúdo de um artigo. Belo jornalismo, senhor Nilson Lage.

b) Concessão do horário a Leonel Brizola. Releiamos o que foi escrito no artigo: "Trata-se, obviamente, de mera suposição, mas descartá-la pode não fazer justiça ao amplo leque de artifícios dos senhores de Jacarepaguá". O que, na acepção pobre do termo, seria maquiavelismo? Trabalhar com a possibilidade de uso negativo da imagem pedetista ou suprimir um trecho que destaca que essa não é uma afirmação categórica? Por mera curiosidade, o senhor Lage se recorda de outro momento em que o ex-governador do Rio tenha obtido tanto destaque na emissora?

c) Diz o texto do conceituado professor que uma das manobras atribuídas à Globo foi a de "incluir (naturalmente convencendo os entrevistados) ?condicionalidades? ? isto é, o estabelecimento de condições ? de políticos e religiosos considerados mais à direita para o apoio a Lula". Não, professor. Isso é leitura em diagonal. Coisa que senhor não deve permitir que seus alunos façam. Foi mostrado como o apoio de Ciro, entre outros, era apresentado claudicante no Jornal Nacional e contundente no Jornal da Globo. Já os apoios a Serra foram categóricos. Isso é mero registro? Procurar fugir de uma leitura meramente denotativa é embicar em "análise semiológica"?

d) O professor afirma que viram-se "conspiratas" quando a Globo veiculava informações verdadeiras sobre a "tensão no mercado de câmbio". Quer dizer que, engrossando o coro dos analistas financeiros, atribuir a variação cambial à liderança de Lula nas campanhas é axiomático? Professor, o senhor deveria ler um livrinho ótimo: Ideologia e técnica da notícia. Fico lhe devendo o nome do autor, mas, decerto, alguém do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina deve dispor de um exemplar.

e) Registrar manifestações contra Hugo Chávez com imagens distribuídas pelas agências de notícias seria apenas um procedimento jornalístico sem nenhuma relação com o momento eleitoral. Não registrar as favoráveis ao presidente venezuelano seria o quê? Um belo exemplo de jornalismo?

f) Quanto ao caríssimo vinho, não houve qualquer menção ao episódio, o que não o impediu de afirmar que "se dependesse de analistas como esse, o eventual governo Lula incluiria censura total de informações, já que qualquer coisa que se diga, mesmo que verdadeira e relevante, pode ser interpretada no contexto, como algo contra o líder supremo, dotado de virtudes que nem sequer faz xixi; não aprecia vinhos finos; não cultiva amizades que desagradem à direita americana ou conversas com pessoas abominadas pela corte". Professor, as inferências são suas. Mas o que tem a ver o texto com amizades que desagradem à direita americana é um mistério que só se pode atribuir ao delírio de alguém à procura de argumentos. Tenha a certeza de que, quando o senhor estiver lendo este texto, Lula já terá sido eleito presidente da República. E não tenha dúvida de que o exercício de seu mandato não comportará censura total de informações. Pelo contrário, estaremos forjando novos espaços, públicos ou privados, para a democratização da imprensa.

Pois bem, professor, pode-se concluir que, se dependesse de leituras como a sua, o aluno de Jornalismo deveria chafurdar no senso-comum. No "humor esperto" da redação e na tentativa grotesca de desqualificar o que lhe incomoda. Se a cena do banheiro, a seu juízo, pode ter ajudado Lula na medida em que o desnudou da estampa marqueteira, o tornando mais humano, fico perplexo: quem haveria de imaginar que bexiga cheia gera identificação? Uma retenção urinária poderia pôr tudo a perder, não é mesmo?

É, caro professor. O senhor se diz um velho jornalista e fala das virtudes de apreciar um vinho fino. Mas, a julgar pelo texto produzido no Observatório e o livro publicado no passado, o envelhecimento de alguns jornalistas tem conseqüências diametralmente opostas às produzidas nas boas safras vinícolas. Não voltarei ao tema. Não haverá resposta a qualquer tréplica. Não haverá duelo num espaço que deve ser ocupado por questões mais substantivas.

(*) Professor-titular da Facha, Rio de Janeiro

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