Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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O lado de cima

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

CAIXOTINS

Carlos Brickmann (*)

O presidente Lula, acompanhado por um batalhão de ministros, fez o balanço de fim de ano. Cumpriu seu papel: disse que, graças a seu governo, o país está ótimo. Os ministros cumpriram seu papel: elogiaram o governo ao qual pertencem. Empresários e sindicalistas cumpriram seu papel: comentaram, favoravelmente ou não, o balanço do governo.

A imprensa registrou as declarações do presidente, registrou as declarações dos ministros, registrou as declarações dos empresários e sindicalistas. E não cumpriu seu papel: cadê a análise detalhada e isenta dos fatos que o presidente da República citou?

Nossa imprensa tem dois vícios principais: o primeiro é deixar que o governo faça a sua pauta (ver nota seguinte). O segundo é limitar-se ao declaracionismo: ouve um lado, ouve outro, ouve um terceiro, quando é o caso, publica as declarações e declara encerrado seu trabalho.

Não é assim: quando Sua Excelência diz que no ano que vem o país vai crescer, suas previsões têm base? O notável crescimento que anuncia será assim tão notável? E como está de verdade a economia do país: pronta para enfrentar uma crise externa? Se isso não é feito, reduz-se o repórter ao papel de suporte de gravador: só serve para registrar discursos.

 

A grande estrela do programa de televisão do PT foi o maior empresário de supermercados do Brasil, Abílio Diniz. Ele garantiu que o país vai indo magnificamente bem.

Poucos dias depois, a Associação Brasileira de Supermercados informa que as vendas caíram 4,23%; para os supermercados, 2003 foi o pior ano desde 1994.

Este colunista não viu o programa do PT: leu aquilo que a imprensa noticiou. E leu também o que a imprensa noticiou a respeito da Associação Brasileira de Supermercados. Quem tem razão? O país vai bem ou não? Se é para saber que um disse e o outro disse, para que repórteres?

Peguem os jornais. Nos tempos de Mário Henrique Simonsen, as editorias de Economia dos jornais não paravam de falar em base monetária. Hoje falam em superávit primário. Nos tempos de Delfim Netto, falavam no milagre do desenvolvimento (ou, no caso da imprensa oposicionista, denunciava como falso o milagre do desenvolvimento).

Se a base monetária era tão importante nos tempos de Simonsen, por que a imprensa não trata hoje do assunto? Simples: porque na época quem pautava a imprensa era Simonsen. Na época, não se falava em superávit primário, porque Simonsen não pautava superávit primário.

Veja, não é uma questão de desonestidade: os repórteres não são corrompidos pela autoridade de plantão. Mas são pautados por ela ? e não é só na economia: é nas cidades, é no esporte, é no trabalhismo. O governo federal dita a agenda, a imprensa o acompanha. Muda o governo, muda a agenda, muda a imprensa.

Para quem quer ser o quarto poder, não é uma aceitação excessiva da posição de inferioridade?

A gente adora futebol, né? A gente lê com avidez o noticiário esportivo. Alguém aí, responda rápido: por que o Corinthians, que no início deste ano tinha dinheiro para manter uma grande equipe, no segundo semestre já não tinha dinheiro nem para contratar um técnico de fama?

Alguma coisa aconteceu, imagina-se. Mas este colunista, leitor diário das colunas esportivas, não sabe por que o Corinthians ficou sem dinheiro.

** Na editoria de Economia: “Banco compra rede de lojas (…) e o quadro de funcionários”.

** Na editoria de Polícia: “O carro foi encontrado num terreno baldio totalmente destruído pelo fogo”. Errado não está, a rigor; e, ao contrário da frase de cima, não indica o retorno da escravidão ao país. Mas dá duplo sentido ? e como é que se destrói um terreno baldio pelo fogo?

** Na Editoria de Informática: “(xxx) divulga cremes para pentear na internet”. Internet tem de tudo, caro leitor. Mas este colunista jamais imaginaria que internet tem cabelo.

Internet tem de tudo: é, ao mesmo tempo, utilíssima para pesquisa e excelente para divulgar bobagens em tempo real. Já foi usada para dizer que determinado refrigerante provocava doenças; já foi usada para informar que os americanos lançavam ratos de pára-quedas sobre o Iraque para destruir as plantações.

Imagine a cena: os ratos do 105? Batalhão Roedor Aerotransportado saltando de pára-quedas, retirando os pára-quedas, escondendo-os, e finalmente saindo para sua missão destrutiva ? tendo o cuidado, naturalmente, de não atravessar a fronteira da Turquia, para não atingir um país amigo dos Estados Unidos.

A mentira pela internet é durável, cíclica, inesgotável: vai e volta, e sempre há alguém que vá difundi-la mais uma vez. Pior é quando a mentira consegue seduzir jornalistas. A história de um filho de juiz que conseguiu uma excelente vaga sem concurso era verdadeira e escandalosa; na internet, o filho do juiz virou também um dos assassinos do índio pataxó Galdino, como se o escândalo verdadeiro não fosse suficiente. E acabou saindo na imprensa.

Saiu na imprensa, também, a história do suposto livro escolar americano que apresentaria o mapa do Brasil sem a Amazônia. A notícia é falsa, foi desmentida “n” vezes, retorna de vez em quando. Mas em jornal não pode.

E como impedir que essas mentiras sejam veiculadas em jornal, rádio, TV ou revista? Trabalhando, gente. Se o jornalista não se limitar a copiar a internet, mas checar a veracidade dos fatos, não cairá no logro; e continuará tendo uma excelente matéria, só que de desmentido, não de confirmação.

Parece-me uma boa troca.

(*) Jornalista, e-mail <carlos@brickmann.com.br>

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