Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

O "livro vingador" de Percival

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

CASO TIM LOPES

Narcoditadura, o caso Tim Lopes, crime organizado e jornalismo investigativo no Brasil, de Percival de Souza, Labortexto Editorial, São Paulo, 2002, pp. 272. Preço: R$ 35.

Luiz Egypto

Se o jornalista não deve nunca perder a capacidade de indignação, o repórter Percival de Souza indignou-se duplamente: com o assassinato do amigo Tim Lopes, ocorrido em junho, na Favela da Grota, no Rio, e com a cobertura da mídia nos dias e semanas seguintes ao episódio. "Não fiquei satisfeito com o que li respeito do caso", diz Percival. E dessa insatisfação nasceu o livro Narcoditadura, recém-chegado às livrarias, que traz o subtítulo "O caso Tim Lopes, crime organizado e jornalismo investigativo no Brasil".

Ainda ruminando a perda do amigo, dois fatos subseqüentes potencializaram a indignação do repórter. O primeiro, ao tomar conhecimento do sufoco por que passou um colega americano, vindo de Nova York, que no Rio decidiu participar de um "favela tour" na Rocinha, zona sul da cidade. A certa altura do trajeto, achou que poderia fotografar uma cena local utilizando-se de um flash. Ao espocar da luz, um jovem armado de fuzil apareceu do nada e ameaçou o jornalista, aos berros: "Pára com isso, aqui é área do tráfico, é área do tráfico!" O americano perdeu o filme e a câmera antes de ser liberado, trêmulo, para voltar ao hotel e contar sua história. Percival relembra: "Fiquei furioso. Quer dizer que agora só podemos ir aonde o traficante deixar?"

O segundo fato deu-se quando jornalistas do Rio pretenderam realizar um ato em homenagem a Tim Lopes no alto do Morro do Alemão, no local onde o repórter da Rede Globo foi seviciado e morto. Proibida pelo tráfico, a manifestação foi transferida para a Igreja da Penha. "Eu era amigo dele e toda essa história me transtornou muito", diz Percival. Foi quando decidiu partir para o trabalho. "Um livro como esse não seria feito em menos de dois anos. Mas a vontade de fazer foi maior do que as limitações. Escrevi com a alma e com o coração." Apurou as informações até o final de agosto e em 1? de setembro começou a escrever. Trancou-se em casa por 45 dias e de lá saiu com o texto pronto para a editora.

Narcoditadura reconstitui a história do assassinato de Tim Lopes com um pano de fundo tecido por fios condutores que levam ao tráfico e ao crime organizado; no permeio da narrativa, uma discussão sobre o jornalismo investigativo e seus riscos. "O trabalho do repórter investigativo é muito solitário, só ele é capaz de avaliar os riscos que corre e não tem como dividi-los com ninguém", diz Percival, ainda incomodado sobre o que leu a propósito da "proteção" que teria faltado a Tim Lopes.

O aço da morte

Baseado em São Paulo, na fase de apuração Percival foi várias vezes ao Rio. "Além de conhecer o local onde se deu o crime, eu precisava entender muitas coisas. Como, por exemplo, o fato de Elias Maluco [mentor e executor do assassinato de Tim] ter ficado preso por quatro anos e, por meio de um habeas corpus, ganhado a liberdade. Isso mostra o poder dos traficantes, o alcance do crime organizado, as mazelas de um Judiciário irresponsável e o papel desempenhado por advogados tão bandidos quanto os bandidos." (Elias Maluco foi solto porque, na fase de instrução de um processo de seqüestro do qual era réu, os procedimentos foram procrastinados ostensivamente a ponto de a sentença não ser proferida. Depois de quatro anos sem condenação, não foi difícil aos seus advogados conseguir o habeas corpus.)

Os jornalistas, segundo Percival, também protagonizaram cenas no mínimo heterodoxas nos atos seguintes ao crime. Como o fato, relatado no livro, de, no calor da comoção, o jornal O Globo ter colocado um colete à prova de balas à disposição de seus jornalistas que se sentissem ameaçados na cobertura da cidade. "Os jornalistas ficavam olhando aquele colete na redação… uma cena constrangedora", diz.

Para ir ao local por onde transitava e foi capturado Tim Lopes, Percival subiu clandestinamente o Morro do Alemão a bordo de uma caminhonete de entrega de produtos diversos para os botecos locais. O veículo tinha uma caçamba com janelas de vidro fumê. Como era um carro conhecido na área, não tinha problemas em circular. "Só contei isso para minha mulher no mês passado", confessa. Primeiro, o repórter apenas observou. Depois de diversas caronas, chegou o dia em que Percival finalmente desceu no ponto final do trajeto, perto do local onde fica a gruta denominada "microondas" pelos traficantes. Ali eram queimados os corpos das vítimas das gangues.

"Foi um choque. Minha primeira reação foi um choro convulsivo. Você vai caminhando pelo lugar e percebendo as coisas lentamente. O que me chamou a atenção foram os muitos aros metálicos espalhados pelo chão. O que era aquilo? Eram cintas de aço, a parte do pneu que não se queima. Cada cinta daquelas era uma morte", lembra, referindo-se à prática dos bandidos de incinerar os corpos das vítimas embalados em pneus velhos.

História escondida

Pouca gente lembra que o prenome de Tim Lopes é Arcanjo ? uma figura bíblica que, na hierarquia dos anjos, tem função de anunciar a vontade divina, mostrar caminhos, amparar pessoas. "Foi exatamente o que ele foi fazer lá", diz Percival. "As pessoas do morro pediram ajuda e ele foi investigar."

"Um dia, no Rio, depois de uma gravação do programa N de Notícia, do qual participamos, tive uma longa conversa com ele sem saber que aquele seria nosso último encontro. Falamos sobre nosso trabalho e a mim me pareceu que o Arcanjo também precisava de um confessionário… Lembramos de matérias e de grandes assuntos que clamam por um repórter disposto a apurá-los. Conversamos sobre uma característica típica de nossa geração, que é perseguir a notícia com obstinação. Hoje, é a notícia que corre atrás de muitos jornalistas. Temos grandes pautas e poucos repórteres para realizá-las."

Assuntos não faltam. Mas investigar dá trabalho e, como norma, tem sido mais conveniente e econômico apurar por telefone, sem sair da redação. "Jornalistas acham muito chato examinar documentos", diz Percival, para logo arrematar com um exemplo eloqüente: "Ninguém se deu ao trabalho de publicar as informações disponíveis no documento que embasou o pedido de intervenção federal no Espírito Santo, estado dominado pelo crime organizado." O delegado que comandou a investigação hoje vive escondido em Brasília, abrigado pelo programa de proteção a testemunhas. "Ninguém contou essa história, mas ela está no livro."

Vingança impressa

Narcoditadura traz informações inéditas sobre o caso Tim Lopes, como a descrição do conteúdo das fitas que ele conseguiu gravar no morro, jamais divulgadas na TV. Como o repórter conseguiu isso? "Por declarações em off obtidas nas redações. Off nas redações! Não é incrível isso?".

Escolado em anos de janela, e por ter cursado a melhor escola de jornalismo de todos os tempos ? a reportagem policial ?, Percival compara a violência disseminada pelo tráfico e suas organizações criminosas aos momentos mais sangrentos da ditadura militar. "Nos governos militares lamentamos e denunciamos a tortura, mas de nada adiantou: a tortura ainda existe agora, em escala muito pior, sob o comando do narcotráfico."

Narcoditadura ? Caso Tim Lopes, crime organizado e o jornalismo investigativo no Brasil chegou às livrarias sem lançamento anunciado nem sessões de autógrafos.

? Por quê?

"O tema do livro não comporta celebrações desse tipo."

? A que servirá o seu livro?

"Parafraseando Euclides da Cunha, este é meu livro vingador. Nesses novos tempos que o país respira, espero que seja uma contribuição para que essa calamidade tenha um fim."

(Euclides acompanhou a quarta expedição militar a Canudos com o Estado-Maior da operação. Ali presenciou histórias e situações absurdas que revelou cinco anos depois, em 1902, quando lançou Os Sertões. "É um livro vingador", dizia.)

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