Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > FICÇÃO

O maior espetáculo da terra

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

FICÇÃO

Luiz Gonzaga Motta (*), de Barcelona

Uma civilização extra-terrestre muito avançada fez contato conosco e anunciou que para fazer parte da sociedade inter-planetária, os moradores do planeta Terra teriam de enviar alguma coisa que representasse o estado civilizatório em que nos encontrávamos. Depois de examinar cuidadosamente a amostra que enviássemos, um conselho de nobres inter-planetários diria se nós estaríamos ou não em um estágio de desenvolvimento que nos permitisse integrar a sofisticada Sociedade Estelar Universal. Teríamos um mês para decidir o que enviar.

Na Terra, armou-se logo uma grande confusão. Para resolver a questão, a ONU convocou uma Assembléia Geral, à qual compareceram todos os chefes de nações. Simultaneamente, resolveu-se convocar um conselho de sábios e cientistas mais ilustres, um segundo conselho formado pelos chefes religiosos de todo o mundo e um outro conselho com os artistas mais famosos. A tarefa de todos era escolher o que enviar ao moradores de outras galáxias. Teria de ser algo absolutamente especial, pois se agradasse aos outros povos , nós seríamos admitidos no seio das sofisticadas civilizações interplanetárias.

Na assembléia da ONU, a discussão entre os políticos não avançava, como sempre. O presidente George Bush queria enviar uma réplica da Casa Branca e uma bandeira americana e não abria mão nem arredava o pé. Giscard d"Estaign preferia a réplica da Torre Eiffel. Se fosse enviada uma réplica, a China queria mandar uma das muralhas chinesas, em tamanho original. Sharon suspeitava que esta história de civilização inter-galática era armação de Iaser Arafat e se negava a conversar com qualquer representante árabe. Em véspera de eleição, Fernando Henrique defendia a entrega de uma cópia do plano piloto de Brasília, entregue em mãos pelo José Serra, mas o PT ameaçava entrar na justiça com uma ação contra o abuso de poder. Os argentinos ainda não tinham enviado representante porque ninguém sabia quem era o presidente naquela semana. Fidel Castro queria que os inter-galáticos assinassem antes um termo de compromisso eterno com o socialismo. O tempo passava e ninguém se entendia.

Nos conselhos de sábios, tampouco as decisões avançavam. Os físicos defendiam enviar as famosas fórmulas de Einstein. Os matemáticos preferiam enviar chips avançadíssimos, de última geração. Os botânicos reivindicavam mandar flores originais de florestas tropicais, com evidentes protestos dos ecologistas. Os geneticistas achavam que uma ovelha clonada impressionaria mais. Já os médicos garantiram que podiam congelar e enviar um coração pulsante de algum doador desconhecido. Aquele médico italiano da clonagem humana queria ir pessoalmente, parar clonar um extra-terrrestre escondido e trazer um de volta, para replicar aqui. Houve quem defendesse mandar um telefone celular, outros achavam que um aparelho de TV impressionaria mais, havia até quem defendesse um vídeo-clipe do Michael Jackson. E assim prosseguiam as discussões, sem definição.

Surpreendia ver como brigavam os religiosos. Um aiatolá berrava em árabe, que poucos entendiam, ameaçando ligar para Bin Laden explodir o Big Ben se não fosse enviado uma cópia do alcorão. O papa, com as mãos e a cabeça trêmula, tentava de todas maneiras ser entendido, cada hora falava num idioma, mas ninguém concordava pois ele queria mandar um simples terço com um santinho de Nossa Senhora de Fátima para a civilização espacial, ora veja, todos achavam que o pobre João Paulo II estava caducando. Os evangélicos garantiam poder convencer os inter-galáticos a não só aceitar-nos na sociedade espacial como também convertê-los à Igreja Universal do Reino de Deus, se lhes fosse permitido passar uma semana por lá, pregando. Muita gente, na assembléia, estava quase se convertendo também.

Os artistas ainda não tinham começado a sua reunião. Em cada país, ainda brigavam para ver quem seriam os representantes nacionais no conselho. Nos Estados Unidos, disputavam palmo a palmo em grandes convenções coloridas a Madona e Britney Spears, embora Schwarzeneger corresse por fora com socos e cotoveladas, como azarão, com boas chances de vencer. No Brasil, Sergio Malandro e Xuxa batiam boca, mas a tendência era enviar Leandro e Leonardo, preferidos da grande multidão. Os franceses mandaram o seu ministro da cultura, que levara um CD remixado de Edit Piaff, certo que ganharia a disputa. Sorrateiramente, Silvio Berlusconi conseguiu enviar ao conselho dos artistas um diretor comercial de sua TV, com a missão de comprar os direitos de transmissão do ato da entrega, mas a TV Globo havia descoberto e denunciado a trama, com o apoio da CBS, enquanto a BBC não se decidia. Aproveitando que fora ouvida, a TV Globo defendeu mandar para o espaço trechos intimistas do carnaval carioca, um compacto da última copa do mundo com os gols de Ronaldo, ou os 9.893 capítulos de sua última novela, na íntegra. Enfim, ninguém se entendia.

Desanimados, os organizadores das reuniões achavam que não haveria consenso, o jeito era esperar novo contato daqui a alguns séculos. Sentados no chão nos corredores do prédio da ONU em Nova York, olhavam uns pros outros sem saber como proceder. A situação ficou ainda pior quando, num ato demagógico, Tony Blair achou que todo mundo deveria se reunir no mesmo ambiente, para ser mais democrático. Juntaram-se todos, políticos, cientistas, religiosos e artistas no salão nobre da ONU, gente por todos os lados, cada um falando um idioma diferente, a maior confusão, ninguém se entendendo. Se antes já não havia consenso, agora ficava ainda pior.

Foi aí que, ninguém sabe como, apareceu no meio da grande roda das eminências mundiais um pequeno grupo de crianças que brincavam distraídas com quebra-cabeças. Deviam ser filhos de funcionários, que não conseguiram baby-sitter naquele dia. Quando se deram conta da presença das crianças, por um instante, fez-se um grande silencio de surpresa. No vazio, o representante do Reino do Butão perguntou às crianças quem, ou o quê, elas mandariam para a civilização inter-galática. As crianças voltaram-se sem muito interesse para as pessoas que esperavam e responderam conjuntamente: o Cirque du Soleil, voltando-se novamente para o seu brinquedo.

As eminências internacionais se entreolharam sem dizer palavra e na mesma hora concordaram todos, perplexos com a unanimidade. No dia seguinte, com todo os seus artistas, o grupo seguiu para o espaço numa linda nave luxuosa (que por acaso, se chamava Geni) enviada pela civilização avançada para buscar o que a Terra tinha para mostrar às sociedades inter-galáticas, como demonstração de sua civilização. Dois dias depois voltou: estávamos admitidos na Sociedade Estelar Universal. Mas, espertos, os intergaláticos impuseram uma condição: daquele dia em diante, ficava proibido o mau-gosto na programação das emissoras de televisão da Terra!

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