Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > NOTAS DE UM LEITOR

O melhor crítico de mídia da América

Por Luiz Weis em 30/12/2003 na edição 257

NOTAS DE UM LEITOR
O melhor crítico de mídia da América

Luiz Weis

Quando aceitou o convite para escrever duas vezes por semana na página de Opinião do New York Times, em fins de 1999, o acadêmico Paul Krugman, brilhante professor de economia na Universidade de Princeton, mas sem nenhuma familiaridade com o jornalismo, muito menos com o jornalismo diário, pretendia comentar a globalização, os problemas financeiros internacionais e, de vez em quando, como viria a admitir, os "vagares" da economia americana.

O que ele acabou fazendo, na realidade, foi algo muitíssimo diferente e excepcional. Excepcional no sentido de incomum e no sentido de admirável. Incomum porque raras vezes se há de ter visto, entre os ocupantes dos espaços que a imprensa reserva ao colunismo, em qualquer país, tamanha metamorfose na produção de um comentarista. E incomum pela qualidade, a contundência e a coragem dos comentários.

De coluna em coluna, Paul Krugman se transformou no mais robusto e bem-fundamentado crítico da política econômica do governo Bush; depois, no mais duro crítico do governo Bush em geral, começando por denunciar o seu acasalamento com os interesses do grande capital e terminando por mostrar os nexos entre a economia e a militarização da política externa dos Estados Unidos, que culminou com a invasão do Iraque, a primeira grande agressão ao direito internacional do novo século.

De coluna em coluna, o economista que até então era apenas mais um leitor de elite de jornais e revistas se converteu também em crítico praticante ? e nada menos que o melhor ? da mídia americana na atualidade.

Mentiras e mentirosos

Se outros motivos não existissem, só por isso nenhum jornalista que valha o seu sal, nos Estados Unidos ou seja onde for, pode dispensar a leitura dos seus textos. No Brasil, saem na página 2 do caderno de Economia do Estado de S.Paulo. (De vez em quando, o jornal não os publica.)

Quando o jornal começou a transcrevê-lo, aquela era a página natural para isso, ocupada pela colunista Sonia Racy, pelo comentarista Joelmir Betting (substituído há pouco por Celso Ming), por artigos de economistas brasileiros e, no rodapé, por um editorialete ? econômico, é claro.

Mas faz tempo que praticamente a única relação de Krugman com um caderno de economia é o fato de ele ser economista. O Estadão prestaria um serviço aos seus leitores se lhe desse mais visibilidade, passando a publicá-lo, como faz o Times, na página vizinha à dos editoriais, a Op-Ed, no jargão da imprensa de língua inglesa.

É uma tentação escrever sobre o Krugman crítico de Bush, embora o que mais aqui interessa é o Krugman crítico de mídia. Imperdível, a propósito, o seu "O cidadão Kane está de volta", no Estado de 24/12, sobre os apuros do barão da mídia Conrad Black, o canadense naturalizado inglês dono do Daily Telegraph, de Londres, do Jerusalem Post e do Chicago Sun-Times, entre outros órgãos [veja remissão abaixo para a nota "A desconstrução de lord Black"].

Uma solução de compromisso é citar uma passagem de uma resenha que ele publicou na edição de 20 de novembro do New York Book Review sobre os livros Life in George W. Bush?s America, de Molly Ivins e Lou Dubose, e Big Lies: The Right-Wing Propaganda Machine and How it Distorts the Truth, de Joe Conason.

(Esses livros fazem parte de uma safra recente sobre o mesmo assunto. Não por acaso, quase todos têm a palavra "lies" ou "liars" no título. Uma exceção é o livro do próprio Krugman, basicamente uma coletânea de seus artigos, intitulado, em tradução livre, "O grande desmanche: como estamos nos perdendo no novo século".)

Opinião pública submissa

Na sua resenha, Krugman confessa que não sabe a solução para o que considera um enigma: "Por que o público americano é tão facilmente manipulado?" Segundo ele, uma resposta, mas não toda a resposta, está na "docilidade da maioria da imprensa, rádio e televisão". Não é toda a resposta porque desemboca em outra pergunta: "O que é que a direita tem hoje que lhe permite amedrontar a imprensa tão facilmente, que cria uma tão eficaz máquina de propaganda, intimidação e mobilização popular?" A visão de Krugman:


"Dinheiro é certamente parte da história. Estatísticas recentes confirmam que a desigualdade de renda nos Estados Unidos voltou aos níveis dos Anos Dourados [o período da industrialização selvagem do país, que vai, grosso modo, de1890 e 1914; quem inventou a expressão, "Gilded Age", no original, foi o escritor Mark Twain]. Se assim é, então talvez os ricos, recentemente dotados de novos poderes, estão em condições de comprar, em seu benefício, uma volta às políticas dos Anos Dourados. Religião é também parte da história: com efeito, a direita religiosa ? a maioria de cujos adeptos está entre os grandes perdedores da nova ordem econômica ? parece ter feito um acordo pelo qual apóia impostos baixos para os ricos e fraca regulação econômica em troca de um governo amigável à Bíblia. E o 11 de Setembro foi, naturalmente, o melhor presente que a direita poderia ter desejado ? a ocasião perfeita para colocar a política em permanente pé de guerra, uma situação na qual a crítica aos nossos líderes pode ser abafada aos gritos como impatriótica."


Na sua coletânea, enriquecida com novos ensaios, Krugman remete a discussão sobre o papel da mídia na submissão a Bush da opinião pública americana à cobertura da campanha presidencial de 2000. Para ele, a grande imprensa, que tanto havia desancado Clinton por ter mentido sobre o seu caso com a estagiária Monica Lewinski, deixou o candidato republicano à solta e, por negligência, descuidou de focalizar o que os candidatos diziam, preferindo destacar os seus estilos, roupas, desempenho e aparência física.

"A história não perdoará"

Por "desatenção institucional" e "desleixo intelectual", antes e depois da eleição, a mídia deixou passar entre as pernas a grande guinada para a direita, representada pelo bushismo, em curso nos Estados Unidos.

Antes:


"Custei a acreditar no que acontecia. Será que o candidato presidencial de um grande partido político realmente mentia, descaradamente, sobre o conteúdo de seu próprio programa? Será que a mídia realmente deixava que ele saísse impune disso? Ele mentia e ela deixava".


Depois:


"O projeto de Bush de reforma da seguridade social era uma fraude do começo ao fim. O caráter mendaz dos planos do governo em relação à saúde pública era mais sutil, mas também inegável. E a mídia não percebeu".


Na sua coluna de sexta-feira (26/12), "Resoluções de Ano Novo", Krugman fecha o círculo, tratando da cobertura da campanha presidencial de 2004. Ele pergunta se essa cobertura refletirá a gravidade do fato de que a eventual reeleição de Bush significará a plena tomada do poder na América pela direita.

E, levando mais longe do que nunca o seu papel de crítico da mídia, propõe meia dúzia de regras, cada uma devidamente explicada e exemplificada, não raro com ironia, para que a imprensa dos Estados Unidos não repita o fiasco de 2000:


"Não fale de roupas. Examine de perto as propostas dos candidatos. Cuidado com anedotas pessoais. Olhe as fichas dos candidatos. Não se deixe levar pelo histrionismo dos candidatos. E você não é o assunto da campanha".


[A coluna pode ? e deve ? ser lida, no original, em <http://www.nytimes.com/2003/12/26/opinion/26KRUG.html>]

O fecho do artigo vale a entrada:


"Eu realmente não espero que os meus colegas jornalistas [grifo deste leitor] sigam essas regras. Decerto eu também, em momentos de fraqueza, quebrarei uma ou mais delas. Mas a história não nos perdoará se permitirmos que a preguiça e a mesquinharia pessoal configurem essa eleição crucial".


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