Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > SALOMÃO MALINA (1922-2002)

O militante que não podia ser notícia

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

SALOMÃO MALINA (1922-2002)

Sua última entrevista para a TV foi ao Observatório da Imprensa e durante uma hora desfiou um pedaço importante da história política do Brasil. Uma das revelações mais tocantes do último secretário-geral do PCB foi que, durante os quase 40 anos de clandestinidade, converteu-se na não-notícia. O ex-diretor do jornal Imprensa Popular não podia aparecer. Não existia.

E, não obstante, foi um exemplo de integridade e idealismo. (A.D.)

(*)

Alberto Dines

É um depoimento mas também um debate. Relato despojado de uma existência heróica, quase anônima e, ao mesmo tempo, uma agenda para reflexões sobre o futuro.

Lançado na última semana no Rio, São Paulo e na próxima em Brasília, O Último Secretário ? a luta de Salomão Malina (Fundação Astrojildo Pereira, Brasília, prefácio de Elio Gaspari) pode entrar na lista dos best-sellers, porém dentro da categoria de "auto-ajuda" ? manual de dignidade e decência, guia de coerências e discrição, cartilha sobre idealismo e recato, modelo de altruísmo e honestidade intelectual. Tudo isso embutido num resumo dos últimos 50 anos da nossa história com surpresas capazes de sacudir definitivamente alguns lugares-comuns e reavaliar mitos arcaicos.

Um dos pracinhas da FEB mais condecorados, Malina combateu os fascismos em todas as frentes. Pertenceu ao Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, ao longo de 40 anos e quase 20 como Secretário Geral, o último, antes de transformar-se no PPS do qual é Presidente Nacional de Honra.

Livro de autor e sobre o autor, O Último Secretário é perturbador de diversas maneiras. Pelo estilo, porque é um livro falado, direto e álgido como um daqueles "documentos para discussão" que circulavam dentro do PCB. É, porém intensamente sofrido. Perturba, sobretudo, pelo conteúdo: é uma autocrítica, cândida errata e, muito mais do que isso, corajosa denúncia contra as fantasias de alguns poucos e que tantos males causaram a tantos.

Libelo sem clamores, apenas lúcido, contra uma inclinação antilegalista e antidemocrática entranhada na vida brasileira que dominou setores militares, econômicos e políticos mas também intoxicou as alas ditas "avançadas" da nossa esquerda.

O dado essencial da análise de Malina está na sua avaliação do que ocorreu antes, durante e depois do golpe militar de 1964: "…a partir de certo momento, começou a imperar uma pregação esquerdista, golpista, partida exatamente das forças que estavam com Jango, o que confundia várias áreas … exemplo típico é o fato de que as greves políticas ocorriam exatamente nas empresas estatais… No final do governo Goulart…o partido conciliou com aquele frenesi golpista, o que nos prejudicou e muito … não tivemos força para superar o crônico golpismo da tradição política brasileira".

Frente à "verborragia incendiária de certas lideranças carismáticas" (em outro trecho Malina refere-se explicitamente a Leonel Brizola e Francisco Julião, das Ligas Camponesas), o PCB não conseguiu fazer-se ouvir na oposição ao empenho de João Goulart de intervir na Guanabara e decretar o estado sítio nem na condenação à "rebelião dos sargentos".

A história dos conflitos internos dentro do PCB e, portanto, no seio da mais poderosa organização da esquerda brasileira, reside exatamente neste ponto: "…fomos batidos precisamente porque compactuamos com o golpismo… Movidos pela impaciência revolucionária [os dissidentes] derivaram para o vanguardismo e caíram no esquerdismo … a realidade é refratária aos desejos subjetivos por mais nobres que sejam. Uma linha política errada, baseada numa análise falsa, só pode conduzir ao fracasso…"

O saldo trágico do relato de Malina é que o Partidão, depois de 1964, justamente por opor-se à ação armada e às seduções dos atalhos provocadores, foi tão ou mais castigado do que os optantes pelas soluções de força. Arrasados os focos da guerrilha, a linha dura "…jogou todo o aparato repressivo sobre o PCB entendendo que éramos uma força cuja política tinha eficácia? Sofremos golpes seríssimos, os mais graves de nossa história: dirigentes presos, assassinados, ?desaparecidos?, centenas de militantes presos e torturados…" Tudo isso porque o PCB desde os fins de 60 adotou a opção pela política de alianças com as forças comprometidas em restabelecer a democracia e materializada no antigo MDB.

Em 1978, prossegue Malina, certos setores sindicais "procuram conduzir novamente a luta de massas com uma visão golpista … utilizando os sindicatos como fator de golpe, de derrubada imediata do governo por meio de greves isoladas". Aparecem teses no sentido de criar a chamada "oposição sindical…movimento puro e bom, revolucionário…" para jogar os outros cinco mil sindicatos brasileiros, inautênticos, na lata de lixo.

No momento em que o "social" virou moda socialite e a moda Armani, uniforme de alguns socialistas, Salomão Malina vive modestamente no quarto de um pequeno apartamento no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Acaba de completar 80 anos, em 16 de maio (portanto um taurino, determinado), quase metade deles (35) passados na clandestinidade.

Usou inúmeros codinomes e identidades falsas. Mas só teve um partido, só lutou por uma idéia, só usou uma imagem ? a sua. Assume tudo: nas fotos da contracapa, a cerimônia do seu Bar Mitzvá, a maioridade dos judeus ao completarem os 13 anos. Salomão Malina, além de um nome na história recente do Brasil, é a noção de integridade.

(*) Publicado no Jornal do Brasil, 1/6/02

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