Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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O Mundial do João-Ninguém

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

MÍDIA NA COPA

Marinilda Carvalho


Caro leitor, que opinião sobre futebol você prefere ouvir?

1) A de Rivelino, Júnior, Leivinha, Tostão, Fernando Calazans, José Trajano e outros cronistas esportivos veteranos;

2) A do seu vizinho.

Para participar, mande sua opinião por fax ou e-mail.


O bom e velho João-Ninguém é a estrela desta Copa. A opinião do seu vizinho tem mais espaço e é mais valorizada do que a de entendidos famosos. Que bom! Afinal, o povão tem muito a dizer, ou o Brasil não é o país de 170 milhões de técnicos de futebol? A novidade, porém, espanta. As emissoras contrataram analistas experientes para comentar os jogos, destacaram seus melhores profissionais para a cobertura, gastaram fortunas enviando essa turma toda à Ásia, numa Copa de muitas viagens ? mas todos precisam falar rapidinho, que o tempo é curto: "Vamos conhecer agora a opinião do amigo assinante." Ou seja, o torcedor anônimo está trabalhando de graça para a TV brasileira. E contente. A maioria fala besteira, claro, pois tem visão espetaculosa das partidas e é movida por interesses clubísticos ? mas ganha espaço majestático nos programas.

Não pense que o fenômeno vale apenas para a TV fechada. Na aberta, análises de especialistas são a todo momento interrompidas para que o apresentador leia o e-mail ou o fax do "amigo telespectador". Até a Globo, a que menos apela ao recurso, inventou uma enquete para que o brasileiro exponha suas preferências sobre qualquer coisa. Mas a emissora, que não dá murro em ponta de faca, obriga o vizinho a pagar para participar: a ligação é pelo sistema 0300, em que o minuto custa R$ 0,27 mais impostos! (A propósito, circula na internet ? e reproduzimos alguns trechos abaixo ? um destes textos motivacionais da moda, cobrando da Globo e dos brasileiros mais "atitude").

Recorrer ao "amigo assinante" é uma solução de ouro, principalmente para os canais de esporte. Já que parece impossível exibir programação de Copa do Mundo nas 24 horas do dia, apesar dos enormes esforços, das pautas inventivas e das matérias paralelas, a participação do seu vizinho preenche um tempo precioso, porque os comentaristas estão ficando sem ter o que dizer. Na primeira fase da Copa sobrava jogo. Agora, falta.

Mas o vizinho está feliz da vida. É impressionante a participação, a necessidade de se expressar dos brasileiros, apaixonados ou não por futebol. Todo mundo quer falar, elogiar, esculhambar. A ESPN Brasil, que sempre se destacou pela interação com seu público ? e-mails são lidos pelo narrador até durante a transmissão de jogos ao vivo ?, incrementou essa vocação: criou um bloco especial dentro da programação, o Bate-papo com o assinante, em que dois apresentadores lêem e-mails e faxes. Os assinantes concorrem a prêmios, como bolas oficiais, games, camisas das seleções da Copa, livros sobre futebol. Isso não impede que e-mails sejam lidos também no quadro principal dos programas. Não é à toa que a emissora está batendo todos os recordes em recebimento de mensagens.

O lado ruim: perde-se um tempo enorme com o apelo à participação. Frases como "Lembramos mais uma vez que nosso canal de comunicação com o assinante está aberto, à espera de sua mensagem" são repetidas ad nauseum. As duplas destacadas para o Bate-papo, repórteres e apresentadores de programas de esportes menos votados, como o vôlei, parecem entusiasmadas com a própria voz, não param de falar. E, como não conhecem futebol, com exceção de um deles, chutam quilos de bobagens: pronunciam errado os nomes de jogadores estrangeiros famosíssimos, chamam de campeão quem foi vice e de vice quem foi campeão, entre outros. Mas o que vale é a festa.

Boca no trombone

E espinafração também. No programa Mesa-Redonda, da ESPNb, o grau de empatia com o público é tão grande que chega à intimidade. O que não falta no Brasil de hoje é mau humor, e o assinante se sente no direito de xingar comentarista. Não poucas vezes José Trajano, diretor de Jornalismo da emissora e o mais carismático entre os ótimos integrantes da mesa, mandou o assinante "pentear macaco".

Também rola bronca na agradável porém confusa mesa-redonda do Sportv, Copa em 2 tempos, que conta basicamente com Rivelino, Júnior e Leivinha. Nela, o vetusto Armando Nogueira tem se atrapalhado todo com a leitura dos e-mails do público. O canal já é pouco adepto da integração com o assinante ? seu site nem exibe mais os e-mails da equipe ?, e a produção não destaca com caneta highlight os trechos relevantes, como faz a ESPN do B. Com isso, o veterano jornalista se perde na leitura. Ele levou uma semana para decorar o endereço eletrônico da mesa <copa2002@globosat.com.br>, e até hoje solta estranhos "arroba globosat ponto com ponto bêerre", provocando risos entre os companheiros. Sua outra luta é com o ponto eletrônico: sem nenhum timing, o ponto fala ao mesmo tempo que Armando, deixa o apresentador louco e toma broncas homéricas. Nesse programa a interatividade não funciona, e a bagunça geral prejudica as ótimas análises dos três craques, cortadas sem elegância alguma a todo instante.

Seu vizinho também é estrela em dezenas de matérias de rua que as emissoras abertas e fechadas produzem com populares. Nunca se viu tanto anônimo comentando partidas, tanto ilustre desconhecido jogando pelada de várzea, tanto joão-ninguém chutando a gol na Praça da Sé. Depois do seu vizinho, a segunda voz mais cotada nesta Copa é a do ex. Ex-jogador, ex-técnico, ex-árbitro, ex-massagista, até ex-gandula ? basta ter sido qualquer coisa no futebol para ser convidado para algum programa, às vezes vários no mesmo dia. Tudo para encher os brancos da programação. Se os jogos são de madrugada, como manter acesa a chama do interesse ao longo do dia? E tome de convidado que pouco ou nada tem a dizer. É uma tortura ver apresentadores tentando tirar leite de pedra. A conclusão? Copa assim não dá certo.

Alguns colunistas já estão botando a boca no trombone contra a péssima organização desta Copa, como Fernando Calazans e Artur Xexéo, do Globo, entre os primeiros a reclamar. É inadmissível que o circo do futebol seja obrigado a levantar lona a cada três dias para jogos em outras cidades, quando não em outro país. É inadmissível que uma Copa dure um mês, que tenha 32 seleções, que Coréia e Turquia estejam nas semifinais, que árbitros de Trinidad y Tobago, Egito ou Benin apitem jogos. Esta Copa é inadmissível. Mas pergunte se a Fifa acha isso. Que nada, a Fifa está é feliz, como comprova seu release mais que ufanista [clique, no pé desta página, em TEXTO ANTERIORpara ler o artigo "Anunciantes de cabelo em pé e jornalismo de pé atrás"].

Pênaltis roubados

** Impressiona a vocação colonizada da nossa mídia. O Jornal Nacional de sexta-feira (21/6) encerrou a matéria sobre o jogo Brasil 2 x 1 Inglaterra com que imagem? A de Beckham, The Beautiful. O pior jogador em campo ganhou as honras, com suas caras e bocas sempre estudadamente voltadas para as câmeras. Ao festejar o gol inglês contra o Brasil, o Spice Boy chegou a girar Michael Owen, mudando a posição do abraço, para sair melhor na foto.

** Tantos analistas comentaram a incrível recuperação de Rivaldo, e nenhum lembrou que foi uma entrada maldosa do argentino Sorín, tão festejado aqui, que provocou a lesão do atacante, num Brasil x Argentina das Eliminatórias. Não é um dado importante? Tanto é que todos condenaram o argentino que quebrou o pé de Beckham, The Beautiful. No Copa em 2 tempos alguém disse que quem dá a pancada esquece, mas quem leva, não. Sorín virou ídolo mineiro e brasileiro, mas Rivaldo, que ficou com fama de bichado, deve lembrar muito bem.

** Panelinhas pró ou contra este ou aquele jogador se formaram rapidamente nas mesas-redondas. Em certos programas da TV aberta, a insistência em torno de alguns nomes é tamanha que se chega a imaginar se alguém na mesa tem interesse financeiro em determinado jogador…

** A polêmica dos direitos de transmissão chegou à terrinha. Nos dias de jogos da seleção portuguesa, a RTP Internacional exibia bottom line dizendo que não transmitia as partidas por "total impossibilidade de aquisição dos direitos de transmissão em rede mundial".

** Impressionante como se retém pouca informação hoje em dia. Ahn, o garoto de 19 anos que fez o gol de ouro da Coréia na eliminação da Itália, tem o apelido de Golden Boy. Na transmissão do jogo, nem narradores nem comentaristas, da Globo ou do Sportv, lembraram que o Golden Boy fez o Golden Goal, uma associação simpática, além de óbvia. Só à noite, na mesa-redonda de Armando Nogueira, é que isso foi mencionado.

** Verissimo contou em sua
coluna de O Globo que um jornalista israelense, querendo
saber aonde foi parar o "jogo bonito" do Brasil, disse
que o único a jogar "bonito" na Seleção
era o zagueiro Lúcio. E falamos mal da nossa mídia…

** De
Ana Paula Padrão, no Jornal da Globo: "Por
enquanto, não chove. O único barulho é o da
torcida aqui atrás". Atrás dela, uns 10 torcedores,
de boca aberta mas totalmente mudos, olhando hipnotizados para a
câmera.

** De Galvão Bueno: "Desse grupo sai o adversário de um dos jogos do Brasil nas oitavas de final."

** Brasil e Inglaterra no Sportv: "Bom o Sven-Goran Eriksson?", pergunta o narrador Luiz Carlos Jr. ao craque Júnior. "Bom demais, grande técnico, ele nem se mexe no banco porque os jogadores já sabem o que devem fazer".

** "Senegalês: Adj. 1. Do, ou pertencente ou relativo ao, ou próprio do Senegal (África); senegalesco. S. m. 2. O natural ou habitante do Senegal." O Aurélio não pode ser mais claro: "ao" Senegal, "do" Senegal. Pois a praga do Globo (seleção "de" Senegal) se espalhou para a Globo, o Sportv e até para a ESPN Brasil. Só se preocupou com isso o apresentador Paulo Soares, da ESPNb, que no programa Babel Futebol Clube perguntou a forma correta ao representante senegalês. Pois é "o" Senegal.

** Ricardo Rocha disse na mesa-redonda Papo de Copa, do Sportv, que só estrangeiros recebem com festa suas seleções derrotadas. Inverdade que os dois jornalistas presentes não corrigiram: milhares de pessoas festejaram a Seleção Brasileira em Brasília, em 1998.

** Antecipando o vazio após a final, telespectadores já estão enviando mensagens desesperadas às mesas-redondas diárias do Sportv (criada para a Copa, será provavelmente descontinuada) e da ESPNb (que volta a ser semanal). "Vai ficar um buraco na minha vida", chorou uma assinante do canal paulista.

** Festa de torcedores na Rua André Cavalcanti, Centro do Rio, no intervalo de Brasil x China. Um repórter do Sportv estava lá. Não era Globo nem SBT, e sim o comportado Sportv. Fileirinha de quatro meninas de shortinho dançando funk, bumbuns quase de fora. "As meninas aqui do Rio gostam de ser chamadas de cachorra", disse ele à câmera. "Pode mesmo chamar de cachorra?", perguntou às garotas. "Pode", responderam elas. "Não tem problema nenhum?", insistiu. "Problema nenhum, pode chamar de cachorra."

Silêncio total numa sala cheia de universitários que assistiam ao jogo. Um deles abre a boca, atônito: "E é a TV paga." E outra complementa: "Mas é da empresa que explora a morte do Tim Lopes."

Gols legais

** Nada como uma Copa de madrugada. Só assim o torcedor-zumbi pôde ver todos os jogos na TV aberta. Neste horário o Mundial não atrapalhou muito a preciosa grade da Globo. O dogma "Programação normal e o melhor do Carnaval" (lembram?) não agrediu o telespectador.

** De Claudio Carsughi, na mesa-redonda Linha de passe, da ESPNb: "E se Coréia e Turquia forem para a final?" Resposta rápida de Milton Leite, que comanda a mesa: "A Globo bota o Globo Rural no horário do jogo".

** Depois de um início frio, o enviado da ESPN Brasil ao Japão arrebentou. Mandou matérias excelentes, especialmente uma sobre a bomba em Hiroxima. E enquanto a Globo mostrava redações brasileiras, ele visitava as de jornais japoneses, como a do Kobe Shimbum. Os repórteres que cobriram a seleção e a torcida brasileiras exibiram a manchete que sairia no dia seguinte à vitória sobre a Bélgica.

** A melhor sacada da imprensa sobre o esquema tático inicial do time de Felipão cabe ao jornalista José Roberto Torero: 7-0-3.

** No dia 12, valeu a perspicácia de William Waack, no Jornal da Globo. "Com a saída da França e da Argentina, o Brasil sobe na bolsa de apostas de Londres. Mas o Risco Brasil está mais alto do que o do Equador." Quem suporia então que ainda ultrapassaríamos o da Nigéria…

** Fátima Bernardes vem se saindo bem ? muito melhor do que Galvão Bueno, que não consegue parar de falar besteira e mostra machismo incurável ao comentar os palpites da apresentadora sobre futebol.

** Pois até Ana Paula Padrão fez um gol. Apresentou mais uma daquelas reportagens em primeira pessoa, e logo se pensa, lá vem matéria boba. Mas ela foi ao treino da Seleção e à coletiva de Felipão, e percebeu o grande numero de jornalistas estrangeiros. Investiu nisso e ouviu muitos elogios ao Brasil, na explicação de por que acompanham o time. Mas só quando um repórter argentino falou é que se entendeu a pauta da matéria: "A Seleção Brasileira vai ter que jogar mal durante muito tempo para que desapareça essa mística, essa lenda que envolve o futebol brasileiro". Depreende-se então a pergunta, nada deslumbrada: "O Brasil anda jogando muito mal. Por que então essa presença maciça da imprensa?" Beleza.

** Pena que Felipão não tenha estado no Brasil nas últimas quatro semanas. Ele teria visto por que o Brasil inteiro ? até cariocas, inclusive vascaínos, que não curtem o Corinthians ? pede Ricardinho no time. Os belos filmes das Copas antigas mostram que o forte do Brasil sempre foi o meio-campo, mesmo quando não vencíamos. Que saudade…

** Armando Nogueira, em seu Copa em 2 tempos, reproduz a narração de gols dos jogos do Brasil por rádios estrangeiras. Foi especial uma rádio japonesa no quarto gol do Brasil contra a China. Narração exótica para um lindo gol, de Ronaldo.

** Júnior, o craque comentarista, não se conteve ao ver o genial gol de falta de Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra e gritou "Goooooooooool" junto com o narrador Luiz Carlos Jr., no Sportv. Coro inédito em narrações esportivas.

** A melhor idéia da TV neste Mundial é Loucos por Copa, da ESPN Brasil, que vai ao ar aos sábados, 16h. Três jornalistas, Paulo Vinícius Coelho, Roberto Assaf e Cláudio Arregui, e um escritor, Marcelo Duarte, dão informações interessantes sobre os Mundiais.

Por exemplo: só o Brasil tem 13 vitórias consecutivas em Copas ? ao ser derrotada pela Croácia, a Itália perdeu a chance de igualar o feito brasileiro; só duas vezes o Brasil precisou do terceiro jogo para garantir sua vaga nas oitavas; em 38, o técnico brasileiro comandava com apito as sessões de ginástica no convés do navio que levava a Seleção ao Uruguai, mas os passageiros reclamaram e ele teve que parar; Alemanha e Argentina foram os únicos campeões com derrota; únicos eliminados invictos: Brasil em 78 e Bélgica em 86; Jair da Costa, reserva de Garrincha na Seleção, brilhou na Inter de Milão durante nove anos, e integra o “Time do Século” do clube de Ronaldo, tendo sido bicampeão mundial de clubes e bicampeão europeu, ao lado de feras históricas; a Seleção tem 183 gols em Copas e saldo de 99, contando o jogo com a Inglaterra.

Besteirol? Não, informação de qualidade sobre a paixão dos brasileiros.

** Jornalistas sempre criticam os técnicos que não abrem os treinos à imprensa. "Não somos espiões, queremos apenas fazer nosso trabalho", argumentam. Um dia desses, em entrevista ao Sportv, Felipão agradeceu as dicas de Júnior, Rivelino e Leivinha sobre os adversários do Brasil. Tudo bem, não são jornalistas, mas que têm credencial de imprensa lá isso têm.

** Trecho do "manifesto" sobre o Se Liga Brasil, da Globo: "É contagiante observar a lição de cidadania e democracia que está sendo veiculada pelos meios de comunicação, quero dizer, pela Rede Globo, num ano de tantas motivações. A campanha Se liga Brasil incentiva você a gastar R$ 0,27 + impostos para escolher se a Seleção Brasileira está psicologicamente preparada para enfrentar o próximo adversário ou não. (…) Por que será que a campanha Se liga Brasil não incentiva você a gastar R$ 0,27 + impostos para escolher se a CPMF deve ou não continuar? (…) Por que será que a campanha Se liga Brasil não incentiva você a gastar R$ 0,27 + impostos para escolher se você quer receber seu FGTS roubado há 12 anos em parcela única ou não? Por que será que a campanha Se liga Brasil não incentivou você a gastar R$ 0,27 + impostos para escolher se a Companhia Vale do Rio Doce deveria ser privatizada ou não? (…) É porque você não se liga, Brasil (…)"

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