Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > DEMISSÃO EM GOIÁS

O âncora que afundou o navio

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

DEMISSÃO EM GOIÁS
(*)

Euler Belém (**)

O jornalista Carlos Magno foi demitido da TV Anhanguera pelo presidente da Organização Jaime Câmara, Jaime Câmara Júnior, com a anuência do diretor da emissora, Jackson Abrão. Júnior Câmara não gostou de um comentário feito por Carlos Magno, a respeito da intervenção policial na fazenda do empresário Wagner Canhedo, dono da Vasp. A fazenda havia sido invadida por integrantes do MST e a polícia cumpria mandado judicial que exigia a desocupação da fazenda. Tido como âncora, o jornalista criticou o excesso de policiais na operação e, por isso, foi afastado.

A figura do âncora nunca funcionou bem no Brasil, exceto no caso de Boris Casoy, que começou no SBT e está na Record. A presença fundamental nos telejornais é a do apresentador, como William Bonner e Fátima Bernardes, do Jornal Nacional, da TV Globo. Ana Paula Padrão, do Jornal da Globo, opina mais do que Bonner e Fátima, mas não é uma âncora clássica, como os americanos, que desancam presidentes da República.

Em Goiânia, Paulo Beringhs atuou como um misto de âncora e apresentador, no Jornal do Meio-Dia, quase sempre com sucesso. No geral, a figura do âncora não deu certo no estado, aliás, nunca foi tentada pra valer. O âncora precisa ter independência ? isto é, o veículo em que trabalha deve ser livre ? para opinar, o que é uma ficção em Goiás. Então, quem tentar ser âncora, apostando mesmo numa relativa autonomia das empresas de comunicação, vai acabar sendo demitido, como Carlos Magno.

O leitor atento certamente perceberá que quase tudo que está na carta de Carlos Magno aos seus colegas já foi expresso nesta coluna. Numa publicidade recente, O Popular ? carro-chefe da Organização Jaime Câmara ? diz que é um jornal que não se vende, tentando se passar por um veículo imparcial e independente. Claro que não se pode dizer que a linha editorial do jornal da OJC, assim como a da TV Anhanguera, esteja à venda. Mas é possível dizer, sim, que o jornal não é inteiramente livre. A liberdade talvez surja com o fortalecimento do mercado. A longo prazo. Hoje, o que se tem é um mercado pequeno e, mesmo, retraído. O maior anunciante, daí ter tanto poder, é o governo do estado. Arisco (que raramente anuncia em Goiás), Carrefour e Extra, para citar três grandes empresas, anunciam, mas muito pouco. Em Goiás, pelo menos, gastam menos em publicidade do que a Prefeitura de Goiânia.

Carlos Magno é vítima da crença de que as palavras “são” mais fortes do que os fatos. Profissional competente, ele certamente acreditou na mídia do Pop e na autonomia jornalística da TV Anhanguera. Ele apresentava o Jornal Anhanguera, mais conhecido como “Jornal do Almoço”.

A carta abaixo não tem título. O título, portanto, é
de responsabilidade do Jornal Opção.

 

Carlos Magno

Desde que cheguei aqui, cinco anos atrás, toda vez que me chamavam à sala do Jackson [Abrão, diretor da TV Anhanguera], eu pensava: é hoje! Vivi a angústia a cada chamado. É hoje! Foi terça-feira.

O Jackson me chamou e com três palavras me disse o que eu já esperava há cinco anos. “Você está demitido.” Após a frase se seguiu uma conversa tão idiota quanto inócua (e, graças a Deus, breve).

Eu esperava que a empresa fosse se transformando, se adequando a esses novos tempos. Esperava (e disse várias vezes) que ela percebesse que o nosso CLIENTE é o telespectador. É a ele que devemos tudo, ao contrário do que pensa boa parte (sobretudo quem manda) de que é o anunciante. O anunciante só anuncia conosco porque temos audiência. Sem audiência não tem governo nem empresa que anuncie. E o nosso CLIENTE quer ouvir verdades. Ele não quer ser enganado. Se o âncora vai dizer alguma coisa, que seja aquilo que ele (cliente) pensa que é certo.

Eu quis que esta empresa [TV Anhanguera] fosse diferente por gostar dela. Porque jogo no time, porque torço por ele sinceramente. Se fosse jogador de futebol marcaria um gol e sairia beijando a camisa. Mas a diretoria desse time é de uma burra ingratidão. Ela pensa que nós não sabemos que quem marca os gols somos nós (trabalhadores). Quem pensa somos nós. Quem dá o passe de trivela somos nós. Quem lança somos nós e quem marca o gol somos nós. O Júnior [Jaime Câmara Júnior] (dono) ficaria orgulhoso se um dia visse uma das nossas reuniões. Reuniões em que todo dia discutimos a melhor jogada, a melhor forma de chegar ao gol, um detalhezinho. Talvez ficasse orgulhoso ao ver que todo dia eu olho o texto do jornal e vou catando uma palavra, trocando uma letra que o deixe mais atraente. Que um monte de gente faz a mesma coisa. Gente que pensa o telejornalismo, que quer o melhor.

Quando voltei pra Anhanguera tive que ouvir demais asneiras do tipo “você é louco, depois de tudo, voltar pra Anhanguera!?” Eu não entendia. Ouvia (lá na Globo) que a Anhanguera era uma grande empresa, uma das melhores e mais bem-estruturadas da rede. Cheguei aqui e pude confirmar quase tudo. Menos o que é essencial, a mentalidade. Grandes empresas fazem de tudo para que o empregado pense, participe. Na OJC isso pode ser muito perigoso.

A Globo se libertou, desde Collor, dos governos e do tal poder econômico. A Globo se mancou que esteve atrelada a isso, sem nenhuma vantagem, e mudou o rumo. A Anhanguera não mudou. Continua pedindo “bença” aos governos e ao tal poder econômico.

Eu tenho simpatia por esses movimentos populares, MST inclusive, mas não costumo ficar do lado de coisas ilegais. A invasão da Fazenda Santa Luzia era ilegal. Acho justo que esses mortos-de-fome briguem por um pedaço de terra nesse país continental. Que matem vacas se estão com fome. Porque isso é apenas aquela velha luta pela sobrevivência. Mas não disse nem vou dizer isso no ar, como âncora.

No fatídico comentário, eu não disse que o MST estava com a razão nisso ou naquilo. Eu só disse que “é impressionante como Judiciário, governo e polícia são eficientes na defesa do patrimônio de um milionário”. Quis passar, óbvio, que eles não têm o mesmo empenho pra cuidar das coisas do populacho. Já tinha dito isso antes (no vídeo) em questões policiais. É revoltante constatar que o “sistema” não funciona para pobres.

A demissão me pega num momento em que eu tinha finalmente decidido viver em Goiânia (mais precisamente, em Hidrolândia). Arrumei uma namorada de quem estava finalmente gostando. Pensei, cá com meus pneuzinhos, em ficar por aqui mesmo.

Em 24 anos de profissão, fui pulando de um emprego pra outro, sem estar um dia sequer desempregado. Apesar de todos me animarem, a sensação é apavorante. Eu gosto muito do tele[jornalismo]. Mas, infelizmente, não fui o Magno que eu gostaria. Fiquei devendo. Quando cheguei estava vivendo um momento difícil demais, com a separação das filhas e da mulher com quem vivi mais da metade da minha vida, um romance conturbado e o (des)emprego na Globo.

Pensei que em “casa” me recuperaria. Não recuperei. Vocês mereciam um sujeitinho melhor. Fantasiei várias vezes o dia em que os chamaria numa festa em casa, para marcar a “recuperação”. Eu os receberia, um a um, feliz. Cerveja por minha conta, churrasco, minhas filhas, tênis rolando na quadra, aquele ruído de coisa alegre e o Nelton: “Mato, hein, boi?!!”

Lá em Brasília há um sujeito chamado Ângelo Lima que faz inteira justiça ao nome, um Ângelo. Quando cheguei aqui e tive contato com você comentei com os colegas de Brasília: lá é cheio de Ângelus. Acho sinceramente que esta redação é privilegiada, cheia de gente generosa e decente. Me sinto tentado a citar alguns nomes, mas vou me esconder no velho “não cometer injustiças”. A lista é muito grande e certamente vou esquecer de alguém.

Esta foi a terceira vez em que eu trabalhei aqui. Acho difícil uma quarta vez, mas quem sabe o poeta tenha razão: “Vou ali contar os dias que faltam pra voltar”.

Vou sentir demais a falta de vocês. Me perdoem os chiliques e as piadas inconvenientes. (Carlos Magno)

(*) Publicado no Jornal Opção, edição de 20 a 26 de outubro

(**) Editor do Jornal Opção, Goiânia

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