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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & POLÍTICA

O ônibus da utopia

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

MÍDIA & POLÍTICA

Angelo de Souza (*)

No mesmo ônibus escolar, a filha da Xuxa e o filho de Elias Maluco vão todos os dias à mesma universal e obrigatória escola pública, onde sentam lado a lado para as mesmas aulas e a mesma merenda.

Poderia ser um episódio de Cidade dos homens, mas não é.

A utopia é do veterano jornalista Tão Gomes Pinto, dita no sábado (19/10), em Belém (PA), num encontro sobre mídia e política [2? Encontro de Jornalismo da Amazônia, promovido pelo Instituto de Educação e Cultura da Amazônia e pela Universidade Federal do Pará]. "Dela depende a sobrevivência da democracia no Brasil", diz. "Os brasileiros têm que aprender a superar esse abismo social na pré-escola."

Mídia e política, jornalismo e eleições. Gomes Pinto aprova a postura dos veículos que declaram posição. Citou o Correio Braziliense ? que "foi para o segundo turno" contra Joaquim Roriz no DF; Carta Capital, que publicou editorial de declaração de apoio a Lula; e Primeira Leitura, que defende José Serra.

? Na verdade, Primeira Leitura combate o "malanismo" (política do ministro da Fazenda, Pedro Malan) ? esclareceu Gomes Pinto.

As críticas do ex-diretor de IstoÉ foram para os "capatazes", que teriam transformado as empresas jornalísticas em produtos pretensamente neutros, feitos para agradar a todos, com imparcialidade medida em segundos ou centímetros, sem opinião ou com vergonha de declará-la. Também sobrou para os candidatos a presidente, que não foram capazes ? "nenhum foi" ? de fazer propostas concretas de distribuição de renda.

Mas ele acha que, nessas eleições, os candidatos em geral se saíram melhor do que seus entrevistadores. "Todo político tem um quê de artista", sentencia. "Garotinho soube aproveitar muito bem." Tão arrematou: "Debate agora para quê? Tudo já foi debatido."

Dez mandamentos

Outro jornalista na mesa foi Laurentino Gomes, da Editora Abril. Ele se queixou da contaminação do jornalismo pelo entretenimento. Lamentou que o resultado financeiro das empresas seja mais valorizado do que o patrimônio em credibilidade. Acusou os jornalistas de terem fruído benesses sob o tacão do DIP de Vargas, tais como aposentadoria precoce, "como se jornalismo fosse uma atividade insalubre".

Gomes lembrou alguns mandamentos do jornalismo, com base em pesquisa feita nos Estados Unidos [Kovach. Rosenstiel. The elements of journalism. Crown, 2001]: compromisso com a verdade (algo a ser alcançado um pouco a cada dia, embora ninguém saiba exatamente o que é) e com o cidadão, definido como o consumidor da informação; papel de fiscal do poder, capaz de ajudar as pessoas a tomar decisões; dever de guardar distância prudente da cena e dos atores; capacidade de separar o essencial do acessório ? de facilitar da leitura (pois o leitor não tem tempo a perder nem lê por prazer); e criatividade para oferecer a informação relevante numa forma atraente:

? O texto deve ser didático, o design gráfico deve ser claro, e as chamadas, irresistíveis.

Para o jornalista da Abril, "jornalismo é verdade, objetividade, isenção. Não importa se na editoria de política ou no editorial de moda".

O decálogo fecha com a pergunta ao fim do dia: a quem servi hoje ? Ao leitor, ao anunciante, aos amigos da empresa? As escolhas, adverte, são sempre muito pessoais. "Jornalismo é um ato de caráter."

Poder e paixão

? As pesquisas [de intenção de voto, de opinião] não são a voz do povo. São a voz dos meios de comunicação sobre o povo ? diz a pesquisadora da PUC-SP, Vera Chaia.

Nas últimas décadas, o lugar dos meios de comunicação na política tornou-se central. Num cenário de partidos artificiais, candidaturas personalistas, voto volátil e políticas públicas ditadas por marqueteiros, "os meios são a mediação".

Vera chamou a atenção para os usos políticos do poder concessório do Executivo sobre as telecomunicações, e lembrou: além dos políticos e das famílias, também as igrejas surgem como grandes donas do rádio e da TV no Brasil ? fenômeno a se considerar. O mito da imparcialidade também a incomoda. "Neutralidade demais confunde. É preciso ler nas entrelinhas, analisar diagramação, paginação, fotografia, para captar a posição política de um jornal", recomenda.

Já a professora Maria Helena Weber, da UFRGS, vê na relação entre mídia e política uma disputa de poder, "pois a verdade é o poder". E em política a verdade muda de lugar; só se diz o que precisa ser dito.

? Política é paixão, é emoção. A linguagem publicitária existe para ajudar a "traduzir" propostas para o eleitorado. O poder conceitual da comunicação não é possível partilhar.

A professora aponta a possibilidade de um movimento inverso ? de uma fala política determinada pelos meios até o uso dos meios pela política, numa mediação legítima. Maria Helena acha que os candidatos não são apenas produtos. "Imagem não é tudo."

Cidade virtual

Utopia, pragmatismo, crítica, otimismo. De problemas a soluções, as idéias dos debatedores de Belém fecham um ciclo que aponta para o ônibus onde Sasha e o filho de Elias Maluco vão à escola juntos.

Em nossa democracia atual, feita para cidadãos-consumidores, temos direito de escolher. Podemos escolher entre o telejornal, a novela, o programa político. Mas quem escolhe o que vai dentro dessas embalagens?

Podemos escolher entre refletir ou apenas nos entreter, por exemplo, com histórias como a dos personagens Uólace e João Victor, no episódio de Cidade dos homens exibido pela Rede Globo na véspera do encontro dos jornalistas no Pará. Uma história sobre adolescentes da favela e do asfalto, a desafiar nossos valores, a educação que tivemos, a nossa percepção do real ? mas sobretudo, e apenas, uma história.

Das versões aos fatos, deles à ficção, entre meios e mediações, não parece existir muita escolha.

Na democracia do ônibus escolar, como seria?

(*) Jornalista em Belém do Pará

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