Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ARGENTINA

O ofício de mentir

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

ARGENTINA

Rolando Lazarte, de Buenos Aires (*)

Em 20 de dezembro de 2001, uma rebelião popular derrubava em Buenos Aires o presidente Fernando De la Rúa e seu ministro Cavallo, servos fiéis e devotados da política neoliberal imposta pela oligarquia argentina e seus sócios USA-ONU-FMI desde, pelo menos, a ditadura militar dos genocidas Videla, Massera, Agosti, Martinez de Hoz (1976-1983).

Quebrava-se, naquela noite, uma tradição secular no país argentino, em que os presidentes eram postos na rua pela tropa de ocupação constituída pelas chamadas "forças armadas nacionais", historicamente executoras da repressão contra o povo e suas tentativas de resistência à dominação, como bem o ensinava Simón Bolívar.

A imprensa brasileira mostrou as cenas da rebelião com destaque para os saques de mercadorias nos supermercados, bem como para a brutal repressão policial aos manifestantes. Nada disseram sobre as razões de fundo que levaram um povo espoliado a perder a paciência com seus "representantes", com seus "dirigentes". É necessário conhecer algo da história da Argentina para descobrir o que ela têm em comum com toda história popular, com toda trajetória da humanidade submetida ao capital, ao Estado, às milícias, à polícia, à igreja, ao patrão, ao empresário, ao banqueiro.

Grande parte da imprensa brasileira serve à dominação, e este tipo de imprensa não se desvia de sua função ao distorcer os fatos, ao ocultar a realidade, ao mentir descaradamente, ao violentar a verdade, ao deformar até o infinito o que ocorre num país que foi levado ao risco de desaparição como tal por cumprir à risca os ditames do capital financeiro que, embora não tenha pátria, reside física e politicamente nos Estados Unidos da América (e não na América), como já o demonstrara lucidamente o ex-presidente dominicano Juan Bosch em seu livro O pentagonismo.

O narcopresidente Carlos Menem, recentemente escrachado pela população revoltada com suas tentativas de regresso, aboliu durante seu mandato a moeda nacional, implantando o dólar, moeda de seus patrões. Liquidou o patrimônio nacional, entregando o petróleo, os aviões e as telecomunicações ao capital estrangeiro, com o aplauso da intelectualidade venal que, lá e cá, saudou o neoliberalismo como uma redenção para os males do "estatismo", do "paternalismo" e demais "ismos" funcionais à dominação oligárquica e imperialista.

A crise da dominação na Argentina não se limita aos ocupantes dos cargos públicos, notadamente ladrões e corruptos: juízes da Suprema Corte de inJustiça servis à narcorrepública menemista, legisladores subornados para aprovar a "flexibilização" das leis trabalhistas, vereadores e governadores patrimonialistas. Ela compreende o conjunto dirigente do país: sindicalistas, hierarquia eclesiástica, cúpula militar. Os que mandam, para usar a conhecida expressão do sociólogo José Luis de Imaz.

Quando tal imprensa brasileira fala em "falência da Argentina" não se refere à quase total perda de legitimidade em que se encontra o sistema de dominação, provocado por sucessivas e reiteradas violações das suas obrigações em todos os âmbitos. O empresário abandona a fábrica sem pagar os salários. O governante paga seus funcionários com papéis sem valor. A cúpula eclesiástica sussurra convites ao golpe de estado. O capital financeiro surrupia os fundos dos depositantes. Mas não é dessa "falência" que a imprensa fala.

A imprensa do capital e da dominação esconde o fato (ou o mostra em espaço reduzidíssimo) de que, na Argentina atual, há já mais de 5 mil clubes de troca, organizados pela socióloga brasileira Heloisa Primavera, em que os produtores trocam diretamente, sem a mediação da sumida moeda oficial, o fruto do seu trabalho. São mais de 15 milhões de pessoas vivendo sem a mediação do Estado e dos bancos.

A imprensa do sistema de exploração esconde o fato de que, como na Cerâmica Zanon, muitas fábricas abandonadas pelos donos sem pagar salários aos trabalhadores, funcionam hoje sob o comando das próprias trabalhadoras e trabalhadores auto-organizados. Há hospitais em Buenos Aires que funcionam em co-gestão dos moradores do bairro, que decidem em conjunto com funcionários e autoridades os rumos da atividade hospitalar.

Imprensa marrom

Algo impensável na Argentina oligárquica e autoritária que sugou o sangue de seus filhos durante 185 anos. Os moradores autoconvocados cuidam da limpeza e da segurança dos bairros, na ausência das autoridades municipais. Grupos de voluntários organizam e sustentam refeitórios para crianças desnutridas. Comissões escolares, comissões de fábrica, formas autônomas de gestão ocupam o espaço deixado vago pelo capital e os políticos. Mas disto não se vê nem se lê nada na imprensa venal.

E para quem pensa estar diante de uma alucinada propaganda anarquista ou trotskista, diante de um libelo anticapitalista ou qualquer outro "ista" subversivo, deixamos as perguntas: você sabia que na Argentina morreram, entre 1976 e 1983, mais de 30 mil pessoas, pelas mãos da força de ocupação chamada "exército nacional"? (Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA) Você sabia que esse massacre tinha por fim a submissão do povo argentino à exploração capitalista selvagem chamada neoliberalismo? (A saúde mental no mundo, informe da Opas-OMS, Washington DC, 1997)

Mais: você sabia que os militares torturadores e assassinos foram anistiados pela "democracia" sem nunca terem se arrependido? Você sabia que a hierarquia católica Argentina incentivou o massacre dos 30 mil desaparecidos, abençoando a tortura e o desaparecimento de pessoas? Você sabia que os militares argentinos criaram campos de concentração nas províncias de Córdoba, Tucumán, Buenos Aires, onde eram torturados e eliminados não somente os "subversivos", seus parentes e amigos, mas também toda pessoa que possuísse algum bem desejado pelos cães de caça fardados? Você sabia que a empresa Ford Motors Company e o Engenho Ledesma equiparam os grupos de extermínio na Argentina? Você sabia que a cabeça visível do genocídio na Argentina, o ladrão de bebês Jorge Rafael Videla, foi aluno da Escola das Américas, centro de treinamento de torturadores mantido pelos Estados Unidos, de onde também saíram Somoza e Pinochet?

Se você não sabia nada ou quase nada disso, não se admire: deve ter estado lendo a história errada. Ou, talvez, a mera imprensa marrom.

(*) Sociólogo e escritor, professor aposentado da UFPB, doutor em Ciência (USP, 1993), autor de Max Weber: Ciência e Valores (São Paulo, Cortez Editora, 2001, 2? edição); colaborador de Nação Brasileira <www.projetoadia.com.br>, El Astillero <www.cuentos.8m.net>, A Arte da Palavra <www.aartedapalavra.hpg.ig.com.br>, La Insígnia <www.lainsignia.org>

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