Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > ACM E O MEGAGRAMPO

O off e o feiticeiro

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ACM E O MEGAGRAMPO

Luiz Cláudio Cunha (*)

Jornalistas, por definição, defendem a democracia, dependem da liberdade de expressão, combatem a ditadura, repudiam a tortura, são contrários à Lei da Mordaça (que pretende calar parlamentares e procuradores) e sustentam a instituição do off.

Todas elas são incondicionais, menos o off. O off é um instrumento do repórter para o bom jornalismo. É uma prerrogativa, não uma fatalidade. É uma ferramenta de atribuição exclusiva do repórter. É ele quem decide sobre seu uso, extensão e duração. Nem o editor, nem o veículo de comunicação excedem o poder do repórter sobre o off. O repórter é o senhor absoluto e exclusivo do off.

O repórter controla o off, não o contrário. O off é instrumento de busca da verdade, um protetor da boa fonte e da boa informação, um fundamento do jornalismo a serviço do leitor e do interesse público.

O off é um meio, não um dogma. Jornalismo não é igreja. Repórter não é padre nem psiquiatra, onde confissões são preservadas a qualquer custo, a qualquer preço. O off tem um preço, um limite, claro e definido: o limite da verdade e do interesse público, maiores do que quaisquer compromissos entre repórter e fonte.

O caminho do crime

O off da fonte é sempre preservado quando está em jogo a segurança da informação, a integridade da fonte, o interesse da sociedade. Não existe conflito entre a boa fonte e o interesse público. Quando o conflito se estabelece, o repórter não hesita ? opta pelo interesse da sociedade e da verdade.

O off é uma sagrada instituição do jornalismo, que dele não abre mão, nem em períodos autoritários, nem (e principalmente) sob constrangimento da força ou dos poderosos. O off protege e eleva. Não pode, por isso, ser desprotegido e rebaixado.

O off mentiroso rebaixa e fragiliza o jornalismo. O off criminoso condena e acumplicia o repórter. O repórter tem a obrigação de saber quando o off serve para o bem ou para o mal. Ele é o juiz irrecorrível, primeiro e único, desta terrível decisão. O repórter sustenta o off quando o off sustenta o jornalismo e a busca da verdade.

O off mais famoso do jornalismo mundial é o de Deep Throat, o informante ainda hoje preservado do escândalo de Watergate, que levou Nixon à renúncia, nos anos 70. Seu nome só será revelado após sua morte, conforme decisão dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein. Deep Throat, como ninguém, foi sempre uma boa fonte e um off seguro. Levava os repórteres para o bom caminho, não para o desvio da mentira, para longe da verdade. Quando os repórteres do The Washington Post pareciam ter perdido o rumo da investigação, pediam o encontro na garagem do subsolo e ouviam a boa fonte: "Follow the money". E, seguindo o dinheiro, eles reencontraram o caminho do crime que desviou a Casa Branca de seus deveres constitucionais. O off de Deep Throat sempre foi preservado porque a fonte sempre preservou a verdade e o bom jornalismo ? e um bom repórter não precisa mais do que isso de uma boa fonte em off.

Crime constitucional

Um repórter poderia estar ao lado do capitão Sérgio Macaco, nos idos sangrentos de 1968, quando o brigadeiro Burnier pediu, em off, que a tropa de elite do Para-Sar tomasse o rumo do terrorismo para explodir o Gasômetro do Rio. O repórter teria dois caminhos: sucumbir ao off, e virar cúmplice do brigadeiro terrorista, ou abrir o off, como fez o capitão, e expor ao país a face mais feia da ditadura militar. O capitão entrou para a História, o brigadeiro se desfez no lixo do arbítrio.

O senador Antonio Carlos Magalhães pediu off para uma mentira e para um crime. Disse que "uns amigos" fizeram o grampo, quando na verdade os amigos eram a própria Secretaria de Segurança da Bahia, que se colocou a serviço particular do senador para cometer o maior grampo coletivo conhecido na história da República. Viu-se, então que se tratava de um serial killer distribuindo, "em confiança", o resultado impresso, e anotado à margem, de um crime que é condenado pelas leis do país, pela Constituição e pelos bons senadores da República. No caso, um serial killer usando o aparato do Estado em larga escala contra cidadãos indefesos.

Não existe "confiança" possível entre uma má fonte e um bom repórter ? ou o contrário. E, nesse caso, não existe off, que não se mistura com a mentira e o crime. Proteger o off, nesse caso, é tornar o repórter cúmplice da mentira e desse crime. Manter a "confiança" do mentiroso e do criminoso rebaixa o repórter ao nível da transgressão, que deve ser combatida, não estimulada pelo silêncio, pela conivência ou pela cumplicidade.

O senador, que se diz jornalista e é dono de jornal, não entendeu o papel fundamental do repórter. Repórter não quer, não precisa, não depende de fonte mentirosa e criminosa. O repórter, mais do que ao jornal, serve ao leitor e à verdade. Ele não serve à fonte. Ele se serve da fonte, verdadeira e confiável, para atender aos interesses supremos do leitor e da verdade. Quando a fonte não serve a estes princípios e, pior, contraria estes objetivos, deixa de ser fonte, perde o privilegio do off.

O senador ACM, ao não dizer a verdade e ao disseminar o produto de um crime constitucional, deixou de ser fonte. Passou a ser a própria notícia. E repórter não mantém a notícia em off. Repórter caça a notícia. ACM deixou de ser caçador para virar caça. O off virou contra o feiticeiro.

(*) Jornalista e editor da sucursal de Brasília da IstoÉ

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