Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > OMBUDSMAN

O ombudsman é só marketing? (*)

Por lgarcia em 20/09/1998 na edição 53

Lira Neto, ombudsman de O Povo

Um ombudsman é apenas um bedel de jornal
Paulo Francis, jornalista

 

R

ecebo e-mail do leitor Rodney Brocanelli. Ele se queixa porque uma reclamação que havia feito anteriormente ao Ombudsman, em julho, até agora não surtiu nenhum efeito. “O ombudsman, pelo que a gente lê por aí, é um advogado do leitor”, observa Brocanelli. “Como tal, creio que o jornalista que ocupa essa função no O Povo poderia ter intermediado uma solução para o caso”, argumenta.

“Ou será que como dizem alguns críticos da mídia, o cargo é apenas uma estratégia de marketing dos jornais para mostrarem aos seus leitores que são transparentes?”, indaga o leitor. “A sensação que me dá nessa história é a seguinte: ?Ah, a gente dá voz para meia dúzia de gatos pingados e fica tudo por isso mesmo?”, completa Brocanelli. Compreendo a indignação do leitor. Ao procurar o ombudsman, é lógico que ele queira que sua reclamação produza efeitos práticos e rápidos. Quando isso não acontece, é natural que passe a desconfiar da eficácia e do poder de fogo do próprio ombudsman. Ou, como é o caso de Brocanelli, que comece a alimentar a idéia de que a figura do tal “representante do leitor” não passe mesmo de “uma estratégia de marketing” para apaziguar os ânimos de leitores indignados.

Em julho, Brocanelli procurou o ombudsman pela primeira vez por conta do cancelamento da página PUB, que era publicada todas as quartas-feiras no caderno Vida & Arte. Antes mesmo da reclamação do leitor, o ombudsman já havia discutido exaustivamente, em comentários internos à Redação, as conseqüências do cancelamento daquela página. Acabar com a PUB, para o ombudsman, havia sido um erro editorial. Em resposta, o jornal foi taxativo: alegou corte de custos.

Na coluna de 3 de agosto, publiquei então a nota Cortaram a ousadia, onde critiquei publicamente a saída de cena da PUB, que até ali agregara ao jornal uma linguagem inquieta, provocando uma saudável dissonância em relação ao bom comportamento do jornalismo de variedades em geral, muitas vezes pautado pelos produtos da indústria cultural. “O jornal pode até ter economizado alguns trocados. Mas com certeza, tem ficado menos inquieto nas suas edições de quarta-feira”, escrevi. Rodney Brocanelli não ficou satisfeito. “Foi pouco, muito pouco”, avalia a atuação do ombudsman naquele episódio.

 

O papel do ombudsman

Afinal, o ombudsman é mesmo só “uma estratégia de marketing”? Um “bedel de jornal”, como dizia Paulo Francis? Um escudo providencial contra as broncas, desabafos e reclamações endereçadas à Redação? Um funcionário que a empresa utiliza só “para ficar de bem com os leitores”, como define Brocanelli em seu e-mail? Não é a primeira vez que recebo esse tipo de comentário. Muito provavelmente, n&atildatilde;o será a última. Assim, antes de mais nada, é bom lembrar qual o verdadeiro papel do ombudsman: promover o diálogo interno e servir como um canal de comunicação direta da empresa jornalística com o público. Ao fazer um exercício constante de alteridade, para ler o jornal sempre na perspectiva do leitor, o ombudsman oferece a possibilidade de a imprensa discutir suas próprias contradições, seja através da crítica interna ou da coluna semanal, publicada às segundas-feiras.

O ombudsman não tem poderes executivos dentro da hierarquia da empresa, não podendo assim decidir o que sai ou o que deixa de sair no jornal. Ele tem a função fundamental de convidar os leitores e jornalistas ao exercício da reflexão. É verdade que nem sempre consegue “solucionar” ou “resolver” as questões sobre as quais se debruça. Mas seria injustiça deixar de reconhecer aqui que a maioria das queixas objetivas dos leitores é levada cada vez mais em conta pela Redação, que tem procurado providenciar as devidas correções para erros e equívocos do jornal.

Infelizmente, porém, isso não impede que O Povo continue cometendo às vezes os mesmos erros. Nem que determinadas decisões editoriais e administrativas sejam tomadas a despeito da insatisfação de alguns leitores – e do próprio ombudsman. É preciso entretanto perceber que a conquista desse diálogo faz parte de um processo, onde os avanços podem parecer lentos, mas inegáveis. Tanto da parte dos leitores, que conseguem fazer uma leitura e uma crítica do jornal cada vez mais elaborada, quanto da parte do jornal, que está compreendendo a importância de conviver com a autocrítica. Por fim, resta dizer que, se o “representante do leitor” fosse apenas uma estratégia de marketing, poderíamos nos perguntar então por qual motivo todo jornal não tem o seu ombudsman. A constatação de que tão poucos jornais tenham topado o desafio de manter um “representante dos leitores” mostra como a imprensa, de um modo geral, ainda parece refratária a dar o primeiro passo no indispensável processo de democratização da mídia.

 

Leitora critica colunista

Recebo também por e-mail mensagem da leitora Lesane Studart. Ela chama a atenção do ombudsman para a coluna Domingo, assinada semanalmente pelo jornalista Alan Neto, na página 2-A do O Povo. A leitora critica a insistência do colunista em destacar, em notinhas elogiosas, sempre as mesmas pessoas. Lesane Studart faz uma lista de figurinhas fáceis na coluna Domingo: “(a) O balé Mônica Luíza, que por coincidência tem a filha do colunista como bailarina principal; (b) Marcelo Costa e o grupo Balaio de teatro, onde costuma atuar a mulher do colunista; (c) o superintendente do INSS, onde o irmão do colunista é assessor de imprensa; (d) a Unimed, patrocinadora do Superlativo Programa do Alan, na AM do O Povo“.

A partir do e-mail da leitora, pedi ao Banco de Dados do O Povo que me enviasse cópias de todas as colunas Domingo publicadas este ano. Após a leitura das 33 colunas veiculadas de janeiro até aqui, obtive o seguinte resultado: o grupo Balaio e seu diretor, Marcelo Costa, foram citados elogiosamente pela coluna Domingo nada menos de 15 vezes. A Unimed recebeu 13 citações, também sempre acompanhadas de adjetivos generosos. Já o superintendente do INSS foi personagem de oito colunas Domingo, e o balé Mônica Luíza de seis. Sempre com rasgados elogios. “Quem leu uma coluna Domingo, leu todas”, observava a leitora em seu e-mail.

O Povo possui estatutos que definem o perfil de cada uma de suas colunas. Sobre a Domingo, tais documentos dizem que ela “não pode ser coluna de recados, ou usada para fomentar questões que não atendam o coletivo”. Portanto, ao defender interesses estritamente pessoais do colunista, a Domingo foge ao perfil editorial determinado pelo O Povo.

Em meus comentários internos da semana passada, reproduzi o e-mail da leitora Lesane Studart. Entretanto, o colunista não deu nenhum retorno ao ombudsman.

(*) Copyright O Povo.

 

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