Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > TV UNIVERSITÁRIA

O paradoxo da contestação

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

TV UNIVERSITÁRIA

Mozahir Salomão (*)

O texto enviado por mim a este OI sobre o jornalismo na televisão universitária foi devidamente indicado como teor de palestra no 6? Fórum da ABTU em Campo Grande (MS). Dos 13 parágrafos do texto, um explicitou meu estranhamento em relação às generalizadas críticas feitas pelo professor Antonio Brasil à programação das TVs universitárias brasileiras. Lamentei que para ele nada se salvasse, e considerei a avaliação não muito bem balizada. O texto foi apresentado a colegas da ABTU num encontro em que os participantes puderam relatar as experiências que desenvolvem em seus canais universitários.

Não sei se pela simples vontade de estender a polêmica ou mesmo pela dificuldade em deixar por algum momento de utilizar o chiste ? abrigo dos preconceituosos ?, mais uma vez o mestre insistiu em generalizações não exatamente corretas e justas. Imagino que entre as TV universitárias brasileiras existam muitos dos problemas diagnosticados pelo professor Antonio Brasil: da inapetência à incompetência, mesmice e chatice, da burocracia ao servilismo. Mas, se o professor ? como defensor e praticante do bom jornalismo que parece ser ? procurar se informar melhor, encontrará muita coisa interessante sendo produzida. Há programas de conteúdo elogiável, plasticamente bem cuidados e tecnicamente corretos. E aí vão mais alguns adjetivos, professor, já que este texto assim o permite.

Entre outras coisas, o professor Antonio Brasil diz que ficou “confuso”. Talvez não seja o caso. Talvez o professor, na verdade, seja uma pessoa confusa. Alguém que fala em pluralidade, mas que se permite tentativas de piada pelo fato de a instituição citada ter caráter confessional. “Divino”, “iluminado” ? palavras pontuadas de maneira biliosa e em tom jocoso. Postura estéril e que em nada contribui para quem se diz interessado em problematizar a produção da televisão universitária no país. O professor diz que não conseguiu encontrar em minhas palavras onde estava um jornalismo diferente… Se jornalismo é jornalismo ou não é, professor Brasil, como o senhor encontraria um jornalismo diferente?

Sem tantas divergências

Quando escrevi que no telejornalismo “nem tudo pode, mas é preciso ousar” ? e, explicando isso, espero sinceramente contribuir para trazer o Brasil para o mundo dos sensatos ? referi-me à necessidade de, nas TVs universitárias, buscarmos insistentemente investir na linguagem, na valorização da imagem, de permitirmos a nós mesmos ? alunos e todos os envolvidos nesse processo ? experimentar. E o que não pode? O que não pode é exatamente fugir daquilo que qualifica a prática jornalística. Da apuração bem feita, da checagem precisa da informação, do texto bem construído. Da edição cuidadosa. Afinal, como o senhor mesmo disse, “jornalismo é jornalismo ou não é”. O senhor diz que vai reler meu texto. Espero que o faça de maneira mais atenta para perceber que em nenhum momento falo em jornalismo diferenciado. Bom jornalista, espera-se, bom editor, o senhor deveria ter ressaltado em sua resposta, por exemplo, a minha defesa de que o jornalismo tem que primar pela correção e seriedade em suas práticas mais rotineiras

O que não se pode fazer é reduzirmos toda a complexidade de dois campos tão inquietantes ? televisão e universidade ? a nossas frustrações e preconceitos, vendo em tudo a síntese das mesquinhas disputas que, muitas vezes, travam-se nas universidades.

A oportunidade deste debate fez-me lembrar de Wittgenstein e seu “paradoxo do prisioneiro”: havia um rei que se encontrou diante de um dilema insolúvel, tendo decretado uma lei pela qual cada estrangeiro que chegava ao reino teria que declarar, sob ameaça de pena capital, o verdadeiro motivo de sua viagem. Porém, o rei não havia previsto a chegada de um sofista que, candidamente, explicou ter ido ao reino para ser justiçado com base nessa mesma lei. O rei ficou preso por um laço contraditório: não pode condenar à morte o prisioneiro porque esse disse a verdade; ao mesmo tempo, não poderia salvá-lo porque iria de encontro a sua própria lei. Ou seja, o rei seria obrigado a aceitar em seu reino um estrangeiro que ou queria outra coisa ou então, ainda mais sutilmente, só procurava demonstrar que o rei não tinha capacidade de governar e fazer respeitar as leis por ele mesmo ditadas.

Também agradeço a oportunidade de poder debater sobre telejornalismo universitário. Tomando a idéia de Alsina do jornalismo como a construção de um mundo possível, lamento apenas que meu interlocutor tenha feito uma leitura tão armada do meu texto e optado por brindar-me com uma resposta que, desnecessariamente, beirou o desrespeito. Curioso como, excetuando-se a forma irresponsável de execrar as TVs universitárias, parecemos não ter tantas divergências assim. Como o professor Antonio Brasil, imagino, sou um professor que defende um tanto de coisas bacanas: liberdade na construção do saber, busca de práticas pedagógicas envolventes, crítica a um excessivo academicismo… Como ele, imagino, tento ser um jornalista que busca o exercício ético e honesto da profissão. Um trabalhador preocupado com os rumos que sua profissão vem tomando e como pode contribuir para que este seja um país melhor.

(*) Professor da PUC-Minas e diretor da PUC-TV de Belo Horizonte

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