Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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O Paradoxo da Mentira e os Ratinhos da Informação

Por lgarcia em 05/09/1998 na edição 52

Carlos Vogt

 

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ilemas, paradoxos, antinomias sempre dominaram boa parte das inquietações filosóficas no mundo ocidental.

Sem entrar na tecnicidade de suas diferenças, alguns paradoxos e dilemas entraram para o estoque do saber comum e acabaram por ingressar no anedotário da inteligência quebra-cabeça: espécie de charada com charme de café insolúvel.

A esse anedotário pertence, sem dúvida, o dilema do crocodilo, que tendo raptado um menino, promete ao pai devolvê-lo, sob a condição de adivinhar se o crocodilo vai ou não comê-lo.

Daí o dilema do jacaré: se o pai responder que o bicho vai comer o menino, a resposta do pai será verdadeira e, pelo que foi combinado, ele terá de devolver o menino; mas, devolvendo o menino, a resposta do pai estará errada, perdendo este o direito à devolução.

Outro paradoxo bastante conhecido desde velhos tempos é o paradoxo do mentiroso, amplamente discutido por Ockham, no século XIV, e cuja fórmula já aparece concisa em Cícero, no século I , A. C.: “Se dizes que mentes, ou estás dizendo a verdade e então estás mentindo, ou estás dizendo mentira e então dizes a verdade”.

Resumindo: o mentiroso, desse modo, pode constituir-se, por subterfúgios de falso raciocínio lógico – que não estão no paradoxo, mas a ele aderem por suposições subentendidas – numa espécie de demiurgo prestidigitador que escamoteia todo o tempo a claridade: mente quando diz a verdade e só diz a verdade quando mente.

Essa criatura, que mais parece saída do bestiário de Borges, anfisbena, ambígua e vociferante, recatada e dissimulada, justa e arbitrária, timorata e temerária, digna e debochada, feita, enfim, de todos os binarismos conflitantes, existe sim e, que por ser vaga e sólida, tem encontrado o seu melhor abrigo privado nos comportamentos públicos de nossa imprensa.

À fauna paradoxal do jacaré e do mentiroso – a propósito da imprensa – é preciso juntar a antinomia do ratinho, cuja fórmula simples e eficaz é a do quanto pior, melhor.

Há, hoje, uma verdadeira síndrome do roedor, que, espalhada pela disputa dos pontos de audiência ou de tiragem, atinge desde o Jornal Nacional, da Rede Globo, até os jornais e as revistas semanais de informação.

O máximo dos máximos em matéria de impropriedade jornalística deu-se com a revista Veja, ano 31, nº 34, de 26/08/98, cuja capa traz a foto do presidente Clinton, angulada na mesma disposição da foto do famigerado “maníaco do parque”, Francisco de Assis Pereira, que também foi capa, dois números antes, da revista (Veja, ano 31, nº 32, de 12/08/98).

A felicidade de coincidir com duas fotos de personagens famosos da imprensa (ainda que as razões da fama sejam entre elas diversas), captando expressões de rosto e olhar parecidos, é um achado, mas, ainda assim, longe de ser um argumento qualificado de demonstração de semelhança dos casos de assassínios do Parque do Estado, em São Paulo, no Brasil e da aventura extraconjugal de Clinton com Monica Lewinsky, na Casa Branca, em Washington, nos Estados Unidos.

Para enfatizar a intenção de semelhança e o resultado da identificação dos dois protagonistas masculinos das histórias, a revista não teve dúvidas quanto a reimprimir, na edição de Clinton, o mesmo balão da edição de Assis Pereira: em ambas as capas, saindo da boca dos heróis culpados, penitentes, mas soturnos, a frase consagradora do reconhecimento do erro – Fui Eu – que, no primeiro caso, furo da confissão obtida, aparece com aspas e, no segundo, montagem, em discurso indireto livre, das declarações do presidente no televisor, aparece sem aspas. No mais, a não ser por pequenos detalhes, tudo igual. Enganosamente igual!

As capas que sugerem e até mesmo dizem tratar-se de casos semelhantes, quando é claro não o são, induzem também o leitor a crer que, assim como no caso “maníaco do parque”, a revista cometeu outro furo sensacional ao estampar na capa, além da foto coincidente em expressão, a mesma expressão coincidente em conteúdo, em forma e em tipo gráfico: Fui Eu.

Os textos que seguem, em duas linhas, a “confissão”, são idênticos, do ponto de vista da sintaxe narrativa, um contando que o suspeito Francisco de Assis Pereira disse ter matado nove mulheres, e o outro, sempre em discurso indireto, estampando o conteúdo da confissão e narrando a “loucura” subsequente do presidente “tarado”, ao mandar bomba no Sudão e no Afeganistão.

Não há, é claro, sobre o rosto de Clinton a tarja de exclusivo com que Veja se apropria da confissão de Francisco de Assis Pereira e, com ela, de seu corpo, de sua alma, de sua mente, de sua maldade, de seus distúrbios e do terror que é sua vida, para ele e para os outros.

A revista não chegaria a tanto, no caso Clinton. Mas insinua e se insinua. E ao insinuar-se, exagera a verdade e quando não a exagera, a diminui, isto é, pratica ou a jactância ou a ironia, que, segundo o filósofo Aristóteles, constituem duas espécies fundamentais de mentira.

Nem o “maníaco do parque” é o presidente dos Estados Unidos, nem as taras de Clinton o levaram a assassinar pobres e iludidas moças no Parque do Estado, em São Paulo, ou até mais próximo dele e às vezes também palco de ritos sinistros, no Central Park, em Nova Iorque. Francisco de Assis Pereira não tem poder de bombardear alvos terroristas ou civis e Bill Clinton jamais enfrentou a vida na periferia de São Paulo, nem com ela foi jamais confrontado. Vive no centro do mundo e manda nele, ao menos enquanto for presidente. As suas aventuras extraconjugais interessam e ganham importância por ser ele quem é e por ter como cenário o puritanismo, agora politicamente correto, que faz as delícias de advogados e promotores, num país onde eles dão às pencas e ganham dinheiro aos cachos. As aventuras macabras do motoboy têm a tristeza lúgubre da doença, da marginalidade e da violência de um país cada vez mais rachado em cicatrizes de dor e de abandono social.

Para não mencionar o conteúdo da reportagem sobre o caso Clinton/Monica Lewinsky, destaque-se apenas que, a propósito da gravata que ela teria dado ao seu namorado, nos tempos da paixão, a Veja sai-se com esta preciosidade freudo-happy hour:

“E como é possível que ninguém ainda tenha analisado o significado fálico da gravata (para não mencionar o dos mísseis usados no ataque a afegãos e sudaneses)?”.

De fato, como é possível?

A imprensa das capas do maníaco do parque e do presidente dos Estados Unidos parece viver a síndrome do ratinho: competir, concorrer, vender a qualquer custo. Como a classe média brasileira também está embarcando nesta, as revistas de informação embarcam naquela. E dá-lhe espetáculo. A verdade? Bem, a verdade que se esgarce nos dilemas de suas próprias contradições.

Mas o jacaré mentiroso não pode parir o ratinho oportunista. O paradoxo não veio para esconder a verdade mas para revelá-la na sua complexa singeleza de luz e de seus contrários. Não é um subterfúgio e tampouco uma instrumentalização do entendimento do outro. A imprensa é paradoxal, por definição. Mas, como no paradoxo, deve ter força de revelação. Não é o Chacrinha. Não veio para confundir. Está aí para esclarecer.

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