Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO SILVIO SANTOS

O país das pegadinhas

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CASO SILVIO SANTOS

Ivo Lucchesi (*)

A semana passada foi pródiga na capacidade de ilustrar a face da problemática realidade brasileira, principalmente naquilo que ela tem de ingênuo e atrasado, quadro que está a exigir radical remoção, antes de instalar-se de maneira crônica e a ponto de tornar-se insuperável.

A edição do Fantástico, programa exibido pela TV Globo no domingo, dia 6 de julho, num de seus blocos expunha o resultado de uma pesquisa orientada pela Unesco e pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), com o intuito de avaliar o desempenho intelectivo em adolescentes na faixa de 15 anos. Para tanto, foram escolhidos 41 países, entre os quais o Brasil. A pesquisa revelou a dimensão da gravidade na qual o modelo cultural brasileiro está situado (ou sitiado). O Brasil, quanto ao teste de leitura, obteve a 37? colocação, à frente apenas de Macedônia, Indonésia, Albânia e Peru. No que diz respeito à avaliação do rendimento em matemática, o resultado foi ainda mais tétrico: o Brasil foi classificado em 40? lugar, superior apenas ao índice alcançado pelo Peru. Conclui-se, portanto, que o potencial de compreensão e de raciocínio lógico do estudante brasileiro (com base no recorte da pesquisa) traduz abissal deficiência, o que sinaliza prorrogar-se, por tempos futuros, preocupante quadro.

O "centrão" e as reformas

Eis que, no decorrer da semana, não faltaram situações à altura de refletirem a indigência cultural dominante no país. Os territórios da política e da comunicação se encarregaram do fornecimento de novas safras de um temário que não se renova. Primeiro tratar-se-á da cena política, ficando para o capítulo seguinte o "fato midiático". Os dois estarão unidos pelo modelo das pegadinhas, versão nova do brasileiro que adora ver enganar o outro, fingindo que não se vê objeto do engano.

Sob intensa e permanente cobertura da mídia, o governo revelava realinhamentos estratégicos para a aprovação da reforma (?) da previdência. O que antes era apontado, com larga retórica de tom alarmista, como indispensável e urgente já não passava a ser tanto, permitindo ? sempre em nome de "altas negociações" ? concessões que, se vigorarem, conferirão à decantada reforma nada além de pífia alteração. Uma vez mais, assiste-se a articulações do velho "centrão", "partido" que, efetivamente, governa o país há décadas. A fórmula não muda. Em torno do partido no governo gravitam as forças que efetivamente têm poder de decisão. Outrora, ao redor do PSDB, compunham-se o PMDB e o PFL; agora, ao lado do PMDB, põe-se o engordado PTB. Assim, de composição em composição, o ritmo do pulsar nacional é ditado pelos batimentos do "centrão". Ao final, ouvir-se-á a desgastada justificativa: o governo implementou a reforma que era possível ser feita, ao preço da estigmatização do servidor público.

A mídia da pegadinha

O acontecimento da semana a envolver a mídia pela própria mídia diz respeito ao "caso Silvio Santos". Na carona do deplorável episódio que cercou a fraude do jornalista Jayson Blair, a revista Contigo, entre outros, expoente veículo promotor da "cultura da fofoca" no Brasil, exibia, em matéria de capa, chamada para revelações estarrecedoras e dramáticas do "empresário-comunicador", proprietário do SBT. A mídia, tanto em versão impressa quanto eletrônica, fartou-se em explorar o "caso" que, em todas as suas possíveis angulações, é expressão do mais alto ridículo.

A jornalista que assina a "entrevista-piada" quis passar como ingênua ou oportunista. Diferente não procederam os diretores da "nobre" publicação. Por outro lado, não menos isento de crítica fica o "empresário-comunicador" (muito mais "profissional" do business do que emblema para representar a classe dos comunicadores). Uma vez mais, o dono de um dos "impérios" nacionais não se furtou em desdenhar da atividade jornalística, protagonizando um "factóide" compatível com o modelo de imaginário infantilizado com o qual se vem definindo o perfil brasileiro das últimas décadas.

"Venda do SBT à rede mexicana" e "morte anunciada" costuraram um enredo medíocre a arrastar discussões, aflições, espaços em jornais, revistas, emissoras de rádio e, principalmente, TVs, com forte presença na Rede TV! e na Bandeirantes. Curiosamente, o SBT foi a emissora que sobre tudo silenciou.

Enfim, uma pegadinha a mais a reinar no "arraial" das sandices tupiniquins. A mídia, no seu habitual cinismo elegante, embarcou, fez a fatura e depois se descartou. A notícia, porém, correu mundo. A Reuters, tomando como verdade, multiplicou a irradiação do fato. Era tudo uma "brincadeira". A questão é que a "brincadeira" provocou baixa nas ações da Televisa (Quem perdeu? Quem ganhou?), roubou alguns pontos no Ibope e, por fim, expôs a idiotice de grande parte da população que acompanhou as especulações "dramáticas" em torno de um de seus "ídolos". A "idolatria tropical" ainda precisa ser melhor estudada.

E a vida segue…

À pegadinha política (diz-se algo e depois faz-se diferente), soma-se a pegadinha jornalística, enquanto o horizonte brasileiro fica sendo uma "miragem de esperança". O saldo final é o eco das sonoras gargalhadas de Abravanel, sempre parceiras da riqueza extraída do "Baú da Felicidade", sustentado pela miséria nacional. Qualquer pessoa de mediana formação, ouvindo trechos da "entrevista", detectaria o tom burlesco na voz do "empresário-comunicador". Só a diligente jornalista e a alta patente da Contigo não perceberam (ou não quiseram perceber). Quanto aos fiéis consumidores desse tipo de "receita midiática", nada a lamentar. Pagaram pelo direito de cultivarem a "fórmula". Não há, pois, como acionarem o Procon.

Como se vê, a pesquisa da Unesco e da OCDE é desgraçadamente confiável. O brasileiro majoritariamente lê mal e calcula ainda pior. Quando não se paga o preço de navegar-se no mar dos conflitos, o que resta pode ser um lugar no oceano dos aflitos…

(*) ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV/RJ.

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