Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E POLÍTICA

O poder da imprensa e a imprensa do poder

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

MÍDIA E POLÍTICA

Luiz Gonzaga Motta (*)

Imprensa e Poder, Luiz Gonzaga da Motta (org.), Editora Universidade de Brasília e Imprensa Oficial de São Paulo, 366 pp, 2002. Autores: Roberto Seabra, Luiz Martins da Silva, Roberto Amaral, Malena Rehbein Rodrigues, Luiz Gonzaga Motta, Zélia Leal Adghirni, Adriana Chiarini, Ana Lúcia Novelli, Sylvia Moretzsohn, Paulo José Cunha, Robert Darnton, Murilo César Ramos, Davi Emerich, Iluska Coutinho, Tânia Montoro, João Bosco Bezerra Bonfim e Dione Oliveira Moura

Não há poder sem imprensa, nem imprensa sem poder. Esta frase abre a introdução do livro Imprensa e poder, que acaba de ser lançado pela Editora da UnB. Utilizo esta afirmação não porque ela seja um jogo de palavras de efeito retórico, mas porque coloca uma série de questões contemporâneas sobre as delicadas relações entre a imprensa e o poder político. De uma forma ou de outra, todo poder instituído utiliza a imprensa para criar melhores condições de governabilidade e legitimar-se perante a opinião pública. Hoje, este uso é menos coercitivo do que já foi em outras épocas, ele é exercido com o uso de formas mais sutis e dissimuladas.

Isso não quer dizer que a imprensa seja, nem que tenha sempre sido, unicamente um instrumento do poder. Pela sua competência em selecionar, priorizar e disseminar os acontecimentos sociais, a imprensa foi acumulando poderes ao longo de sua história, até ser identificada nas democracias modernas como um quarto poder, aquele que é exercido ao lado dos outros três poderes, o executivo, o legislativo e o judiciário. Assim, o poder é uma qualidade inerente ao exercício da imprensa, seja como representante dos grupos hegemônicos, dos interesses dos seus proprietários ou como porta-voz da sociedade, genericamente definida.

Na sociedade moderna, o exercício desse poder ganhou dimensão ainda maior porque esta sociedade se organizou de forma a permitir a intermediação das relações sociais pelos meios de comunicação, entre os quais a imprensa. A mídia passou a ser o espaço privilegiado do jogo de poder, das relações políticas, dos códigos de conduta, da sedução e dos questionamentos. Para entrar no jogo, os atores sociais ? partidos políticos, sindicados, entidades patronais, órgãos da sociedade civil etc. ? adquiriram os modelos midiáticos. Aos poucos, a lógica midiática contaminou e incorporou tudo, a política, as eleições, as campanhas eleitorais, a religião, os padrões de gosto e estética, a educação e se diluiu nas relações do cotidiano. É na mídia que cada ator social procura aparecer, reivindicar, revelar seus interesses, avançar seus desejos e utopias. O jogo se intensificou, ficou sofisticado e já não é tão fácil identificar para onde pende o poder em cada situação, embora seja indiscutível a força dos grupos hegemônicos na condução do debate.

O livro Imprensa e poder não responde a todas as questões suscitadas pelas perguntas a respeito do poder da imprensa, mas é um conjunto de reflexões sérias e atualizadas sobre elas. O livro traz discussões recentes, baseadas em pesquisas sérias, sobre estas relações no Brasil contemporâneo, sobre a falência da nossa nascente democracia, sobre as relações assimétricas entre o poder, a imprensa e o cidadão, sobre o monopólio da propriedade dos meios, sobre a mercantilização dos conteúdos, sobre a superficialidade no tratamento dos temas e a fragmentação da informação jornalística.

Cobrança de compromissos

Traz ainda uma diversidade mais ampla de reflexões e não ignora os avanços e recuos dos segmentos democráticos nas relações de poder. Sobre este aspecto, são oportunas as discussões, sempre fundamentadas em investigações empíricas, das relações entre o jornalismo e o Congresso Nacional, procurando saber quem pauta quem. Sobre o papel do ombudsman e dos media watchers, como têm sido chamadas as diversas entidades "cães-de-guarda" que estão surgindo pelo país afora para vigiar o comportamento da mídia, como este Observatório da Imprensa e o Instituto Gutenberg, ou para pautar a imprensa sobre temas sociais relevantes muitas vezes ignorados pelas redações, como a Agencia Nacional de Informação sobre a Infância (Andi), entre outras. Traz ainda reflexões sobre o sentido e as dimensões da reformas gráficas e editoriais de O Globo, do Correio Braziliense e da Folha de S.Paulo. E sobre as novas tecnologias, especialmente a internet, nas redações dos jornais.

É notável que o livro Imprensa e poder tenha uma seção inteira, com quatro artigos, sobre o jornalismo de coluna, tão importante na imprensa brasileira e normalmente esquecido pelos nossos analistas. Três destes artigos examinam com detalhes as relações políticas que se estabelecem em função do noticiário das colunas dos jornais, que tipo de jornalismo se realiza ali, como a existência destas colunas cria um espaço onde o jogo político pode atender a interesses insólitos ou ao jornalismo informativo sério. É interessante notar que os artigos não convergem nas suas conclusões, mostrando que as análises levaram a percepções diferentes sobre o assunto.

Estão presentes também no livro discussões atualizadas sobre as diversas formas da relação entre o cidadão e a imprensa, que se não permitiram ainda um avanço para transformar a imprensa em agente dos interesses públicos, indicam caminhos e possibilidades nesse rumo. Essa discussão mostra que a cidadania brasileira está começando a se dar conta, pouco a pouco, de que a imprensa pode ser um espaço novo de atuação política, onde a intermediação da mídia pode ser mais eficaz para se alcançar resultados no jogo político do que as antigas entidades gremiais ou programáticas, como os sindicatos e os partidos políticos.

Essas novas e diferenciadas convivências entre a cidadania e a imprensa estão ainda longe de indicar rupturas na assimetria das relações de poder da sociedade. Mas, os autores que contribuíram para o livro não ignoraram os avanços que significam a existência de ouvidores, de conselhos populares em alguns jornais, de entidades que fazem a crítica da mídia, nem de agencias de notícias e outras organizações não-governamentais que vigiam a grande imprensa e cobram delas compromissos antes desprezados. Há sinais novos na sociedade, a dimensão deles no jogo da frágil democracia brasileira ainda está por ser dimensionada. O livro Imprensa e poder vem inserir-se no debate, contribuir para ampliar a percepção dos nossos problemas e indicar prioridades para novas reflexões.

(*) Jornalista e professor da Universidade de Brasília (UnB)

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