Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O Grenade é indie

O pop e o hype no Brasil

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

MÍDIA & MÚSICA

Danusia Regina Alves (*)

Outubro é o mês-chave para a música pop: marca o lançamento mundial do segundo álbum dos nova-iorquinos do The Strokes: Room on Fire. Milhares de indies espalhados pelo mundo inteiro aguardam ansiosamente esse momento que vai confirmar (ou não) a afirmação de que os Strokes provocaram mesmo a nova revolução do rock, depois do grunge e do Nirvana.

Eles estão na capa de algumas das revistas musicais mais importantes da atualidade, como as britânicas New Musical Express e Q, e a norte-americana Rolling Stone. Aqui no Brasil, veículos como a Folha de S.Paulo, com críticos do porte de Álvaro Pereira Junior e Lúcio Ribeiro, a revista Zero, a MTV, inúmeros sítios, e-zines e blogs dedicam grandes espaços aos garotos de NY.

Toda essa repercussão que o lançamento de Room on Fire provoca entre os fãs do grupo, e na mídia, permite se chegar a um questionamento mais geral e bastante representativo de um momento crucial vivido pela sociedade capitalista moderna, e que atinge principalmente ? mas não exclusivamente ? os jovens: qual a relação entre a mídia especializada em música pop e seu público? E, antes de tudo, o que significam, nos dias de hoje, os termos indie, pop e rock?

Profissionais, artistas e fãs da música pop não chegam a um consenso sobre a definição do que seria esse estilo que pode mover jovens de um lugar para outro e influenciar suas maneiras de vestir, pensar e se relacionar. Na maioria das vezes, quando se tenta explicar o significado dessa cultura pop dentro da música, fica impossível não citar nomes de bandas para ilustrar melhor sua explanação. O pop e o indie são mantidos pelas bandas e, por mais que se tente evitar os rótulos, estes acabam sendo incorporados e aplicados freqüentemente no vocabulário dos ouvintes desses estilos.

Os fãs se preocupam

“Indie rock são as bandas, produtores e pessoas que fazem parte da cena independente brasileira. Eles batalham por espaço, agitam shows, fazem intercâmbios entre bandas de outros estados e gostam de fazer parte dessa cena”, explica Bianca Jhordão, vocalista da banda carioca Leela. Opinião semelhante é a de Rodrigo Guedes, mentor e vocalista do Grenade, grupo indie paranaense: “O indie rock é música feita por gente que não tem condição de bancar sua música, que monta suas bandas na garagem, que tem pouca estrutura e tenta viver assim no mercado”. Rodrigo, no entanto, difere o estilo musical indie do modo de produção musical indie: “O estilo indie é um som mais de garagem, não compromissado. As bandas indie rock não têm muita preocupação com o apelo estético, com o visual ou com o refinamento sonoro. Mas existe também a opção por se fazer indie rock, ou seja: rock independente. Neste caso, são as bandas que não querem entrar para o circuito das grandes gravadoras. São as bandas que tocam por conta própria, que fazem trabalho de formiguinha para chegar a algum lugar e criar seu público”.

Luiz Pimentel, jornalista e editor da revista Zero, concorda que o indie é uma cultura independente e alternativa: “Todas essas bandas que estão meio à margem do esquema do jabá, de promoção, de esquemão de grande gravadora, de assessoria, podem ser colocadas no pacote alternativo”, ele afirma. Já Lúcio Ribeiro, jornalista da Folha de S. Paulo, acredita que é possível ser indie e comercial ao mesmo tempo: “Você pode falar do Teenage Fan Club fazendo pop, mesmo sendo eles uma banda indie. Strokes é pop tanto quanto Madonna e Michael Jackson são pop, e Groove Armada e Chemical Brothers são eletrônico pop. Esse conceito de indie e pop já está muito diluído”. Lúcio acredita que o termo indie é mais empregado no Brasil: “Aqui é engraçado porque existem os indies que não deixam esse rótulo morrer. Eles curtem o indie underground, mas passam a não gostar mais no momento em que ele é cuspido pra cima e começa a tocar nas rádios e a passar na MTV”.

Essa questão de uma banda indie se tornar mainstream, assinar contrato com grandes gravadoras e passar a ter suas músicas veiculadas pelas rádios também é motivo de preocupação para os fãs do estilo. Fernando Barros, por exemplo, músico e editor de e-zine, acredita que “indie rock, a princípio, seria o rock feito por bandas independentes. Mas esse termo já perdeu o significado, e agora refere-se a qualquer banda que não participe ativamente no mainstream. Mas muitas pessoas ainda usam o termo indie para classificar as guitar bands, como por exemplo as bandas derivadas de Pixies. A expressão indie se tornou muito vaga”.

Pop e erudita

Rodney Brocanelli, jornalista, colaborador de diversos e-zines e do sítio Observatório da Imprensa, polemiza: “Se for pra levar o termo ao pé da letra, aqui no Brasil o Lobão é indie, Tim Maia é indie, e até mesmo Maria Bethânia é indie. A música pop é um outro balaio em que entra de tudo no cenário musical brasileiro. KLB é pop, Rouge é pop, Skank é pop e até mesmo Los Hermanos é pop. Indie e pop são rótulos. Algumas vezes bem utilizados, outras nem tanto”.

Mas por que, afinal, o termo pop pode englobar ao mesmo tempo estilos e gêneros musicais aparentemente tão distintos? De acordo com o regente Valdemir Aparecido, “o primeiro problema é definir o que quer dizer pop. Se pensarmos o pop como música de mercado, onde o que vende é o que está na moda, algo que é passageiro, e quem faz essa moda são as grandes produtoras, talvez uma das fórmulas para o sucesso do pop seria o investimento, ou seja: o dinheiro. Por outro lado, dizendo tecnicamente, a música popular, o mercado, tem que seguir alguns padrões: letras simples, de fácil memorização e compreensão, assim como a melodia e a harmonia, que geralmente possui apenas um ou dois acordes, e o arranjo e o ritmo também são simples e repetitivos”.

No entanto, Valdemir esclarece ainda que essa “fórmula” serve para as músicas populares mais simples, “no entanto, podemos ressaltar que existe muita música boa no mundo ?popular?, assim como muita porcaria no erudito”. Ivana Dudnik, violoncelista da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo, tem visão um pouco distinta: “A música erudita já foi popular um dia. O que eu quero dizer é que talvez para nós, latinos, seja um pouco mais difícil entender isso, mas todas as melodias usadas na música erudita derivam de canções populares ou litúrgicas européias que foram trabalhadas tecnicamente por seus compositores. O que faz as pessoas gostarem mais da música popular é o fato de ela ser mais simples que a erudita. Geralmente são melodias e letras fáceis de se memorizar e cantar”.

O punk é pop

Partindo dessas afirmações feitas, é possível chegar-se a pelo menos uma verdade sobre os fenômenos pop e indie rock: eles estão intrinsecamente ligados. Tentar separá-los como dois movimentos musicais extrínsecos é tarefa tão árdua quanto distinguir, num show dos Yeah Yeah Yeahs, quem é a Karen O. original e quem são suas cópias.

O indie rock está dentro do pop por ter se originado a partir do pop e, para se desvincular da produção comercial massificante que representa o pop, algumas bandas optaram por fazer seu trabalho de maneira alternativa. O indie, pelo menos em teoria, vai na contra-mão das tendências e do fluxo pop. Será?

A atitude independente do “faça do jeito que você bem entender” não é novidade no meio musical. O punk rock representava na década de 70 esse posicionamento contrário a tudo o que se tinha como “bom”, “harmonioso” e “belo”. Por mais que se tente negar tal semelhança e separar em blocos definidos o punk e o indie rock, não há como contestar que o indie foi uma recriação do punk a partir dos anos 80. Guardadas suas respectivas particularidades (o indie, por exemplo, não tem nem nunca teve uma preocupação social nem de ruptura) e preservando o contexto histórico, político, social, econômico e cultural em que cada um dos segmentos surgiu, é possível então estabelecer essa relação incestuosa entre o punk e o indie rock.

E neste século 21, de tantas informações, rapidez, cores e estilos, pode-se dizer que a indústria da cultura transformou o punk em pop. E o indie digeriu rapidamente essa batida.

Indie vs. Pop

Ao pop ainda estão ligadas algumas definições pejorativas e de características mais comerciais. Bandas com clipes veiculados pela MTV, que tocam nas rádios ou que estão em uma grande gravadora freqüentemente são designadas como pop. “O pop pode abranger desde uma banda eletrônica ou um grupo de rap até uma banda de rock. Ela se torna pop a partir do momento em que começa a fazer sucesso na mídia”, declara Rodrigo Guedes, vocalista do Grenade. E ele vai além: “O pessoal critica muito essas bandas novas de rock que estão no topo hoje, como White Stripes, The Hives e Strokes. Mas elas têm uma função muito legal, que é a de derrubar as ?boys bands?, por exemplo. É interessante que se tenha bandas como essas fazendo sucesso”.

Guedes critica ainda aquela atitude mais egoísta dos fãs de bandas alternativas: “Indie é aquele cara dodói. Quando alguém descobre a banda da qual ele tanto gosta, ele fica doído e pensa que ninguém mais tem o direito de conhecer aquele som. Aí o cara pára de ouvir a banda e vai procurar uma outra que seja mais obscura ainda”.

Luiz Pimentel, editor da revista Zero, admite que “às vezes pode se levar o termo pop para um lado pejorativo. Mas existem bandas tão boas dentro do alternativo quanto dentro do mainstream”. Marco Bezzi, também jornalista da Zero, acrescenta: “Existem coisas legais sendo feitas nas grandes gravadoras, só que às vezes as pessoas fecham os olhos pra isso”.

Sem muita credibilidade

Lucio Ribeiro, da Folha, também partilha dessa opinião e é taxativo: “Para algumas pessoas que se dedicam à música, o pop é lixo e o indie rock é algo que presta e que deve ser levado a sério. Strokes é uma banda pop porque tem apelo popular. Mas eles agradam tanto à camada indie quanto ao mainstream”.

A discussão em torno do assunto vai longe. É melhor puxar uma cadeira e sentar para ouvir todo o papo.

É evidente. Em qualquer show de artistas ou bandas pop, a grande maioria do público presente são jovens. Ao adentrar o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no final de outubro, quando estará acontecendo o tão esperado Tim Festival, olhe ao seu redor e confirme: a platéia é composta principalmente por adolescentes e pessoas de “vinte e poucos anos”. A mídia conhece muito bem essa inclinação do jovem pelo pop, e por esse mesmo motivo ela se especializa cada vez mais nesse assunto que faz parte do seu cotidiano. Ela pode mudar ou aprimorar seu projeto gráfico e até adaptar sua linguagem, a fim de seduzir os leitores ávidos por informações de qualidade (ou quantidade) a respeito de seus ídolos, ícones instantâneos do fenômeno pop atual.

No entanto, neste Brasil de 2003, não há muitas publicações nacionais destinadas à música pop nas bancas. Além das revistas publicadas por rádios e emissoras de TV e que servem mais como publicidade do que como informação, existe hoje apenas a revista Zero, em circulação há um ano e meio. Fora isso, encontram-se críticos musicais escrevendo em colunas de jornais de grande tiragem e inúmeros aventureiros proferindo suas opiniões em blogs e e-zines na internet. A participação da internet na divulgação de informações sobre a cultura pop é importante, mas por se tratar de um veículo de comunicação ainda não consolidado e com acesso bastante restrito ? principalmente em um país como o Brasil ? não há como lhe atribuir muita credibilidade jornalística.

Show pela internet

O que resta ao leitor brasileiro são opiniões não muito diversificadas sobre um tema de interesse mundial, e com importância cultural, econômica e sociológica, já que o jornalismo musical feito em nosso país está restrito a apenas algumas parcas publicações, e que muitas vezes ainda não têm circulação nacional. Afora esse problema, o preço dessas revistas também costuma afetar ? e muito ? o alcance desses meios (mas esta já é uma outra história).

No entanto, esta não parece ser a opinião de alguns conhecedores de música pop. Muitos deles consideram a internet o principal veículo, hoje em dia, de divulgação de informações desse tipo de cultura. A possibilidade da troca de arquivos em mp3, a rapidez do fluxo das informações e o acesso relativamente fácil, simples e barato a fatos do mundo inteiro causam fascínio nos consumidores pós-modernistas. E esse fascínio é um tanto quanto perigoso, pois faz com que o espaço virtual seja supervalorizado.

Lucio Ribeiro acredita que a crítica de música pop precisa “fazer as pessoas se movimentarem. Antigamente a crítica era mais difícil, mas agora ela está mais simples de ser feita porque existe a internet. Hoje, com ela você pode ler uma crítica sobre um disco e baixar as músicas na hora, pra saber se o som é realmente bom”. O aspecto positivo da web, para Lucio, reside no fato de que ela permite ao leitor uma maior criticidade em relação ao que está sendo produzido no jornalismo musical. Com a internet, o leitor/consumidor pode simplesmente fazer o download de um arquivo de música e concordar ou discordar da opinião do crítico.

Rodrigo Guedes acredita que a internet possibilita um maior acesso à informação. “Na minha época, a informação que você tinha era ir para a galeria do rock comprar disco. Hoje você tem a internet e, antes do disco ser lançado, a pessoa já pode ter todas as músicas do álbum em seu computador”. Além disso, com a quantidade de dados disponíveis na rede, “o crítico tem muito mais base para falar. Se ele quer ver como funciona uma determinada banda ao vivo, ele pode ver seu show pela internet. A crítica da música independente no Brasil está se formando, e com o tempo nós vamos ter uma crítica consistente como a dos EUA”.

No mainstream brasileiro

Contrapondo-se a essas opiniões otimistas em relação à web, Luiz Pimentel aponta um outro lado do “efeito” internet: “eu tenho particularmente uma briga grande com a internet, pois parece que todo mundo virou crítico musical. Se você tem uma opinião sobre algum disco e a escreve, você já se tornou um crítico. Para alguém ter capacidade para a crítica musical é preciso que tenha fundamento por trás, tem que saber elaborar uma matéria, concatenar as idéias, tem que saber métodos bons de apuração e apresentar tudo isso da melhor maneira possível. A internet banalizou a figura do crítico”, analisa.

Fernando Barros concorda que a internet é um veículo importante para a disseminação da cultura pop, por permitir que bandas independentes lancem seus trabalhos sem estarem veiculadas ou presas a contratos com gravadoras grandes, e podem assim superar também o pouco espaço físico destinado às bandas nacionais nas publicações brasileiras de música: “Hoje, mais uma vez por causa da internet, as bandas têm a possibilidade de fazer uma boa divulgação sem a ajuda da grande imprensa”.

Em relação ao espaço destinado às bandas brasileiras e independentes nos veículos tradicionais de comunicação, as opiniões também nem sempre se convergem. Alguns críticos consideram o espaço suficiente, outros não julgam que seja bem aproveitado.

Charlie Brown Junior, Skank, Jota Quest, O Rappa e outras bandas nacionais já respaldadas por grandes gravadoras conseguem com certa facilidade entrevistas, capas de revistas de música e primeiras páginas em cadernos de cultura. A infra-estrutura que existe por trás de uma gravadora como a Geffen, por exemplo, o esquema de distribuição dos CDs e mesmo a veiculação de suas músicas nas rádios ? sendo jabá ou não ? permitem que o público desses grupos tenham acesso facilitado às informações que envolvam tais bandas. Os grupos citados fazem parte do mainstream brasileiro, e publicações com fotos dessas bandas nas capas certamente trazem retorno financeiro às editoras. No entanto, o tipo de material com que mais se depara nas publicações nacionais sobre música é o estrangeiro. Publicam-se inúmeras reportagens sobre a música pop feita no exterior. Nomes como os já comentados Strokes, bandas e artistas como Vines, Radiohead, Coldplay, Miss Kittin, Kings of Leon e White Stripes freqüentemente fazem parte das principais notícias musicais nos produtos de comunicação brasileiros.

Questão de tempo

Essa superexposição na mídia gera ? não só aqui no Brasil, mas no mundo ? o tão famigerado fenômeno do hype. O que de prejudicial acontece com o jornalismo musical brasileiro é que, muitas vezes, alguns profissionais deixam-se levar por esse hype estrangeiro e acabam reproduzindo no Brasil os discursos norte-americano e europeu ? principalmente o da Inglaterra ? que não condiz com a realidade brasileira. Luiz Pimentel e Marco Bezzi concordam: “Muitos críticos se pautam pelas revistas e semanários ingleses. Isso não é legal. Compra a fonte então, que é mais fácil. Viciou-se muito nisso, hoje em dia”, brada Marco. Pimentel continua: “Essa atitude acabou gerando também uma rejeição à produção nacional”. Além da rejeição ao produto nacional, ao reproduzir o discurso estrangeiro, reproduz-se também uma condição sócio-econômica e cultural que não condiz com o cotidiano do brasileiro. Quando se fala que o Room on Fire dos Strokes é uma aquisição essencial no ano de 2003, presume-se que todos os leitores, ouvintes e telespectadores possuam dinheiro suficiente para desembolsar cerca de 27 reais e comprar o álbum? E se não for pra comprar o álbum, presume-se que essas mesmas pessoas têm acesso à internet e podem fazer o download das músicas em seus computadores?

Afora a atenção exagerada que é oferecida aos artistas internacionais, nota-se que se dedica maior espaço a algumas bandas pop nacionais. Capital Inicial e Detonautas têm lugares cativos, enquanto bandas como o Grenade, Leela e Cachorro Grande, por exemplo, que também fazem música pop mas estão ligadas a selos independentes, já não merecem o mesmo destaque. “O espaço é muito pequeno. Se for pensar em música desde a MPB até o eletrônico, e mesmo os indies, é pouca gente para escrever sobre tudo isso, e pouco espaço pra divulgar nos veículos”, pondera Rodrigo Guedes. Bianca Jhordão, vocalista do Leela, também acredita que “para as bandas grandes há bastante espaço, mas para os artistas novos, há pouco. Mesmo porque estes artistas não vendem jornais”.

Já Lucio Ribeiro afirma que as bandas nacionais alcançarão seu espaço na mídia com uma questão de tempo: “Quem é bom aparece. Quem não é bom, não aparece. Bandas brasileiras penam um pouco porque aqui não existe uma cultura rock, pop ou eletrônica. Aqui a gente tem o futebol nas veias, então é muito mais fácil desenvolver times de futebol do que bandas de rock. Mas se você tiver uma banda boa, pode ter certeza, você vai se sobressair de alguma forma”. Entretanto, se existe apoio e incentivo às bandas nacionais, estes não são suficientes para que se destaquem um pouco mais nas publicações musicais brasileiras. As dificuldades financeiras também são um grande obstáculo para que bandas independentes possam se sustentar no mercado. O Lobão é uma exceção aqui no Brasil.

Pop e postura

Rob Fleming e seus Top Five representam um tipo de comportamento bastante comum hoje em dia. Personagem do livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby, Rob acredita que “não adianta fingir que um relacionamento tem futuro se as suas coleções de discos discordam-se violentamente”. Essa visão um tanto quanto fatalista das relações amorosas pode ser traduzida de uma outra maneira: “diga-me que música ouves e te direi quem és”. Claro que as relações não se dão bem dessa maneira, tal afirmação apenas relaciona-se a um estereótipo do comportamento dos fãs de música pop, mas é fato que existe sim uma simbiose entre pop e comportamento. Ambos andaram de mãos dadas no decorrer da história: de Elvis Presley ao mais modernoso electro pop à la Peaches, esse estilo de música influencia a maneira de se vestir, pensar, encarar o mundo e de se relacionar com outras pessoas. O pop e o rock sempre tiveram seu lado transgressor, seja nos cabelos volumosos dos Beatles ou nos moicanos dos Sex Pistols.

É unanimidade admitir o quanto a música está imbricada no comportamento e vice-versa. “Basta ir até a galeria do rock em São Paulo para comprovar isso. É possível encontrar uma turminha com camisetas de bandas de metal, um pouco mais adiante dá pra topar com outra galera usando camisetas de bandas góticas. Alguns andares acima é possível encontrar alguns punks. Isso sem falar no pessoal que curte black music. São várias tribos formadas a partir de determinados gostos musicais e que são influenciadas no seu dia-a-dia”, exemplifica o jornalista Rodney Brocanelli. Lucio Ribeiro também fala sobre a relação entre música e comportamento: “Dentro de uma concepção de música pop, há a cultura do rádio, de sair à noite, de andar na rua e ir a uma loja de discos. A moda e o estilo captam você. Você vai querer ver na MTV, vai querer ler as entrevistas, vai sendo influenciado de alguma forma por tudo o que move a música”.

O editor da Zero, Luiz Pimentel, afirma que essa influência de um sobre o outro restringe-se aos adolescentes: “As pessoas acabam se relacionando mais com quem tem uma sintonia musical semelhante à sua. De modo geral, você acaba sendo atraído e atraindo esse tipo de relação muito baseado em música, principalmente os adolescentes”. Rodrigo Guedes lembra o fenômeno que aconteceu recentemente, do rock pós-Strokes: “Quando uma cultura pop estoura, assim como aconteceu agora com essa cultura de Nova Iorque, isso acaba influindo em todo o comportamento de uma juventude. O cara que estava até um tempo atrás falando de techno, da noite para o dia virou roqueiro de jaqueta, e incorporou aquilo”.

O Grenade é indie

Grenade é uma banda que tem história. Não apenas como Grenade simplesmente, mas desde quando seu vocalista, Rodrigo Guedes, tocava com o Killing Chainsaw.. Para quem viveu o grunge, no começo da década de 90, esse nome vai soar familiar. O Killing Chainsaw era considerada pela mídia a banda brasileira representante do grunge.

Nas palavras do próprio Guedes: “O Killing Chainsaw acabou em 94, com dois discos lançados. Naquela época nós tivemos uma sorte muito grande que foi o grunge. Quando ele estourou a gente conseguia capa de Ilustrada, mesmo sem disco. A gente conseguia capa de tudo quanto é jornal e revista, mas nunca entrevistaram a gente. Adoravam usar nossa foto como ?a banda grunge brasileira?. É como se hoje existisse uma banda que fosse comparada ao White Stripes aqui”.

No entanto, depois de um contrato mal-sucedido com uma grande gravadora, a banda, que era de Piracicaba, interior de São Paulo, deixou de lado suas atividades e Rodrigo se mudou para o Paraná. O Grenade, antes de se tornar uma banda no sentido tradicional da palavra, era uma espécie de projeto solo lo-fi de Rodrigo. Dessa maneira o Grenade lançou três trabalhos: A Child?s introduction to Square Dancing, Grenade is an out of Body Experience e Shortwave Young Love Kingdom.

Foi durante o ano de 2000 que Guedes se juntou a Eric, Paulo e Eduardo: “foram dois anos de ensaios, shows e mais de duas dúzias de músicas novas até acharmos que, agora sim, somos uma banda de rock”. É o texto que finaliza o release on-line do Grenade em seu sítio oficial. A banda paranaense está prestes a lançar seu mais novo trabalho, Grenade, pelo selo indie Slag Records.

Rodrigo finaliza: “Eu sou indie. Estou há dez anos fazendo isso, e não pretendo ir pra uma gravadora grande”. Em tempo: a outra metade do finado Killing Chainsaw também está viva, com uma banda chamada Plutonika. Mas eles ainda não possuem álbuns lançados.

(*) Jornalista; a reportagem acima é seu Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em Comunicação Social-Jornalismo, apresentado na Unesp de Bauru (SP) em dezembro de 2003

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