Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > RENÉ DREIFUSS (1945-2003)

O professor e os rigores do método

Por Gustavo Gindre em 30/12/2003 na edição 257

No domingo, dia 4 de maio, faleceu René Armand Dreifuss.

Conheci o autor René Dreifuss quando ainda estava no segundo grau. Li espantado o seu livro A internacional capitalista, no qual ele constrói o cenário de atuação de uma elite orgânica transnacional capaz de planejar e executar a gerência do capitalismo. Já cursando Jornalismo, tomei contato com livros fundamentais para entender a história recente de nosso país, como 1964: a conquista do Estado e O jogo da direita na Nova República.

Nesses livros, além daquilo que estava escrito, aprendi, como jornalista, com o método de René. Em primeiro lugar, sua capacidade para fazer pesquisa e de levantar dados onde aparentemente não havia nada. Mas aprendi especialmente com a sua destreza de relacionar os fatos, de montar um mosaico onde nós só percebíamos um monte de peças desconexas.

Esse era o pesquisador René Dreifuss, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre pela Universidade de Leeds, doutor pela Universidade de Glasgow, investigador associado do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e membro de uma infinidade de associações de pesquisa no Brasil e no exterior. René era um nome conhecido no meio intelectual e prestigiado como especialista em geopolítica e assuntos militares.

Em 1997 tive o prazer de conhecer também o homem René Dreifuss. Entrei em contato para fazer uma entrevista sobre seu livro recém-lançado A época das perplexidades, no qual ele analisa as mudanças no capitalismo a partir das estratégias que reúnem Estados e gigantescas transnacionais em torno do domínio das novas tecnologias.

René me convidou para almoçar em sua casa e aquele dia marcou o início de uma grande amizade. Em seguida, participou de minha banca de mestrado e me convidou para trabalhar no Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais, que ele estava criando na Coppe-UFRJ junto com Luiz Pinguelli Rosa e de onde se afastou por conta da doença.

Foi, então, que eu descobri uma pessoa simples que, ao contrário de muitos intelectuais que conheci, não fazia de sua posição um instrumento de poder. Alguém que estava sempre disposto a conversar sobre qualquer assunto, ensinando como quem bate papo.

Conheci também o marido apaixonado e dedicado (o que qualquer pessoa descobria assim que via seus olhos brilhando ao falar sobre a esposa, Estrela). Amor que só rivalizava com o que sentia pelo filho, Daniel.

Pesquisador dedicado

Tive o prazer de experimentar um pouco daquela mente sempre disposta a ver o que se escondia por detrás da superfície dos fatos, e incansável em sua capacidade de trabalhar. Mas também me flagrei admirando sua dedicação a coisas simples, como o imenso aquário de sua casa e a confecção de molhos estranhos e saborosos.

René não se deixou abater pela doença que lhe chegou de forma absolutamente inesperada. Pelo contrário, estava sempre traçando planos e falava de forma empolgada sobre sua recuperação. Conseguia, inclusive, tirar bons momentos de tudo isso, como o reencontro com amigos nos Estados Unidos (quando viajou para se tratar) e as conversas com os médicos.

Vi, também, como era querido pelos seus alunos que, na impossibilidade de ele dar aulas na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, se dispuseram a assisti-las no apartamento de René.

Nos últimos anos fiquei com a sensação de que René fazia um caminho interior, de busca pela suas raízes. Dedicava-se a montar sua arvore genealógica, que já estava com milhares de nomes e recuava centenas de anos no passado. E cada vez mais conversávamos sobre as tradições do judaísmo. Um marco deste retorno foi, com certeza, sua ida ao Uruguai (onde nasceu) para sepultar a mãe, sobrevivente do Holocausto.

Ele não poderá fazer o prefácio de meu livro e nem iremos ao restaurante japonês que combinamos. Eu marquei uma visita que não fiz, por conta de uma virose, e que jamais farei. Perdi um amigo e incentivador. O Brasil perdeu um de seus mais importantes intelectuais e um pesquisador dedicado a pensar os dilemas que vivemos neste complexo século 21. Mas, o mundo perdeu um homem bom e simples, que exalava um enorme bem-querer à sua volta. Alguém com a capacidade de nos fazer parecer melhor do que somos de fato.

Vai deixar saudades e fazer muito falta.

(*) Jornalista

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