Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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O projeto nacional de Última Hora

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

O SONHO DE WAINER

Antonio Hohlfeldt (*) e Carolina Buckup (*)


Texto do primeiro capítulo de Última Hora ? populismo nacionalista nas páginas de um jornal, de Antonio Hohlfeldt e Carolina Buckup, 255 pp, Editora Sulina, Porto Alegre, 2002; <www.editorasulina.com.br>, e-mail <ed.sulina@via-rs.nte>


Para que se possa bem avaliar o significado da história do jornal Última Hora/Rio Grande do Sul, precisa-se não apenas contextualizá-la na própria história brasileira quanto em relação à história do jornalismo brasileiro e sul-rio-grandense. Porque a Última Hora do Rio Grande do Sul, como de resto sua homônima carioca ? base das demais Última Hora?s que existiram, em São Paulo, Recife ou Belo Horizonte, só para citar algumas delas, definiu-se desde logo como um jornalismo participativo, atuando especialmente no campo do jornalismo opinativo e do jornalismo interpretativo, para usarmos as categorizações normalmente evocadas pelos estudiosos do fenômeno jornalístico [BELTRÃO, Luis ? Jornalismo interpretativo: Filosofia e técnica, P. Alegre, Sulina. 1976; BELTRÃO, Luis ? Jornalismo opinativo, P. Alegre, Sulina. 1980. Ver, ainda, MEDINA, Cremilda ? Notícia, um produto à venda, S. Paulo, Summus. 1988, p. 78 ? a autora distingue, como os demais, entre jornalismo informativo, interpretativo e opinativo.].

Neste sentido, será importante lembrar-se que Cremilda Medina faz uma única e prática distinção entre os diferentes jornalismos: o Jornalismo de Tribuna, assim mesmo, com maiúsculas, e o Jornalismo Noticioso [MEDINA, Cremilda ? Op. cit. ps. 139-140]. O primeiro tem a tradição européia, caracterizado pela opinião. Teve seu desaparecimento decretado pela influência norte-americana do pós-II Grande Guerra. O segundo o substituiu, caracterizado pela industrialização que começara um século antes na Europa mas encontrara maior repercussão nos Estados Unidos, identificado pela produção pretensamente neutra e objetiva da informação. É também o momento em que se criam, a partir de 1947, os primeiros cursos de jornalismo no Brasil [LUSTOSA, Elcias ? O texto da notícia, Brasília, Universidade de Brasília. 1996, p. 72].

Tomando por base estudos de Fernando Henrique Cardoso a respeito do desenvolvimento do capitalismo brasileiro, em cujo contexto se coloca, evidentemente, a indústria cultural, Medina distingue, então, três sub-fases neste período mais recente: a primeira, que vai até 1962 e seria a de industrialização substitutiva de importação, em que o modelo norte-americano se torna referencial para toda a imprensa nacional, a partir de alguns grandes jornais [pode-se dizer, lato sensu que este período se sucede ao retorno de jornalistas bolsistas brasileiros nos Estados Unidos, que fazem as primeiras grandes mudanças estruturais em jornais como o Diário Carioca e o Jornal do Brasil. São eles, dentre outros, Danton Jobim, Alberto Dines, Samuel Wainer, Carlos Lacerda, Pompeu de Souza, etc. Pode-se consultar, a propósito, ABREU, Alzira Alves de (org.) ? A imprensa em transição, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas.1996]. A outra estaria marcado pela implantação de indústrias de bens de consumo duráveis, mediante a diversificação da produção industrial [pessoalmente, identificaria este período com a decadência da cadeia dos Associados, a ascensão das grandes redes e, sobretudo, o princípio dos conglomerados de informação, reunindo as diferentes mídias como jornais e revistas, emissoras de rádio e de televisão, no mínimo. É o momento em que, sob a ditadura, dá-se o grande salto para a implantação das novas tecnologias que atendem, simultaneamente, aos interesses dos senhores da hora ? isto é, os militares ? e os empresários emergentes que, alcançando a confiabilidade daqueles, se tornam detentores destas novas empresas, como a Globo, SBT, Manchete, Abril, Veja, etc. A propósito, uma boa leitura é CAPARELLI, Sérgio ? Comunicação de massa sem massa, S. Paulo, Cortez. 1980].

Como a capitalização interna é insuficiente, entram significativos investimentos estrangeiros, bastando lembrar-se o episódio Time-Life/Globo [MEDINA, Cremilda ? Op. cit. 49]. A terceira, e atual, caracterizar-se-ia pela dinamização econômica por meio da exportação de produtos semifaturados e de alguns produtos acabados de consumo popular. No caso do produto midiático, pode-se falar sobretudo em produtos acabados de caráter popular, bastando citar-se as séries televisivas que a Globo e o SBT exportam/importam. Esta fase está marcada, igualmente, pela abertura de canais alternativos, o principal dos quais a www/Internet [se a primeira fase fez surgir os suplementos literários, a segunda idealizou os segundos cadernos e a terceira transformou-os em suplementos da indústria cultural. Ver, a propósito, HOHLFELDT, Antonio ? Jornalismo cultural, uma perspectiva in Continente Sul/sur, Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro. Novembro de 1996, n. 2, ps. 57-64].

É evidente que muitos historiadores desenvolvem diferentes abordagens da história da imprensa brasileira. Nelson Werneck Sodré, por exemplo, fala em quatro grandes fases [SODRÉ, Nelson Werneck ? História da imprensa brasileira, São Paulo, Graal. 1977]: a imprensa colonial, a imprensa da independência, a imprensa do império e a grande imprensa.

Sodré distancia-se do modelo de Jürgen Habermas, que distingue, na história da imprensa mundial, apenas três fases, que ele caracteriza enquanto a) pré-capitalista, que se limita a organizar o trânsito de algumas informações; b) a literária, quando, além da informação, passa a se incorporar a opinião; e c) a empresarial, marcada pela industrialização. Se aplicada ao Brasil, como o faz Fernando Lattman-Weltman [LATTMAN-WELTMAN, Fernando ? Imprensa carioca nos anos 50: Os anos dourados In ABREU, Alzira Alves de ? Op. cit., p. 157 e ss.], teríamos:

a) fase que surge em 1808, com a Gazeta do Rio de Janeiro, com a prestação de pequenas informações;

b) fase que se inicia com o surgimento das folhas oposicionistas, de nítido panfletarismo, já a partir do Correio Braziliense, naquele mesmo ano de 1808;

c) fase que se inicia na década de 50 do século XX, quando se reúnem as condições macroestruturais ideais para tal mudança.

Um autor mais contemporâneo prefere referir cinco diferentes momentos:

a) de 1808 a 1827, isto é, da chegada da Família Real ao país até o decreto de Dom Pedro I que extingue a censura prévia às publicações;

b) de 1827 a 1889, cobrindo pois o Império, em que temos um jornalismo eminentemente opinativo e partidário;

c) de 1889 a 1930, em que o jornalismo informativo começa a surgir, com a distinção entre a notícia e a opinião;

d) de 1930 a 1969, quando há uma modernização da empresa informativa, inclusive com a implantação do lead, trazido da experiência jornalística norte-americana, e a conseqüente diagramação;

e) de 1969 aos dias atuais, prevalecendo a cultura visual, imposta pela televisão, e a fragmentação é o padrão primordial da imprensa, inclusive entre os jornais [LUSTOSA, Elcias ? Op. cit., p.67].

Pode-se afirmar que Última Hora nasce, sob esta perspectiva, a partir de uma necessidade de modernização da imprensa brasileira. Samuel Wainer tivera este aprendizado fundamental. Já em 1937 idealizara uma revista que, a par da combatividade ideológica, preocupava-se igualmente com o aspecto estético da publicação. Era Diretrizes [ver, a propósito, a atenção carinhosa que Wainer dá à publicação em sua autobiografia: WAINER, Samuel ? Minha razão de viver, Rio de Janeiro, Record. 1988. Em especial, ps. 49/50 até p. 89. Também pode-se consultar ABREU, Alzira Alves de ? op. cit.]. Mais tarde, faria uma outra tentativa semelhante, com a revista Flan (abril de 1953), mas com pequena oportunidade de sobrevivência. Os tempos haviam mudado.

Jornalista brilhante, mas de origem pobre, pois cresceu no Brás, em São Paulo, numa comunidade judaica, Samuel Wainer, ao longo de toda a vida, emprestou seu talento para diferentes jornais e empresas, inclusive a rede Associada, de Assis Chateaubriand, mais tarde, um de seus maiores adversários. Não obstante, a partir da volta de Getúlio Vargas ao Catete, em 1950, viveu uma aventura diferenciada no jornalismo brasileiro, com a idealização de Última Hora.

O episódio é mais do que conhecido e pode ser lido detalhadamente tanto no seu livro autobiográfico quanto na recente obra de Jefferson Barros que faz, menos do que uma história da Última Hora gaúcha, uma interpretação sócio-política da mesma [BARROS, Jefferson ? Golpe mata jornal, P. Alegre, Já Editores. 1999]. Limitemo-nos, portanto, ao essencial e ao que nos interessa:

a) Getúlio Vargas, embora vitorioso nas urnas, estava enfraquecido social e politicamente. Sua administração necessitava não apenas de legitimidade quanto de apoio eficiente por parte daqueles segmentos sociais para os quais ele dizia governar, as classes populares. A perspectiva populista de sua administração, já estabelecida no período anterior, a partir de 1930, ainda que sob a tutela do Estado Novo, entre 1937 e 1945, permitira-lhe retornar ao poder pela eleição mas, ao mesmo tempo, obrigava-o a assumir e realizar as promessas feitas aos descamisados, já que se tornara, para eles, o Pai dos Pobres;

b) Samuel Wainer, por seu lado, descobrira um protetor, a quem certamente admirava e respeitava; mais que isso, encontrara uma motivação e uma desculpa para dar o grande salto: deixava de ser apenas um jornalista proletário e judeu, ainda que brilhante, para se tornar um empresário da comunicação, desafiando o fechado círculo das grandes famílias proprietárias dos principais jornais do eixo Rio-São Paulo que, em última análise, ditava não só a política jornalística do país quanto toda a política, enfim.

Casamento de interesses, a partir de uma entrevista que Samuel Wainer realiza com Getúlio Vargas, na fazenda do então Senador, em São Borja, e que antecipa o lançamento da candidatura do ex-ditador, até a posse de Getúlio como Presidente eleito, desenha-se um projeto: Getúlio Vargas precisa de um porta-voz. Samuel Wainer necessita de um financiador. No dia 12 de junho de 1951, Última Hora é lançada, com estardalhaço, nas bancas do Rio de Janeiro. Até 21 de abril de 1972, quando o título é vendido por Wainer, ela se tornaria uma pedra no sapato dos segmentos mais conservadores da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que contribuiria com profundas e radicais inovações formais. Reflexo, contudo, da mesma política pendular que caracterizara o populismo getulista, Última Hora, inclusive em suas diferentes ramificações regionais, oscilaria entre o nacionalismo, o populismo e o sensacionalismo. Na verdade, conceitos que não chegam a se opor completamente, eis que atuam em diferentes faixas epistemológicas: o nacionalismo enquanto uma ideologia política; o populismo enquanto uma prática política; e o sensacionalismo enquanto uma práxis comunicacional, capaz de viabilizar, mediante a legitimação das massas de seus leitores, tanto um quanto o outro. Em nome do nacionalismo, Última Hora defendeu causas como a criação da Petrobrás; em nome do populismo, manobrou à vontade a perspectiva governamental com que traduzia os acontecimentos para seus leitores; em nome do sensacionalismo, revelou jornalistas, desenvolveu técnicas editoriais e inovou na linguagem jornalística.

Uma das grandes novidades trazidas por Última Hora foi justamente a regionalização. Diferenciando-se dos Associados, na medida em que Assis Chateaubriand fora adquirindo jornais, revistas, emissoras de rádio e depois de televisão, sem lhes dar uma identidade específica, própria e diferenciadora, Samuel Wainer desdobrou a Última Hora carioca numa série de Última Horas, mas sempre guardando uma só e única identidade: em São Paulo, primeira experiência, ainda sugerida por Getúlio Vargas, entre 18 de março de 1952 e 1972 [estritamente falando, a Última Hora de São Paulo morreu no dia 1? de abril de 1964, porque foi imediatamente empastelada. Mas Wainer passou o jornal a amigos, depois ao Grupo Frias ? da Folha de S.Paulo, com quem ficou até 1968, e a partir daí o jornal foi morrendo melancolicamente]. Belo Horizonte, Recife, Curitiba e, enfim, Porto Alegre, seriam outras iniciativas. E apesar de todos os desafios e dificuldades enfrentados, quer durante a crise de 1954, após o suicídio de Vargas, quer depois de 1964, quando sobreveio o golpe de 31 de março, Última Hora cumpriu o programa que seu fundador lhe idealizara. Por isso, significativamente, Samuel Wainer pode escrever, referindo o modo pelo qual seu jornal desapareceu, a 21 de abril de 1972:


Às 12 horas do dia 21 de abril de 1972, quando saí do escritório de Maurício Alencar, a Última Hora já não era minha. A próxima edição seria rodada nas oficinas do Correio do Manhã, com outra linha editorial, outra equipe, outra alma. Fui para o prédio da Última Hora e convoquei meu pessoal para comunicar-lhe o desfecho de um capítulo importantíssimo da história do jornalismo brasileiro. Depois, sozinho no prédio vazio, dei-me conta de que a minha grande aventura terminara [WAINER, Samuel ? Op. cit., p. 281].


Talvez o nome Última Hora tenha perdurado, mas não mais o projeto. Na verdade, entrava-se em uma nova fase na história da imprensa brasileira, a da consolidação das grandes corporações multimídia, conforme registro de um estudioso [WAINBERG, Jacques ? A morte de jornais centenários e o caso do Rio Grande do Sul in MOUILLAUD, Maurice et PORTO, Sérgio Dayrell (org.) ? O jornal: Da forma ao conteúdo, Brasília, Paralelo 15. 1997, p. 409]. O jornal circularia ainda até julho de 1991, quando faliu. Foi o último daqueles títulos surgidos na década de 50, a interromper sua circulação [LATTMAN-WELTMAN, Fernando ? Imprensa carioca nos anos 50: Os anos dourados in ABREU, Alzira Alves (org.) ? A imprensa em transição, op. cit., p. 179].

“O lançamento da Última Hora constituiu um marco na história da imprensa brasileira”, afirma um historiador [AMARAL, Luiz ? Jornalismo, matéria de primeira página, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.1982, p.67], sobretudo porque identifica o verdadeiro início da fase industrial de nossa imprensa, repartindo esta perspectiva com dois outros jornais, o Diário Carioca e a Tribuna da Imprensa [AMARAL, Luiz ? Op. cit., p. 231] .

O mesmo ocorreu com a Última Hora do Rio Grande do Sul, sediada em Porto Alegre, a partir de onde circulou entre 15 de fevereiro de 1960 e 25 de abril de 1964, ainda que só tenha deixado de existir, oficialmente, seis anos depois, a 25 de abril de 1970, quando o controle acionário do jornal, até então dirigido por Ary de Carvalho, é assumido por Maurício Sirotsky, ao que parece, numa bem urdida manobra que teve a participação de Aron Birman, presidente da Crefisul. Pode-se reconhecer duas fases diversas na história do jornal. A que nos interessa é aquela entre 1960 e 1964. A outra é apenas pálido reflexo, apesar dos eventuais esforços de Ary de Carvalho, que a herdara, inclusive por decisão do próprio Wainer. O jornal de Porto Alegre, a exemplo do carioca, chegou mesmo a crescer, do ponto de vista econômico e financeiro, até o momento em que trocou mais uma vez de mãos. Mas já não era mais aquela Última Hora como Wainer a havia idealizado.

Nosso trabalho vai abordar a Última Hora sul-rio-grandense original. Para tanto, vamos desdobrar a pesquisa, primeiro, contextualizando o jornalismo sul-rio-grandense. Depois, analisar as conquistas trazidas por Última Hora à nossa prática jornalística: para isso, vamos fazer uma abordagem morfológica, mostrando não apenas a composição do jornal quanto a formação de sua equipe, as colunas produzidas, as inovações proporcionadas e, sobretudo, os desafios ultrapassados.

Ao mesmo tempo, e através das principais manchetes da primeira página, vamos levantar o conjunto de informações e o ponto de vista das mesmas, pelo modo com que o jornal as transmitiu a seus leitores, no âmbito internacional, nacional, regional e municipal.

Por fim, proporemos ao leitor uma discussão sobre o projeto Última Hora. Os depoimentos colhidos, não apenas para este livro, quanto para o trabalho já anteriormente mencionado de Jefferson Barros, problematizam o enfoque com que normalmente nos aproximamos do jornal, enquanto nacionalista, populista e sensacionalista. Seus jornalistas remanescentes preferem falar em jornal popular, o que significa enfrentarmos uma categoria a mais em nossa análise. Para tanto, buscamos um embasamento teórico que consideramos o mais pertinente possível: de um lado, a pragmática, tal como é concebida por Teun A. van Dijk [DIJK, Teun A. van ? La ciencia del texto, Barcelona, Paidós.1983], no Brasil aplicada por Manuel Carlos Chaparro [CHAPARRO, Manuel Carlos ? Pragmática do jornalismo, São Paulo, Summus.1994.]; de outro, a utilização do conceito de dispositivo, matriz em que se inscreve um texto, no caso, o texto jornalístico, na acepção de Maurice Mouillaud [MOUILLAUD, Maurice et PORTO, Sérgio Dayrell (Org.) ? O jornal ? Da forma ao sentido, op.cit. nota 15].

(*) Doutor em Letras e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-RS

(**) Jornalista

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