Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > DEMISSÃO NA CÁSPER LÍBERO

O protesto de alunos e professores

Por lgarcia em 15/01/2003 na edição 207

DEMISSÃO NA CÁSPER LÍBERO

Coletivo de professores e alunos da Faculdade Cásper Líbero (*)

Aos amigos da Cásper Líbero

Na manhã de 20 de dezembro, penúltimo dia do período letivo, o diretor da Faculdade, Erasmo de Freitas Nuzzi, demitiu sumariamente o coordenador de Jornalismo, Marco Antonio Araújo. Alegou "quebra de confiança" ? embora o cargo seja eletivo (no caso, pela unanimidade de votos dos professores) e não "de confiança". A demissão não foi apenas das funções de coordenador, mas também das de professor da Faculdade ? sem que nenhuma queixa ou acusação contra o seu desempenho docente tivessem sido levantadas. Em maio próximo, Marco Antonio completaria 11 anos como funcionário da Fundação Cásper Líbero. Era professor titular de Jornalismo Opinativo.

As razões para esse ato de arbítrio e violência não são segredo para os que acompanham os bastidores da política casperiana. Nos últimos sete anos, a coordenadoria tem sido um foco de luta contra o pacto da mediocridade no ensino superior brasileiro e, em particular, na Cásper Líbero. Nesse período, foi implantado um projeto de excelência, fundado em severos padrões de exigência mútua entre alunos e professores, hoje reconhecido nacionalmente.

É óbvio que o curso de Jornalismo da Cásper Líbero é o mais procurado do País por conta de seu notável corpo docente, incluídos aí professores da Coordenadoria de Cultura Geral, e da expressiva produção laboratorial dos alunos. Ridículo seria considerar que o sucesso do curso advém de seu obsoleto laboratório de TV, do vergonhoso estúdio de rádio, das salas insalubres ou dos corredores apinhados de estudantes. Essa equipe de profissionais militantes, movida pela mais transparente paixão pelo jornalismo, sempre incomodou os medíocres.

Esse projeto teve a enfrentá-lo uma conjuração de burocratas, nulidades intelectuais, bajuladores de ante-sala e demagogos de corredor. No último semestre, o conflito se agravou.

Enquanto a Diretoria da Faculdade adotava solitariamente medidas infelizes e precipitadas que apontam para a mercantilização e mediocrização do ensino ? abrindo um fracassado curso de Turismo que ninguém pediu para existir, permitindo que a pós-graduação se deteriorasse ao ponto humilhante de ser descredenciada pelo MEC ?, todos os professores da Coordenadoria de Jornalismo opuseram resistência ao injustificável aumento do número de alunos por sala de aula. Unidos aos estudantes, reagiram de forma imediata e enfática ao que era um nítido passo no rumo da massificação. O movimento foi vitorioso. A proposta de aumento das vagas foi retirada publicamente, na última reunião da Congregação da Faculdade, órgão máximo de deliberação democrática. Naquele momento, o professor Erasmo de Freitas Nuzzi chegou a ser congratulado publicamente pelo desfecho do episódio.

Não havia sido o desfecho, porém.

Tentou-se reverter o compromisso publicamente assumido. O diretor da Faculdade, a vice-diretora, Teresa Vitali, e seus subalternos recorreram ao uso sistemático da mentira, atribuindo sucessivamente às mais diversas causas e personagens as razões pelas quais o aumento de vagas era irreversível. Ainda assim, vencíamos.

Em claro sinal de retaliação, anulou-se o resultado democrático das eleições que faziam do professor Mario Vitor Santos o legítimo sucessor na Coordenadoria de Jornalismo. A essa nova provocação, a esse novo ato de hostilidade e truculência, era impossível não reagir. Todavia, buscava-se uma solução quando, no dia 20 de dezembro, caiu finalmente a máscara do diretor da Faculdade.

Demitindo o professor Marco Antonio querem deixar claro que o frágil e desarticulado plano de expansão ? de massificação ? da Cásper Líbero não tolera resistências.

Foi o último capítulo de um episódio no qual Nuzzi mostrou-se personagem falso, sorrateiro, adepto de métodos usados aos tempos da ditadura militar. Fingindo estar de acordo, descumpriu decisões das instâncias deliberativas da faculdade, fugiu à discussão, mentiu, manobrou à sombra contra as instituições.

A vice-diretora chegou ao ponto de revelar publicamente, diante dos estudantes reunidos com a Superintendência da Fundação no auditório Gazetão, que concordara falsamente com uma decisão da congregação apenas para "ganhar tempo".

O diretor aguardou o decurso de sua recente reeleição, quando precisava dos votos dos professores, para só depois mostrar sua verdadeira inclinação ditatorial.

Aguardou o final do ano letivo para, covardemente, demitir o coordenador de jornalismo e golpear mais uma vez a comunidade acadêmica casperiana, supondo que ela não teria como reagir.

Atemorizado, acha que conseguirá vencer pela ameaça e a intimidação. A baixeza de tais métodos não se coaduna com as tradições da faculdade. Após esses episódios, a presença de Nuzzi à frente da faculdade representa vergonhoso retrocesso, justamente nos tempos em que o país procura avançar em busca de novas direções. Quem pisoteia o regimento da faculdade não pode se propor a dirigi-la. Quem conspira contra a democracia não pode comandar justamente uma faculdade de comunicação.

Querem deixar claro que não há espaço para a discussão democrática na Faculdade. Querem deixar claro que alunos e professores devem calar-se diante da ingerência e da mentira.

Querem deixar claro que o que importa não é zelar pela formação de jornalistas cada vez melhores, mais críticos, mais atilados, mais proficientes do ponto de vista técnico, mais responsáveis e compromissados eticamente.

Querem deixar claro que ética, democracia, formação humanística, seriedade, nada disso importa na Faculdade. Que só há espaço para o arbítrio de alguns e a subserviência da maioria; que ali só serão premiados o carreirismo, a acomodação e a tacanhez.

Exortamos os professores e alunos de todas as coordenadorias da faculdade, bem como o corpo técnico-administrativo, a não se omitir diante dos ataques perpetrados contra as esperanças de excelência pedagógica e as instituições regimentais da faculdade.

Tais agressões não atingem somente a coordenadoria e o corpo docente de Jornalismo, mas buscam desmoralizar todas as coordenadorias indistintamente porque atentam contra as instituições regimentais que regulam a vida acadêmica.

Está em curso uma escalada que corrompe as intenções de Cásper Líbero ao criar a Fundação e a Faculdade. Os métodos atrabiliários são incompatíveis com os princípios que devem reger uma Fundação. São, na verdade, a sua morte.

Diante dessa demonstração de autoritarismo e estupidez, quem se omitir estará sendo fiador da destruição de um projeto coletivo em prol da qualidade de ensino. Professores e alunos, amigos e colegas precisam dar uma dura resposta a esse desmando. É preciso derrotar os medíocres.

(*) Não se identificam por medo de retaliação

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