Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ASPAS

O PT igual aos outros

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

TVE ? MS

Marta Ferreira (*)

João Qualquer é um sul-mato-grossense que mergulhou em sono profundo no meio da campanha eleitoral de 1998. Não teve tempo de assistir à eleição de Zeca do PT para o governo de Mato Grosso do Sul, numa desforra aos dois grupos políticos que, por mais de 20 anos, dividiram o poder no estado. Não foi à festa nas ruas de petistas e eleitores, nem viu o futuro governador prometer, entre lágrimas, que dali prá frente tudo seria diferente.

Este ano, João acordou. Aturdido, correu a escutar as notícias no rádio. Ouviu falar que o governador estava buscando alianças com partidos como o PFL, o PSDB e outros que sempre estiveram nas salas principais do Parque dos Poderes. Soube que a TV Educativa tinha mudado de direção, por andar meio desalinhada com as ações do governo. Recebeu a informação de que mais uma greve colocava em choque servidores e governo e, este último, ameaçava demitir e classificava de traidores os grevistas. Até aí, pensava que em dois anos e meio nada tinha se alterado. Tudo estava como dantes de seu sono misterioso.

Foi quando ouviu a última notícia: o governador Zeca do PT estava oferecendo aos funcionários descontentes com os salários a opção da porta da rua, ou melhor, do PDI (Programa de Demissão Incentivada). Neste momento, João teve duas lembranças. A primeira foi a da imagem, estampada nos jornais, do então deputado Zeca ajudando funcionários do Banco do Brasil a queimar a cartilha sobre o programa demissão voluntária da instituição, há alguns anos. A segunda foi do refrão da canção imortal de Chico Buarque, desancando a cabrocha que conheceu a boa vida e esqueceu dos amigos. João saiu a cantar: "Quem te viu, quem te vê…"

Relevância jornalística

Nessa breve ficção, nenhuma semelhança com a realidade é mera coincidência. O governo petista de Mato Grosso do Sul, não tivesse o PT no nome do governador, poderia, em várias ocasiões, ser confundido com qualquer outra legenda, a despeito da imensa propaganda que faz para se anunciar diferente dos outros. O embate, dentro do núcleo principal do governo, sobre a condução da TV Educativa sul-mato-grossense é um exemplo notório de que a prática da administração petista não é tão singular quanto o discurso propaga.

O PT sempre defendeu aos vários cantos do país uma política de comunicação pública livre nas emissoras financiadas com dinheiro saído dos cofres do Estado, advindo da carteira do contribuinte. Em vinte e tantos anos de existência, o partido do sempre presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva não cansa de criticar a ingerência política nesse tipo de emissora e seu uso como máquina publicitária dos governos.

Em Mato Grosso do Sul, desde que o PT assumiu o governo estadual, em 1999, as crises entre a TVE e a cúpula governista têm se mostrado uma dissonância desse discurso. Reclamações por parte de integrantes da cúpula governista de que a emissora "não cobre como deveria" as ações de interesse do governo não são poucas. Tentativas de domar a cobertura, também.

No final de 1999, a então diretora de programação Cássia Cortez foi demitida após a polêmica gerada com a veiculação de matéria mostrando um deputado do PTB, alinhado ao governo, proferindo palavrões em plenário. Excetuando a discussão sobre a pouca relevância jornalística do episódio, argumento usado para justificar a decisão, ficou claro que houve intervenção na programação da emissora e até censura, já que o assunto passou a ser vetado depois disso.

No poder

Na primeira semana de agosto deste ano, ao que tudo indica, a crise ganhou contornos mais radicais com a demissão de toda a diretoria da empresa. A jornalista Margarida Marques, que assessorou Zeca do PT durante sua campanha em 1998, foi trocada pelo presidente do PSB no estado, Valmir Correa, na presidência da TVE. Junto com ela, saíram os que eram responsáveis pela condução dos programas da emissora, jornalísticos e de entretenimento.

Na linguagem do governo, foi uma troca para que a TV mudasse seu rumo, considerado elitista, e passasse a ser mais popular. Para alguns dos demitidos, foi a tentativa final, a pouco mais de um ano das eleições, de ter na TV um aliado na disputa eleitoral de 2002.

Para quem tentar enxergar um pouquinho mais fundo na teia de apoios em costura para a disputa do ano que vem, foi também um arranjo político. O PSB é integrante da base de apoio do governador e está sendo cogitado para receber dois deputados estaduais com saída anunciada do ninho tucano. Um deles, Londres Machado, é tido com uma das figuras mais influentes da política estadual ? a quem, aliás, Zeca destinou parcela considerável de seu poder combativo quando era deputado estadual.

Hoje, como apontam os fatos, as coisas são diferentes. Em nome da "governabilidade" a administração petista amplia a um leque jamais imaginado seu espectro de companheiros. Para ficar onde os outros sempre estiveram, no poder, vale até esquecer um pouco o que se disse e escreveu, como já ensinou o sociólogo-presidente Fernando Henrique Cardoso, amigo recente de Zeca do PT. Como cantaria o João Qualquer: "Quem te viu, quem tê vê…"

(*) Jornalista

ASPAS

"Zeca do PT demite dirigente de TV educativa estadual", copyright Folha de S. Paulo, 1/8/01

"O governador de Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, demitiu anteontem à noite a diretora-presidente da TVE, Margarida Marques, e o gerente de jornalismo, Gerson Jara. Na semana passada, outros dois diretores da TV educativa estadual haviam sido dispensados.

Dois motivos pesaram na decisão, apurou a Agência Folha. O núcleo do governo, ligado a Zeca, avalia que a emissora mostra pouco as ações do governo.

Outro fator são as acomodações políticas para 2002, quando o petista deve tentar a reeleição. Os demitidos seriam ligados a setores mais à esquerda dentro do PT, contrários à política de ?alianças amplas?, que inclui até o PFL no Estado, defendida pelo governador para o próximo ano.

?O governo cobrava da gente o papel de assessoria, e a gente sempre negou, por motivos óbvios?, disse Ângela Kempfer, demitida na semana passada. A queda-de-braço causou pelo menos três grandes crises.

A mais recente ocorreu durante a campanha eleitoral de 2000. Segundo Jara, ex-diretor de jornalismo, a emissora fez uma reportagem mostrando que o vereador Paulo Pedra (PDT), à época candidato, distribuía títulos provisórios de terra. O PDT faz parte da coligação de Zeca.

O jornalista diz que recebeu ?ordem direta? do governo para que a reportagem não fosse ao ar.

Outro caso ocorreu no final de 99, quando deixou de ir ao ar uma reportagem da emissora sobre a votação de uma emenda que proibia o nepotismo. O governador tem parentes na administração -entre eles a mulher, Gilda, o irmão, Heitor, e Vander Loubet, sobrinho e assessor próximo.

A reportagem mostrava um deputado aliado do governo, Cícero de Souza, xingando manifestantes. O governador determinou que a reportagem não fosse mais transmitida e demitiu a diretora de programação Cássia Cortês.

Outro lado

O superintendente de comunicação do governo, Ronaldo Franco, disse que o governador Zeca do PT ?nem tomou conhecimento? da polêmica sobre a reportagem acerca da votação do nepotismo. Ele diz também que desconhece eventual ordem de censura à reportagem sobre o vereador."

    
    
    
          

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