Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O que esperar do jornalismo político

Por lgarcia em 20/11/2002 na edição 199

MÍDIA & GOVERNO

Luiz Egypto

Dois expoentes da crônica política brasileira, os jornalistas Villas-Bôas Corrêa e Milton Temer, este também deputado federal pelo PT-RJ, terçaram argumentos num debate pelas páginas do Jornal do Brasil, entre 5 e 13 de novembro, que, malgrado sua curta duração, pôde produzir algumas iluminações sobre a cobertura política do governo Luiz Inácio Lula da Silva e da próxima legislatura do Congresso Nacional.

O tiro de partida foi dado por Villas-Bôas no artigo "Não vou aderir", também reproduzido no sítio No Mínimo <www.nominimo.com.br> e na rubrica Entre Aspas da edição 198 deste Observatório [veja remissão abaixo]. No texto, Villas-Bôas defende que, no jornalismo político, "quem leva sua profissão a sério tem que perseguir, com a obsessão do fanático, a isenção, a imparcialidade", pois "delas depende a credibilidade que sustenta a confiança, o respeito da sua relação com o leitor, o ouvinte, o telespectador. O risco de giz que separa o jornalista do militante". E conclui: "Torço para que o presidente Lula faça um grande governo, realizando as mudanças dos seus compromissos de campanha. Não sou a favor nem contra. Simplesmente não vou aderir".

Em 10 de novembro, Milton Temer agarrou-se ao gancho oferecido por Villas para, citando expressamente o artigo dele, perguntar: "Onde estaria determinado que o contraponto da adesão é a isenção?" E prosseguia: "Nenhum articulista é isento. Ele pode originar sua interpretação em fatos ou dados concretos. Mas a conclusão sobre tais fatos ou dados, e de suas possíveis consequências, se dará a partir de parâmetros subjetivos que lhe são próprios. Ninguém é isento, a não ser quando se exime de tomar posição. Pode, no máximo, ser objetivo, desde que se limite à narração, sem passar à interpretação".

Em trépicla publicada em 13 de novembro, Villas-Bôas argumenta: "Na minha seara é nítida a linha que separa o militante do jornalista. A minha geração, a de Castellinho [Carlos Castello Branco] e de Heráclio Salles, conquistou o seu espaço nos jornais abrindo a vereda da imparcialidade, com o reconhecimento dos diretores e editores da diferença entre a linha opinativa dos editoriais e o noticiário objetivo dos fatos e a sua análise isenta, imparcial. E não posso, não devo, não quero mudar".

A troca de opiniões motivou cartas ao JB e um artigo do jornalista Augusto Nunes, diretor do jornal ? textos reproduzidos na rubrica Entre Aspas, da presente edição do OI. E também a formulação de três perguntas do Observatório da Imprensa, dirigidas aos dois contendores, cujas respostas são reproduzidas a seguir.

A imparcialidade no colunismo político é um mito ou uma meta? Se mito, como desmontá-lo? Se meta, como alcançá-la?

Milton Temer ? Não sei se é mito ou meta. Apenas não acredito em colunista imparcial. O que pode existir é repórter objetivo, diante de fatos concretos. Mas não de informação
política". Até porque se a informação é política, já se nega de pronto que seja um fato concreto, pois depende da fonte da informação. Essa fonte seria também "imparcial"?

Villas-Bôas Corrêa ? Minha geração, por um consenso que não quer dizer unanimidade, valorizou a imparcialidade como uma preliminar da credibilidade. Quando se vai analisar qualquer fato, qualquer assunto, polêmico ou não, é preciso se postar diante dele com absoluta imparcialidade, sem querer bancar um método semelhante ao famoso inquérito do Riocentro, conduzido pelo notório coronel Job Lorena, quando primeiro se escreveu a conclusão para, depois, redigir o relatório. O que distingue o jornalista imparcial do parcial é que o primeiro é capaz de chegar a qualquer conclusão. Já o jornalista parcial vai bordar comentários que defendam o seu ponto de vista. Posso dizer que fui dos primeiros a abandonar essa fórmula esquisita, muito usada durante a cobertura das eleições, quando se dizia, para fingir imparcialidade: "Se Lula for eleito…" Ao contrário, meses antes da votação do segundo turno eu dizia que Lula estava praticamente eleito, ou virtualmente eleito. E faria isso com a mesma desenvoltura se achasse que Ciro Gomes ou Garotinho, por exemplo, ganhariam as eleições. Não vou dar nome aos bois nem às bezerras, mas, na durante a campanha, ao ler as cinco primeiras linhas do texto de muitos comentaristas, de lá surgiam ou careca do José Serra ou a barba grisalha do Lula. Isto não é jornalismo político, é militância envergonhada.

No caso do noticiário, embora se requeira do repórter que este se exima de manifestar suas opiniões, o mesmo não se consegue exigir da edição, isto é, do produto jornalístico com o qual o público efetivamente terá contato. Títulos que brigam com matérias não são incomuns na mídia impressa, especialmente a diária. Cortes e colagens marotas de imagem e áudio pululam nas emissoras de rádio e TV. O que adianta o repórter buscar imparcialidade e isenção se os seus editores não se preocupam tanto com isso? Como superar o impasse sem perder o emprego?

Temer ? Sua pergunta já embute minha resposta. Vivi, como "fonte de notícia" essa situação muito freqüentemente, por ocasião do primeiro mandato FHC, e do desmonte do Estado transformado em religião incontestável. Ou seja: boa parte dos "repórteres imparciais" tinham imensa má-vontade com quem não aceitasse a premissa da "modernização incontestável contida na globalização irreversível". Constato agora que vários desses repórteres que me detestavam pela impaciência com que lhes respondia às perguntas preconcebidas são hoje bem mais receptivos ao reconhecimento da tragédia da herança do modelo.

Villas ? Nos meus 54 anos de jornalismo, não tenho notícias de um editor político que exigisse do repórter essa ou aquela posição. Antes, no período pós-Getúlio, a imprensa era, sim, ostensivamente engajada, antigetulista e udenista. Quando uma campanha política ia para as ruas, a cobertura era claramente parcial ? não que distorcesse os fatos, mas parcial no espaço que se dava e uma certa generosidade nos adjetivos empregados. Quando fui editor político do Jornal do Brasil, e chefe da sucursal do Rio do Estado de S.Paulo, sempre vetei matérias parciais. O jornalismo requer imparcialidade no julgamento das coisas: por exemplo, quem ganhou a convenção do partido tal? É preciso chegar a essa conclusão com critérios objetivos. Se não for imparcial você não está sendo jornalista. E se for assim, então vista a camisa do partido e vá para a torcida organizada. Mas não faça isso na arquibanca do jornalismo.

O que esperar do jornalismo político brasileiro na cobertura dos governos federal e estaduais eleitos? Qual seu melhor privilégio e seu maior risco?
Temer ? Espero que seja transparente. Que não invoque "imparcialidade" quando estiver fazendo análises ou interpretações, e que critique ou elogie com a mesma intensidade, desde que deixe evidentes os parâmetros sob os quais emite conceitos e análises.

Villas ? Pela primeira vez, desde a redemocratização de 1946, o resultado de uma eleição no Brasil mudou o eixo do poder. Foi eleito pelo voto direto um presidente que não apenas é de oposição, mas de um bloco de oposição que sempre fora derrotado. Agora, o centro conservador pela primeira vez perde uma eleição. E também pela primeira vez, desde 7 de outubro de 1965, quando o Ato Institucional n? 2 da ditatura extinguiu os partidos políticos, vai haver no futuro Congresso o retorno ao contraditório político entre governo e oposição. E com a novidade que, desta vez, o governo é de esquerda e o centro é de oposição. Por isso, penso que a reportagem política vai ter que se coçar muito e descobrir uma maneira de cobrir esse novo quadro. Teremos as bancadas do governo e da oposição quase do mesmo tamanho. E o jogo do poder vai ser muito difícil no Congresso. A reportagem política terá de dar conta disso.

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