Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > RIGOROSA ASSEPSIA

O que os olhos não vêem o coração não sente

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

RIGOROSA ASSEPSIA

Paulo José Cunha

Os estrategistas de Washington sabem que a manutenção da opinião pública americana em pé de guerra contra os autores do atentado terrorista e a favor do bombardeio ao Afeganistão depende de o festival de horrores da guerra não chegar às telas da tevê, pois isso poderia transformar em piedade o atual sentimento de revolta. Não é a toa a irritação do presidente George Bush com as manifestações pacifistas dentro dos Estados Unidos. Ele e seu time sabem que é muito tênue a linha que separa o sentimento de vingança da compreensão humanitária em relação à população civil de um país que, embora alimentada por doses industriais de fanatismo, é formada por crianças, velhos, mulheres, gente.

Por maior que seja a revolta, não se justifica um retorno à barbárie de considerar aceitável a carnificina em nome da honra enxovalhada. Grosso modo, é como um morador do Rio de Janeiro perder um parente num assalto e incentivar a polícia a invadir o Complexo do Alemão para metralhar todo mundo, mesmo sabendo que boa parte dos moradores colabora com o tráfico de drogas, responsável maior pela violência.

Por isso é tão fundamental o controle da mídia americana. Não apenas, como vem sendo anunciado, para garantir a segurança dos soldados envolvidos na operação, mas para assegurar que se mantenha em bom nível a mobilização popular. Washington já viu este filme. Nada pior, agora, do que ter contra si a opinião pública, como aconteceu na Guerra do Vietnã. Emissoras como a al-Jazira e eventuais free-lances oferecem risco grave ao esforço de uma cobertura no estilo da que marcou a operação "Tempestade no Deserto". Ali, calcula-se que mais de 100 mil iraquianos foram mortos, e nem por isso houve manifestações pelo fim dos ataques. As imagens do bombardeio guardaram rigorosa assepsia. Imagens de crianças feridas ou mortas e corpos ensangüentados, na era da hegemonia do visual, são mais perigosas do que palavras descrevendo um morticínio em massa. A imagem de uma única criança morta é uma tragédia. A tragédia de 200 mortos relatada com palavras é uma estatística. Mais ou menos como diz o ditado: o que os olhos não vêem o coração não sente.

Ainda assim, é preciso esclarecer um equívoco que tem levado alguns coleguinhas à condenação apressada da prática de "censura" pelo governo americano. Em primeiro lugar, em momento algum houve censura mas, sim, um pedido aos jornais e redes de tevê de autocontrole na divulgação de informações, em nome da segurança interna. Se, em tempo de paz, a Lei Ricupero ("o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde") já impera em toda parte, em tempo de guerra o filtro das informaç&otildotilde;es se fortalece ainda mais. Ingenuidade pensar que, em nome da liberdade de imprensa, as centrais de inteligência abram seus segredos e revelem suas estratégias.

Alinhamento sem justificativa

O que prevalece é a máxima de que, se o objetivo principal é ganhar a guerra, informar passa a ser objetivo secundário, principalmente se a informação envolver algum tipo de risco para o sucesso da operação. Esse cuidado se robustece em situações inusitadas como a atual, que demanda a utilização de métodos de ação militar heterodoxos e de eficácia ainda sujeita a confirmação (cabe invocar a Convenção de Genebra na guerra contra o terror?). É tarefa da imprensa, quando consegue furar o bloqueio, avaliar se deve ou não divulgar a informação obtida, considerando aspectos como o interesse público e a segurança interna.

É o mesmo raciocínio usado nos casos de seqüestro: informar, sim e sempre, desde que não coloque vida(s) em risco. Nada disso, entretanto, tem a ver com o ridículo de argumentar que as entrevistas de bin Laden não devem ser reproduzidas na íntegra porque o terrorista poderia estar usando a mídia ocidental para a transmissão de senhas e informações cifradas. Essa não colou. Em qualquer parte, com ajuda de uma parabólica, uma pessoa tem condições de captar a al-Jazira (a emissora de tevê com sede no Catar) e anotar improváveis "senhas" e "informações cifradas" de bin Laden. Não usaria a CNN para isso.

De qualquer forma, é fundamental manter acesa a atenção a tudo o que possa comprometer a livre difusão de informações e coloque em risco o pluralismo de opiniões. Nada justifica o alinhamento automático ao pensamento de Washington nem ao radicalismo islâmico. Por isso, é inteiramente inaceitável, na expressão de Luiz Fernando Verissimo, a "devoção patriótica inquestionável à pátria dos outros", seja qual for essa pátria. Da mesma forma, o jornalismo tupiniquim tem a obrigação de furar o bloqueio das redes de informação dirigida e oferecer a visão de todos os lados envolvidos. O público tem esse direito e a mídia, esse dever.

    
    
              

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