Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES & CULTURA

O que vêem e lêem os presidenciáveis

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ELEIÇÕES & CULTURA

Deonísio da Silva (*)

Folha de S. Paulo, domingo, dia 7 de julho de 2002. O título do caderno especial é Eleições 2002. Chamada: "Conheça a trajetória política de Lula, Serra, Ciro, Garotinho". A seqüência de fotos é imperdível, não apenas pelas antigas aparências: Ciro cabeludo, Garotinho barbudo, Serra com muito mais cabelos, Lula glabro e livre em 1969, no casamento, e barbudo e indiciado por liderar greves, em 1981, ao lado de glabros famosos como Tancredo Neves, Leonel Brizola e Ulisses Guimarães. Em 2002, barbas brancas, desbastadas e bem cortadas ao lado do seu vice glabro, José de Alencar.

E do texto ficamos sabendo certas preferências literárias e cinematográficas dos candidatos citados. Na p. 12 do caderno, sob a vinheta Os outros candidatos, dois pequenos textos sobre o tradutor, jornalista e professor Rui Costa Pimenta, candidato pelo PCO, e o operário metalúrgico José Maria Almeida, candidato pelo PSTU.

Lula gostaria de ter escrito Estrela solitária, de Ruy Castro, polêmica biografia de Manuel Francisco dos Santos, o fabuloso Garrincha, a alegria do povo, falecido aos 50 anos, em 1983. E o filme que o fez chorar foi O campeão, de Franco Zefirelli, 122 minutos do mais puro melodramón que narra duas disputas de um pugilista decadente que volta ao ringue e luta contra a ex-mulher pela guarda do filho. Lançado em 1979, com John Voight, Fay Dunaway e Ricky Schroder, que faz o papel do filho, a lacrimosa história já tinha ido às telas outras duas vezes: em 1931 e 1952.

Já o livro sobre Garrincha esteve proibido algum tempo porque familiares do biografado recorreram à Justiça. E, como sabemos, em nosso país é fácil proibir livros. Difícil é distribuí-los ou encontrá-los nas livrarias. Vencidas as duas etapas, vem o preço, alto em função das baixas tiragens. Quanto aos filmes, em muitos municípios os poucos cinemas que havia foram comprados por igrejas de seitas que ameaçam fortemente a ortodoxia católica, entre as quais cresce ano após ano a Igreja Universal do Reino de Deus.

José Serra gostaria de ter escrito Memórias póstumas de Brás Cubas, o clássico de Machado de Assis, ou Crime e castigo, de Fiodor Dostoievski. Do primeiro, a história de Brás Cubas, "um defunto autor, para quem a campa fora outro berço", que escreve "com a pena da galhofa e a tinta da melancolia". Do russo, a devassa psicológica na alma de Raskolnikov, que, depois das complexas reflexões sobre o direito de cometer um crime para o bem da Humanidade, acaba confessando a autoria diante do juiz Porfirio Petrovic.

O filme que fez com que José Serra chorasse foi A lista de Schindler, de Steven Spielberg. Lançado em 1993, narra em 185 minutos a história de um empresário que faz o que pode para salvar centenas de judeus poloneses das mãos dos nazistas. Ao contrário de Brás Cubas e Raskolnikov, Oskar Schindler não é um personagem de ficção. Há poucos anos, sua viúva, localizada no Chile, destoou do coro laudatório geral e espinafrou bastante o antigo marido. Mas, como nas brigas passionais, sobretudo entre cônjuges, há o ponto de vista do marido, o da mulher e o correto, multidões do mundo inteiro ficaram com o Schindler esculpido por Spielberg.

Nada nosso na memória

Ciro Gomes gostaria de ter escrito Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura em 1982. O principal motivo: "É muito fiel na complexidade da alma humana". O filme que o fez chorar foi Uma janela para o céu, de Larry Peerce, lançado em 1975. "É um filme antigo, bobinho", "era jovem, estudante", disse o candidato, acrescentando: "É raro que eu chore copiosamente como nesse dia chorei." Se for The other side of the moutain, narrando as peripécias do restabelecimento de uma jovem que sofre trágico acidente enquanto esquia, teve continuação em 1978 com a inevitável parte 2. Atuaram, entre outros, Marilyn Hassett e Beau Bridges na primeira vez. Na continuação, a mesma Marilyn, ainda paralisada, apaixona-se por Thimothy Bottoms.

Anthony Garotinho chorou com o filme O carteiro e o poeta, de Michael Radford, a tragicomédia envolvendo um carteiro, sua namorada e o poeta chileno, exilado na Itália, Pablo Neruda. E o livro que gostaria de ter escrito é Em seus passos, o que faria Jesus, de H. Sheldon.

A ditadura militar, que exilou José Serra e encarcerou Lula, encontrou 508 autores para proibir. Nenhum dos candidatos encontrou um autor brasileiro dos últimos 100 anos para citar. Será que nenhum deles ficou na memória de nenhum dos candidatos? Quanto aos livros pós-64, ou os censores não tinham razão em proibir e perseguir tantos, ou eram mais informados do que os atuais candidatos e seus assessores. Um dos proibidos é o atual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Outro Fernando, o Morais, é candidato a governador de São Paulo. O ficcionista que mais tempo ficou proibido no Brasil pós-64 ? Rubem Fonseca, com Feliz Ano Novo ? pode ter buscado inspiração em Anthony Garotinho para uma das histórias reunidas no seu livro mais recente, Pequenas criaturas. Filme nacional? Nenhum deles sabe, nenhum deles viu nada que ficasse na memória.

(*) Escritor

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