Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > PESQUISAS & ELEIÇÕES

O que vem por aí

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

PESQUISAS & ELEIÇÕES

Mauro Malin

Se houvesse vacina contra má vontade compulsiva da mídia, seria bom administrar uma boa dose agora. Pelo andar da carruagem, não passará muito tempo após a posse de Luiz Inácio Lula da Silva até que se comece a transmitir a idéia de que o novo presidente e o PT estão abandonando seus compromissos de campanha. O fenômeno, segundo um especialista citado por Orjan Olsen, diretor do Instituto Ipsos-Opinion, está caracterizado na cobertura dos inícios de mandatos nos Estados Unidos.

Olsen está entre os que repelem a idéia de que o eleitorado se deixa manipular com facilidade e de que a mídia é possuída por alguma tara congênita. Prefere ressaltar as dificuldades situadas na dinâmica do processo político e da prática jornalística. E cita uma bibliografia típica de quem fez doutorado sobre formação da opinião pública, "teoria da agenda", livros aos quais só especialistas costumam ter acesso: The Reasoning Voter: Communication and Persuasion in Presidential Campaigns, Samuel Popkin, 1991; The Mass Media Election: How Americans Choose Their Presidente, 1980, e Out of Order, 1993, ambos de Thomas Patterson. Como esses autores, Olsen está convencido de que o eleitor é um ser racional que faz suas escolhas dentro do quadro de possibilidades oferecido pelo processo.

Patterson, que em seu livro de 1980 já menciona factóides, com o nome de "pseudo-eventos", conceito que toma de um livro de 1972 (The Image, de Daniel Boorstin) -
"acontecimentos que não são espontâneos, mas criados simplesmente para atrair a atenção da imprensa"-
, define de forma simples o papel da mídia nas campanhas eleitorais americanas: "O que o eleitor vê não é a verdadeira campanha, mas a versão dela dada pela mídia".

Em seu livro de 1993, Patterson faz uma constatação que pode ser oportuna, a algumas semanas da posse de Lula. Num posfácio após o fim do primeiro ano do mandato de Bill Clinton, em abril de 1994, ele confirma uma observação da introdução do livro: é falsa a idéia transmitida sistematicamente pela mídia americana de que não se pode confiar na fidelidade dos candidatos às promessas da campanha: "Presidentes recém-eleitos cumpriram a maior parte das promessas feitas quando eram candidatos", afirma.

Clinton, que nos primeiros seis meses de mandato teve só 34% de notícias avaliadas numa pesquisa como positivas (66% negativas), conseguiu fazer com que o Congresso apoiasse suas posições em 88% das votações de 1993, medida superada apenas por Dwight Einsenhower em 1953 e Lyndon Johnson, em 1965. Mesmo assim, na avaliação da mídia, ele não estava honrando os compromissos assumidos.

Não se trata de propor habeas corpus preventivo para o governo do PT, o que seria péssimo para o país, mas de reivindicar um acompanhamento equilibrado, de modo que não haja, como tem repetido o governador paulista Geraldo Alckmin referindo-se aos partidos, um "terceiro turno" ? na verdade, a tentativa de começar em janeiro de 2003 o processo eleitoral de 2006.

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