Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > MONITOR

O que virá depois da atual invasão da América Latina pelos veículos dos EUA?

Por lgarcia em 20/06/1998 na edição 47


Argemiro Ferreira, de Nova York

 

E

m pouco tempo a América Latina será responsável por 10% da circulação do Miami Herald. No mês passado, a edição brasileira de Seleções (do Reader’s Digest) superou 600 mil exemplares. Versões em português e espanhol do Wall Street Journal, Fortune e Time circulam como suplementos de tradicionais veículos latino-americanos.

Essa invasão da América Latina por jornais e revistas dos EUA foi tema de reportagem recente do caderno de economia do New York Times, que citou a suspeita no continente de que é plano de alguns deles, depois de popularizarem os logotipos circulando como parte de tradicionais publicações latino- americanas, separarem-se e disputarem o mercado contra elas.

Conforme observou ainda o texto do Times – enviado de Recife pelo jornalista James Brooke, que durante vários anos foi correspondente no Brasil do influente jornal nova-iorquino – esse fenômeno novo na área do jornalismo impresso ao sul do rio Grande (fronteira dos EUA com o México) foi antecedido de outra invasão, ocorrida na área da TV a cabo e via satélite.

Edições em espanhol de Newsweek, Discover, People, National Geographic e Rolling Stone já tinham começado a circular há dois anos. E hoje são 20 os jornais na região que publicam versões reduzidas (duas páginas às segundas, uma de terça a sexta-feira), em português e espanhol, do Wall Street Journal, rebatizado de Wall Street Journal Americas.

Sucessos surpreendentes são as versões em espanhol de Glamour (500 mil exemplares por mês) e National Geographic (290 mil). E o presidente da divisão latino-americana do Time, que antes concentrava sua expansão internacional na Europa e na Ásia, explicou a Brooke a grande vantagem oferecida hoje pela América Latina aos veículos de comunicação dos EUA.

“Essa é a única região do mundo que se pode cobrir inteiramente só com duas línguas”, disse Hugh Wiley, ao justificar o interesse do grupo Time Warner – que também pode promover as versões latino-americanas de Fortune e Time em seus canais de TV no continente. Iniciada em março de 1998, a Time já é suplemento de nove jornais (900 mil exemplares).

No caso do Miami Herald a estratégia é favorecida por sua familiaridade com o público de língua espanhola, para o qual edita na Flórida El Nuevo Herald, que dedica atenção especial ao noticiário do continente. Em vários países, inclusive o Brasil, circula na própria versão em inglês – reduzida, transmitida via satélite e impressa em 10 oficinas espalhadas pela região.

Uma delas funciona desde o mês passado em São Paulo. “Até o fim da década, provavelmente haverá mais três pontos de impressão. A distribuição vai totalizar 35 mil a 40 mil exemplares”, disse ao Times nova-iorquino o gerente internacional do Herald, cuja circulação média atual é de 366.243 exemplares por dia.

Por que a súbita descoberta da América Latina pelas empresas de jornais e revistas dos EUA? O autor da reportagem garante ser pelos mesmos fatores que atraem outros investidores – a abertura dos mercados e a derrubada da inflação. O vice-presidente do Reader’s Digest, Mike Brennan, exemplifica com o caso do Brasil,onde a taxa de inflação caiu de quatro dígitos para 4%.

 

À margem da Constituição

“A Europa é hoje o que será a América Latina dentro de 10 anos”, prevê Brennan, eufórico com a venda a cada mês de 1,7 milhão de exemplares das versões em espanhol e português do Reader’s Digest. Na Europa e EUA o mercado de jornais está estagnado, em países como o Brasil – onde a venda de diários cresceu 9,5% nos últimos cinco anos – está em plena expansão.

No passado a tendência geral dos investimentos era bem mais favorável ao México e à língua espanhola – em detrimento do Brasil e do português. Mas há dois anos, diz o Times, o Brasil, com 160 milhões de habitantes e um mercado de automóveis cinco vezes maior do que o mexicano, passou à frente do México como a maior região receptora de investimentos externos.

Uma das empresas mais bem sucedidas nessa ofensiva latino-americana é a Dow Jones, que produz em Nova York as páginas especiais com o logotipo do Wall Street Journal e também a revista (antes mensal, agora bimensal) America Economia, que começou apenas em espanhol em 1987 e desde 1995 passou a ter também uma versão em português para o Brasil.

Latin Trade, rival da revista da Dow Jones, foi lançada em Miami pela editora Freedom Communication há seis anos e desde o ano passado tem uma versão em espanhol. A circulação atual é de 85 mil exemplares e os anunciantes são principalmente grandes corporações americanas com interesses na América Latina.

Outro sintoma do novo interesse da mídia estadunidense no mercado do sul é a busca de figurões latino-americanos para suas cúpulas nos EUA. A Dow Jones deu-se mal ao incluir Carlos Salinas de Gortari (hoje escondido na Irlanda) em seu Conselho de Administração. Mas nem por isso a Forbes Global deixou de chamar para publisher o argentino Domingo Cavallo.

Onde deseja chegar a mídia dos EUA nessa ofensiva? Editoriais recentes de alguns jornais do continente refletem temores – alguns deles citando os dispositivos constitucionais de vários países restringindo a propriedade de veículos de comunicação por estrangeiros. Há quem tema ser o objetivo final da invasão precisamente a derrubada de tais dispositivos.

Na verdade, existem restrições parecidas nos EUA. O magnata australiano Rupert Murdoch julgou conveniente naturalizar-se americano e fixar residência em Nova York antes de engordar seu império de mídia com a compra de jornais, revistas, rede de emissoras de TV e até um sistema de transmissões via satélite que já se estendeu à América Latina.

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