Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O rato moralista

Por lgarcia em 20/08/1999 na edição 73

 

Carlos Vogt

De boas intenções, diz-se, o inferno está cheio. Mas de más, é também verdade, a terra está vazando pelo ladrão.

Na noite de 4 de agosto, zapeando a TV à espera do jogo Brasil x México, decisão da Copa das Confederações, e tentando matar o tempo e espantar o sono, caí no famigerado Programa do Ratinho bem na hora em que o humano roedor introduzia uma reportagem sobre prostituição infantil em São José dos Campos, SP, mas que, conforme dito pelo repórter, poderia se passar em várias outras cidades do interior paulista.

Ratinho e o repórter se sentam nas poltronas do cenário do programa, assim convertido em sala de estar de família, que tem família com sala de estar. Se não tiver, o ícone, mesmo se visto, na telinha, de debaixo da ponte, fará as vezes de, substituindo o real pelo virtual e criando a ilusão (ideologia) da integração social, de lamber com os olhos o que a língua não pode alcançar etc. etc. etc…

Somos todos ratinhos

Os roedores se sentam, pois, nas poltronas, curiosamente observados pelo par de ratinhos que tecem comentários jocosos sobre todas as situações apresentadas no programa: fazem por nós, espectadores, as interpelações, as interferências, as alusões que, virtualmente, faríamos. Desse modo, por um artifício dramático banal, somos todos transformados em ratos e juntos com o Ratinho roemos juntos o mundo-cão que todas as noites o SBT faz desfilar na grande parada do sucesso de audiência do horário, sucesso que, aliás, é ele mesmo um quadro do próprio sucesso do programa. Haja Narciso alienado, isto é, haja auto-referência recursiva e narcisista para nenhum Frankestein botar defeito.

Porque, na verdade, é este o problema. Deste e de outros monstrengos exibidos pela televisão. A coisa é horrível, feia, desarticulada, descosida, mal-ajambrada, perversa, cruel, mas é apresentada como vazia da consciência da própria feiúra. Mais do que isso, é mostrada com uma vaidade narcisística, cuja função é apresentar o horrível como belo, o horror como piedade, o mal como bem, o pornográfico como denúncia da pornografia, o imoral como intenção de moralidade.

É este o caso da reportagem a que juntos assistimos da “nossa” sala de estar no Programa do Ratinho.

Madrugada fria e nevoenta nas ruas de São José dos Campos. Meninas de oito a treze anos de idade, viciadas em crack, segundo a apresentação do repórter, “vendem o seu corpo” para a compra da droga. As imagens são escuras e espectrais, os diálogos entre o repórter e as meninas enfatizam o triste comércio, os preços e as especialidades, borrando no som os termos chulos que as legendas transcrevem pela metade, cortados, o que significa, plena transcrição.

A missão do Super Mouse

O repórter, por mais de uma vez, repete que o delegado de polícia responsável pela região do fatídico prostíbulo está, legalmente, de mãos amarradas e nada pode fazer. Nesse momento o rato ruge, e se não fosse o outro animalzinho do programa concorrente, poder-se-ia dizer que ele se transforma em leão. Impreca contra o delegado, contra as autoridades, contra os responsáveis irresponsáveis e profere, por fim, a sentença definitiva no seu estilo definitivo: se ninguém tomar atitude ele, super mouse, vai resolver o assunto no tapa.

Dado o tapa retórico nas autoridades, aplaudido de pé pela audiência e bem comentado pelos ratinhos vassalos, dá, assim, um piparote no problema e, de olho na audiência, justifica o escatológico e o pornográfico do que foi apresentado pela intenção moralizante do apresentador.

Uma das coisas difíceis para qualquer ciência e para qualquer tecnologia, mesmo para aquelas que se ocupam da psicologia, é identificar e medir as intenções do homem em suas ações, nelas incluída a sua atividade mais importante que é a da linguagem.

“Não foi minha intenção”

Muitas teorias, em diferentes campos do conhecimento, tentam estabelecer marcas da materialidade da intenção nos atos praticados pelos indivíduos na sociedade. Não é simples e por isso sobra sempre a possibilidade de quem fez abrigar-se atrás do “fiz, mas não com essa intenção”.

Na aludida reportagem, as marcas da intenção sensacionalista são mais do que consistentes. No entanto, como o fecho do quadro é moralista, cria-se, com isso, a ilusão da moralidade e com ela passam a reboque o deboche e a exploração a que a nossa miséria humana é exposta e submetida.

Há um monstrengo ético sendo criado e alimentado todos os dias e noites de nossa exposição à sanha devoradora da esfinge da televisão, através da ação persistente e deletéria de programas de ratinhos e quejandos. Da esfinge temos o medo que é o medo ancestral de todos os medos: o medo do monstro. Temos, contudo, por ele a atração indefectível dos que dela são temerosos.

Na literatura e na ficção, em geral, aí incluídos mitos e lendas, a monstruosidade dos monstros se resolve pela consciência da própria monstruosidade. É assim no caso de Frankenstein, de Mary Shelley, no século 19 e, mais recentemente, na obra de ficção científica de Phillip K. Dick, em especial no romance em que se baseou o excelente filme Blade Runner e no conto A Formiga Elétrica, em que o narrador descobre ser um andróide e, depois de programar-se para viver plena e intensamente, acaba cometendo suicídio, cortando sua “fita de construção do suprimento de realidade”.

Monstro inconsciente

A diferença é que nossos animaizinhos-heróis, como o ratinho em questão, são ocos da verdadeira intenção ética e estética da arte. São invenções dessa caixa terrível de Pandora, cuja enorme capacidade de jorrar simulacros subverte totalmente a nossa percepção do mundo e dos valores que o estabelecem, criando, em conseqüência, em cada um de nós uma estranha e monstruosa nostalgia do real.

O grande paradoxo desse mundo virtual e pouco virtuoso é que, perdidas todas as utopias, vivemos a utopia da realidade, ou, o que é pior, a realidade como utopia.

Os ratos eletrônicos são instrumentos de corrosão do princípio de realidade.

 

 

Vera Silva

Ultimamente tenho, como psicóloga, me preocupado com a enorme quantidade de estímulos para que os adolescentes e jovens façam sexo.

Na TV não há praticamente nenhum filme e/ou novela em que não haja cenas de relacionamento sexual direta ou indiretamente apresentadas. Os casais em seus movimentos, palavras e atos induzem ao ato sexual, não importa que as relações sejam fortuitas ou de namoro estabelecido.

Nos programas musicais, enquanto a música toca, há sempre mulheres que dançam de forma lasciva, isto é, simulando os movimentos de uma pessoa durante o ato sexual. As cantoras, em geral, usam roupas que deixam parte de suas barrigas, seios e pernas expostas; os cantores usam calças bem apertadas e movimentam os quadris de modo lascivo.

Nas entrevistas que se fazem na TV e no rádio, e até mesmo em jornais e revistas, há sempre uma grande quantidade delas que se referem à vida sexual dos entrevistados com a descrição de quase todos os detalhes íntimos.

Nos programas infantis as apresentadoras se vestem com roupas bem apertadas, com parte de seios, barriga e coxas descobertas, dançam de forma sensual e levam ao programa cantores e cantoras que dançam e cantam para crianças do mesmo modo que dançam para adultos. As bonecas que as apresentadoras lançam no mercado repetem o seu padrão sensual. As perguntas que fazem às crianças são direcionadas à vaidade, ao namoro, ao casamento, ter filhos etc.

As propagandas associam seu produto à sensualidade e à habilidade de seduzir o sexo oposto. Emoção é associada a gozo sexual que se obtém quando se usa o produto anunciado. É freqüente que crianças e adolescentes sejam usados neste tipo de propaganda também.

Os efeitos

Alguns pesquisadores estão verificando um aumento da puberdade precoce associado ao excesso de estimulação erótica a que estão sendo submetidas as crianças. Várias delas estão sob tratamento para evitar as seqüelas de uma puberdade precoce: parada de crescimento, comportamento sexual descontrolado, gravidez precoce, DST etc.

Há uma intensificação no estímulo ao exercício precoce do relacionamento sexual, ligando isto ao sucesso, à inteligência e à modernidade. Numa linguagem dúbia, ensina-se à criança que sexo dá o maior barato, que tem que usar camisinha para não pegar Aids etc, mas as igrejas e as famílias continuam ensinando à criança que só o amor justifica o sexo, que a gente não pode ter filho antes da hora e que o aborto é pecado. As novelas mostram que, quando dá zebra, é melhor casar ou calar.

Não se ensina o principal: fazer sexo é o mecanismo de procriação da espécie; como tal, a espécie usa os hormônios para acender o desejo nos homens e nas mulheres para provocar a gravidez. Do ponto de vista biológico, fazer sexo já é uma tarefa dos mecanismos sexuais, não há necessidade de fazer propaganda para que façamos sexo.

É necessário, sim, informar sobre o direito à escolha sexual, o direito de fazer sexo quando for conveniente para a pessoa. É necessário que saibamos que podemos nos envolver sexualmente com alguém para que ambos tenhamos prazer e alegria, ou para expressar assim o nosso amor, ou porque desejamos ambos ter um filho. Mas, não é o que se vê na mídia. Todo mundo transa porque se ama (o clima é sempre de romance, a não ser quando quem transa é o vilão ou é um estuprador), e ninguém se lembra de usar camisinha, ou se referir a ela (mas raramente há gravidez ou doença, elas só acontecem com os outros, não é?).

E o que vemos na realidade? Um número enorme de jovens tem que enfrentar a gravidez precoce em razão do prazer obtido com o sexo. Um número enorme de jovens tem a sua vida mudada violentamente de rumo, porque param de estudar para criar um filho. Um número enorme de crianças é abandonado nas ruas. Um número enorme de crianças vira filho de avós, porque os pais são crianças demais para serem pais.

A responsabilidade

No meu entender a mídia deve corrigir esta distorção. Ela está contribuindo para isto. A TV, o rádio e o outdoor são veículos poderosos de colocação de modelos de vida (estão aí Hollywood e o american way of life que não me deixam mentir). A mídia não pode, pois, se omitir.

Que mundo queremos para nós? Ousando o exagero: vamos fazer sexo e beber até cair, depois a gente desliga a TV e o problema será desligado?

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