Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > VENEZUELA & HAITI

O repórter, a apuração e o medo

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

VENEZUELA & HAITI

Cristiana Mesquita, de Caracas (*)

Não sou do tipo que faz reflexões muito profundas sobre a minha profissão. Na maioria das vezes, minhas preocupações se limitam a saber se as informações foram verificadas pelo menos duas vezes e se as imagens estão em foco. Isso pode ser devido a uma "falha" de personalidade ou, simplesmente, vício de quem trabalha para uma agência internacional de notícias ? atividade que, como já escrevi neste Observatório, é o trabalho braçal do jornalismo, coisa de peão. Em resumo: não temos muito tempo para pensar. No entanto, os eventos que testemunhei neste mês de dezembro me inspiraram a incomodar mais uma vez os leitores do Observatório com com opiniões não solicitadas.

Escrevo da Venezuela, onde me encontro desde a sexta-feira, 6 de dezembro, cobrindo a crise política institucional que está a ponto de derrubar o presidente Hugo Rafael Chávez Frías ou levar o país a uma guerra civil. Mas antes de chegar aqui, eu havia passado 10 dias no Haiti cobrindo a crise política institucional que está a ponto de derrubar o presidente Jean Baptiste Aristide ou levar o país a uma guerra civil.

Como podem ver, histórias semelhantes mas com uma diferença importante: o Haiti não tem petróleo. Se estão se matando, quem se importa?

O que me impressionou em ambas as coberturas (e o que me levou a escrever esse artigo) foram as dificuldades que encontrei para exercer minha profissão. Sou velha o suficiente para lembrar do tempo em que sacava a minha credencial de IMPRENSA (em várias línguas) e os mares se abriam à minha frente. Bem, amigos, sinto informar que a sopa acabou.

Hoje em dia, se tivermos sorte, ouvimos um palavrão ou levamos uns tapas. No pior dos casos, acabamos com uma bala no peito ao cobrir uma manifestação. Não, isso não se deu por acaso, alguém tinha um jornalista sob a mira da arma. Foi o que aconteceu com o meu companheiro Maurício Nunes há apenas um mês, aqui mesmo, nas ruas de Caracas.

Felizmente Maurício já estava usando o nosso novo uniforme de trabalho, que leva colete a prova de balas, capacete e máscaras de gás. Transformamos-nos no primo pobre do Robocop… Aliás, a última moda agora é usar o colete por baixo do casaco ou da camisa, de modo a impedir que os malucos de plantão mirem nas pernas ou na cabeça. Quer dizer, torcemos para que eles não percebam que estamos usando um colete e atirem no peito ou na barriga. É mole?

Mas se vocês pensam que o perigo está apenas nas ruas é porque não experimentaram a noite de terror que vivemos no domingo, 8/12, quando a sede da TV Globovisión (canal 33), onde montamos nossa base, foi cercada por um turba zangada de manifestantes chavistas. Aqui eles não entraram, mas na sucursal de Zunia tiraram a emissora do ar e quebraram tudo o que encontraram pela frente enquanto os jornalistas e técnicos fugiam pela porta dos fundos. Na sede, pareceu ridículo, quase cômico, ver os jornalistas da Globovisión Caracas escalando muros para fugir pela casa dos vizinhos.

A ação contra os meios de comunicação privados da Venezuela ? que incluem TV, jornais e rádios ? foi simultânea e muito bem orquestrada. O presidente Hugo Chávez não se manifestou a respeito da investida, mas alguns membros do governo foram flagrados junto aos manifestantes.

"Ei, branca!"

Quando foi que deixamos de ser mocinhos para ser bandidos? Não sei, mas devemos estar fazendo alguma coisa errada.

A última matéria que cobri no Haiti foi uma manifestação de opositores de Jean Baptiste Aristide que celebravam um ano da morte de um jornalista na cidade de Peite Groave. Brignol Lindor foi morto com requintes de crueldade haitianos ? ou seriam cariocas? O Haiti faz um Tim Lopes por ano. Foram 8 jornalistas brutalmente assassinados nos últimos 10 anos. Nem precisa dizer que a tal manifestação terminou em pancadaria sob a névoa das bombas de gás lacrimogêneo. Até aí, tudo bem. Nada de novo. A frustração vem quando sou impedida de fazer meu trabalho simplesmente porque estou com medo.

Em outra cidade do Haiti, Gonaive, um grupo que se auto-intitula Armée Cannibale ("exército canibal"; simpático, não?) invadiu um bairro da facção inimiga e incendiou mais de 20 casas. Quando cheguei homens e mulheres choravam os parentes mortos. Quantos mortos? Onde estão os corpos? Fui perguntar ao chefe de polícia local, que me disse não ter a menor idéia. Respondeu, literalmente: "É uma guerra deles e nós não nos metemos".

Ainda assim eu tinha que saber o que ocorreu naquela noite. Fiz uma viagem de cão de mais de 5 horas em estradas poeirentas para levantar os fatos. Até aquele momento eu tinha apenas um grupo de moradores em pânico e uma polícia omissa.

Não adiantava entrar em contato com os jornalistas locais porque duas dezenas deles já estão exilados em Port-au-Prince. Foram jurados de morte pela Armée. Voltei ao bairro das vitimas e me disseram que os corpos tinham sido "desovados" numa praia ali perto. Cheguei a percorrer metade do caminho quando percebi que a área era totalmente deserta e perfeita para uma emboscada.

Essa história não seria contada. Eu, simplesmente, estava com muito medo para me arriscar.

Passei muitos meses no Haiti, em 1994 , quando todos os dias achávamos pelo menos um ou dois corpos nas valas da cidade e o país se preparava para a invasão americana. Mas nunca tinha sofrido tantas ameaças quanto agora. Nas ruas os homens se aproximavam e gritavam "Ei, branca!", e deslizavam o dedo indicador de lado a lado do pescoço.

Sem autocrítica

Aqui na Venezuela o cerco aos canais de televisão não foi uma surpresa. Nós da imprensa estrangeira já tomávamos a precaução de ficar bem longe do pessoal da imprensa local. A todo instante éramos forçados a provar que não trabalhávamos para a Rádio Caracas ou Globovisión.

A ira dos chavistas se explica. A imprensa venezuelana é incrivelmente opinativa e os canais de TV têm posições bem claras de apoio à Coordenadora Democrática, como é chamada a aliança política de oposição a Chávez. Isso explica, portanto, que os grupos radicais do partido do governo, descritos nas reportagens como "assassinos, terroristas, impostores", tenham uma profunda raiva da imprensa. O presidente Chávez, por sua vez, refere-se à imprensa local como "golpista".

Explica mas não justifica: trata-se de um ataque indireto ao direito de expressão, e este deve ser defendido com unhas e dentes até o final dos tempos. Mas esse direito vem com uma enorme responsabilidade ? que é o dever da imparcialidade ou, pelo menos, da isenção jornalística. E a maioria de imprensa venezuelana não está cumprindo a sua parte do acordo. A situação chegou a tal ponto que os dirigentes de todas as redes de televisão privadas, e diretores de alguns jornais, convocaram uma entrevista coletiva para tentarem se explicar à imprensa estrangeira.

Não adiantou. Não responderam às principais indagações dos jornalistas, que queriam saber por que não se ouvia nenhum partidário do governo nos telejornais enquanto que o líder da Coordenadora Democrática praticamente mora nos estúdios de TV. Repudiaram insinuações de que a imprensa venezuelana estava dedicada a derrubar o governo. Disseram que estavam apenas empenhados em exigir o fim da crise e eleições já.

Então, tá. Ficamos combinados assim.

No mais foi muito choro e histórias de jornalistas atacados nas ruas e carros de reportagem destruídos. Nenhuma autocrítica.

Observei que os jornalistas daqui não têm o menor pudor em usar bottons de apoio à oposição e escrever "Fora Chávez" nos seus carros. Aprendi que meu partido político é o jornalismo e o máximo a que me permito é o escudo do meu Fluminense no pára-brisa. Seria eu um dinossauro? O jornalismo mudou e eu não percebi? Pensadores de plantão, HELP!

(Atenção. Todo mundo deve correr para comprar Vivir para contarla, de Gabriel García Márquez. Se não fosse a obra-prima do Gabo a iluminar meus poucos momentos de folga já estaria me desesperando com a perspectiva de passar mais um Natal longe de casa.)

(*) Jornalista

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