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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E SOCIOLOGIA

O Rio sem ritos

Por lgarcia em 30/01/2002 na edição 157

MÍDIA E SOCIOLOGIA

Gilson Caroni Filho (*)

Passado quase um mês já não se fala mais no grande fiasco que foi o reveillon no Rio de Janeiro. A mídia parou de buscar as razões do fracasso em supostas tecnicalidades. Da Praia de Copacabana ao bantustão de Ramos, o público ficou muito aquém do esperado. O desânimo da platéia exasperou a sambista Ivone Lara que, na Praia do Flamengo, se apresentava para uma multidão que só demonstrou entusiasmo na hora de aplaudir a queima de fogos. De Niterói. O que aconteceu de fato?

Valeu tudo para explicar a reação fria da multidão. Do número de balsas em Copacabana, passando pela quantidade insuficiente de fogos, ao erro de previsão das condições do tempo. A prefeitura cogitou processar o Instituto de Meteorologia. Este deve ter amaldiçoado o desatino da frente fria que lhe pregou a peça. Faltou alguém que imputasse a culpa ao adiamento do jogo do Flamengo na decisão da Mercosul. Afinal, a depender do humor de Petkovic, milhões de rubro-negros tiveram sua alegria adiada. Fica como sugestão para o próximo ano.

A questão central, convenientemente, nem sequer foi tangenciada. As principais festas do Rio, reveillon (rito de passagem) e carnaval (rito de inversão) estão mortas como manifestação de espontaneidade e criação popular. De há muito foram aparelhadas pela mídia e editadas ao sabor das conveniências da grade. A rede hoteleira e os órgãos municipais de turismo transformaram a festa em melancolia vendida em estado bruto como pacote.

Se o leitor tem mais de 40 anos, há de se lembrar das passagens de ano e do carnaval nos anos 60/70. O reveillon era celebrado na orla da Zona Sul por blocos e bandas das ruas transversais à praia. Dali vinham a coreografia e as músicas que animavam a festa. Os fogos soltados por populares coroavam os belos espetáculos proporcionados por agogôs e atabaques que marcavam as oferendas às divindades afro-brasileiras. Ia-se às ruas para fazer a festa. A festa era a rua reconstruída pelo imaginário popular. O espectador se comprazia com sua obra. Nas areias, famílias confraternizavam junto a casais que se prometiam embebidos em suores e chopes. Uns e outros amparados pela autenticidade de um rito de passagem que ignora pequenas interdições e se abre a planos inadiáveis.

Barbárie adiada

Já o carnaval de há muito perdeu sua generosidade orgiástica. Sua pulsão vital de rito de inversão é algo pretérito. A generosidade erótica foi substituída pela pornografia mais digerível e facilmente comercializável em fitas. As madrugadas se encheram de coberturas ao vivo (filão da TV Bandeirantes) de casais com a libido centrada nas câmeras. Sumiram a crítica social e o folião autêntico virou voyeur da sexualidade editada. Homem vestido de mulher pouca graça traz nesses tempos insuportavelmente andróginos. Míseros lordes e ricos mendicantes já perderam o encantamento numa ordem anômica e que tem na perversão sua gênese histórica.

O desfile das escolas tem como protagonista central o relógio digital da Sapucaí. Há um tempo a ser cumprido. Deve-se atravessar a avenida no menor tempo possível, cumprindo a contento todos os quesitos. Momo virou um sorridente taylorista. Mais emblemático que o tempo da ordem impossível. E, no entanto, ao sabor da vinheta globeleza, fingimos estar em pleno regozijo momesco, mesmo que à nossa volta impere o silêncio sepulcral das ruas desertas. Só quebrado por um desavisado que não se percebe fantasiado de tempos pretéritos.

Em ambos os casos há um duro revés. Não bastassem as desigualdades da cidade partida, a violência do crime em escala ascendente, a pauperização crescente de uma população jogada na informalidade do mercado, a malemolência que não obedece à batida mas à cadência da dengue, o carioca viu seus sistemas simbólicos serem apropriados e, por conseqüência, reelaborados pelo sistema produtor de mercadorias. De ator foi transformado em espectador. De anfitrião da festa a convidado com hora marcada para ir embora.

Se calor há nesses eventos, humano ele não é. A falha da queima de fogos ou o número insuficiente de balsas não são eixos centrais da melancolia do reveillon. De há muito vivíamos o mal-estar de um evento que se encerrava na pirotecnia promovida pelos hotéis da orla. Após a estupefação bovina, o retorno cadenciado para casa.

Se alguma falha operacional houve ela se presta apenas a uma analogia. É como aquela televisão que esconde o silêncio de uma família que já não se tolera. Se ela pifar, a falência afetiva fica insuportavelmente evidenciada. Melhor dormir. Balsas mal posicionadas ou mudança de perspectiva no campo visual dos fogos, o que importa é que, seja lá o que tenha dado errado, uma coisa ficou nítida. De há muito não comemoramos nada.Além da falta real de motivos, vivemos os mais indigentes níveis de sociabilidade, o mais gritante vazio.

Brindamos o "futuro". Exorcizamos o devir. Somos os expropriados de história aporeticamente saudando o Ano Novo. Em que, não sabemos.

A poucos dias do carnaval, o tédio se traveste de falha no sistema acústico ou frente fria ameaçadora. Os álibis têm adereços permanentes para qualquer urgência. O Rio sem ritos prefere dormir e conferir na quarta-feira qual agremiação venceu na Sapucaí. Nos dois dias anteriores as emissoras de TV estarão divulgando as "eleitas pelo povo". Que a tudo continuará assistindo bestializado. Mas dando um "show" de cordialidade, deixando a barbárie para quando a última câmera for desligada e a pauta mudar o enredo.

(*) Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso

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