Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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O riso como editor

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

HUMOR E OMISSÃO

Muniz Sodré

Durante uma recente apresentação do programa Observatório da Imprensa na TV-E (Rio de Janeiro), ocorreu-me comentar rumores de que uma equipe do Fundo Monetário Internacional (FMI) trabalha desde 1998 dentro do INSS, sem que isso tenha-se tornado fato noticioso. E trata-se, sem sombra de dúvida, de notícia importante, uma vez que cidadãos estrangeiros funcionariam em nosso território nacional como uma espécie de auditores extraordinários, fazendo levantamentos, planejando e, pasmem, entrevistando juízes.

"Ou não!", como diria Caetano Veloso. Isto é, as coisas não seriam bem assim, poderia não estar havendo essa intervenção fiscalizadora, mas seria no mínimo interessante saber o que fazem exatamente esses homens aqui. Por que a imprensa nada nos contou? "Porque não sabia", respondeu-me na hora, mesmo do programa, um experiente e veterano jornalista convidado.

Surge, então, uma questão relevante. Cabe nos perguntar se a imprensa não deveria necessariamente estar a par de uma coisa dessas, e se o desconhecimento não constituiria uma falha grave em seu alegado empenho histórico de publicização de fatos vitais para a coletividade.

De fato, pela imprensa vivemos abarrotados de informações sobre as telenovelas em andamento, as vicissitudes dos astros da música e das telas, a criminalidade da classe política; enfim, sobre tudo que se espetaculariza. Em seu atual formato, a mídia parece querer nos matar de tanto riso ou de emocionalismo lacrimejante. Muito pouco nos diz ela sobre os reais mecanismos de decisão na tecnoburocracia de Estado que rege nossas vidas.

Coisas sérias

Mas esse riso desabrido, que esconde um certo tipo de repressão, também pode fazer mal ao jornalismo. Num livro recente (Manifeste), Jean-Paul Cunier, excelente cabeça francesa, sustenta sermos diariamente forçados a constatar que a perfeição do totalitarismo é "ter sabido fazer da submissão de todos uma fonte inesgotável do cômico". Esse riso adviria não do desespero, mas da demonstração contínua e quotidiana de que não há nada mais a esperar.

Ele seria, assim, portanto, "a forma invertida da coisa pouca que cada um se tornou, a forma invertida do pouco de esperança que deixa à aventura humana o acabamento perfeito duma domesticação da existência, doravante tão total que não oferece mais refúgio a ninguém, nem mesmo em imaginação".

O que afirma Cunier com todas as letras é que a dominação acaba por ser tão perfeita que "ri finalmente no riso daqueles que ela esmaga e submete". É ela que ri de sua própria infalibilidade. Daí ser hoje o riso inseparável do tratamento das coisas ditas sérias. Para o sistema dominante, seria forçoso cada um convencer-se de que a indignação e a revolta não levam a nada e de que o velho pathos humanista, onde circulam o caráter e a solidariedade, é fundamentalmente ridículo.

Porta do inferno

Efetivamente, na esfera publicitária, sucedânea da clássica esfera pública (animada pela imprensa livre e pela representatividade política), o sério é cada vez mais percebido como "chato". Isto vem sendo comum a todas as tecnodemocracias ocidentais, embora alguns países tentem contrabalançar a avalanche do "divertido" lixo cultural reciclado, ou o atropelo do riso cruel, com a preservação de áreas de jornalismo combativo e analítico. As investigações jornalísticas, as análises, que muitas vezes rivalizam com bons textos acadêmicos, são resultados dessa preservação.

Isto se faz, porém, cada vez mais raro. No Brasil, desde o final do regime militar ? longo período de predomínio do press release e das notícias de fonte oficial ?, os noticiários nacional e local vêm-se caracterizando pela burocratização do texto. Tornaram-se raras as grandes reportagens, ao mesmo tempo em que o jornalismo investigativo tende perigosamente a confundir-se com grampeamento de telefones. Em contrapartida, elevou-se o humor, tenta-se rir de tudo.

Nesta atmosfera, a presença de uma equipe estrangeira no centro da tomada de decisões sobre aposentadorias passa praticamente despercebida, não tem nada de espetacular, nem de escandaloso, nem de risível. A omissão jornalística está como que nos dizendo que não há mais nada a fazer, que é preciso abandonar toda esperança, como está dito no pórtico da entrada para o inferno, segundo Dante Alighieri.

    
                         

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